muito além das estatísticas

PSICÓLOGA BAIANA VIVEU A FACE MAIS OCULTA DOS ATENTADOS, TRATANDO DE VÍTIMAS INDIRETAS DA TRAGÉDIA E ENCARANDO CASOS QUE CHEGARAM AO SUICÍDIO


NOVA IORQUE – Um homem troca de turno com um amigo de trabalho para poder levar o filho à escola em seu primeiro dia de aula. Quando volta do colégio, realizado como pai, liga a TV. Vê o local onde trabalha, o luxuoso restaurante Windows on the World, no World Trade Center, em chamas. Assiste à morte de centenas de pessoas. Seu colega está entre as vítimas. Ele não admite pensar que deveria estar no lugar do amigo. Sente-se culpado. Encurralado pela própria consciência. Não aguenta conviver com o peso de uma responsabilidade que o destino, injusto, lhe imputou. Comete suicídio. Seu nome não está nas estatísticas. Ele não é um dos 2.973 mortos nos atentados. Morreu aos poucos, de uma doença da qual muitos, até hoje, uma década depois, não conseguiram se curar: o trauma.Esta nódoa psicológica, às vezes inconsciente, não se mede em números.


A vítima indireta do 11 de Setembro descrita acima chegou a receber tratamento psicológico da soteropolitana Clélia O’Connell, 61 anos. Não teve jeito. A nordestina trabalha como assistente social no Fordham-Tremont Community Mental Health Center, afiliado ao Saint Barnabas Hospital, que criou uma unidade para atender exclusivamente vítimas dos atentados terroristas em Nova Iorque. “O rapaz se sentiu culpado por ter sobrevivido, por ter trocado de horário com o amigo. Ele não pôde tolerar esse peso e acabou tirando a própria vida”, explica a baiana.
O trabalho empreendido pelo Fordham-Tremont começou duas semanas após a tragédia e durou seis meses. Foram tratadas cerca de cem pessoas que, de alguma forma, estavam ligadas ao evento e desenvolveram estresse pós-traumático devido ao choque. O dia que expôs as fraquezas de um país e de um povo que sempre se julgaram fortes, inatingíveis.


O banho de realidade sujou o futuro. Três pessoas se suicidaram no decorrer do tratamento, incluindo o funcionário do Windows on the World, instalado desde 1976 nos 106º e 107º andares da Torre Norte do World Trade Center. Os proprietários do restaurante haviam investido US$ 25 milhões em reformas e campanhas de publicidade após o atentado de 1993. No ano anterior ao 11 de Setembro, o estabelecimento deu lucro líquido de quase US$ 40 milhões, o que lhe conferiu o título de restaurante mais caro dos EUA. Não existe mais.


Clélia, que tem mestrado em psicologia pela Universidade de Massachusetts e em assistência social pela Universidade de Nova Iorque, recebeu a missão de tentar recuperar pessoas que sofriam com pesadelos, flashbacks, fobias relacionados ao 11 de Setembro. “As pessoas que passam por esse tipo de experiência negativa ficam com estresse pós-traumático. Muitas tinham medo de voltar ao local onde tudo aconteceu”, afirma. A brasileira lidou com gente que estava no prédio, que ficou presa em elevador, que não conseguiu sair do metrô. Estava em casa quando os dois aviões cruzaram as Torres Gêmeas, mas vivenciou a tragédia de perto, em suas facetas mais dolorosas. Viu o 11 de Setembro ir além de um dia. Ouviu uma, duas, cem vezes relatos de quem não conseguia se desvencilhar das lembranças.


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A parte mais difícil do tratamento foi, segundo a especialista, os primeiros três meses, fase do chamado estresse agudo. A terapia tem o papel de fazer os sintomas adormecerem no inconsciente das vítimas. Eles podem jamais despertar, mas não há garantia. “Conheço gente que não anda mais de elevador e de metrô por causa do trauma”, aponta ela.


Imediatamente depois da tragédia, Clélia precisou fazer uma reunião às pressas com pacientes do hospital, que viram ao vivo pela televisão o espetáculo de terror. Gente deprimida, esquizofrênica, psicótica, que não estava preparada para lidar com situações do tipo.
O Fordham-Tremont fica no Bronx, único distrito de Nova Iorque que não está em uma ilha. Berço do hip hop, é a região mais pobre da cidade, com 30,7% da população de 1,4 milhão de pessoas abaixo da linha da pobreza. De acordo com o Censo 2010, 30% de seus habitantes são afro-americanos e 53%, latinos, sobretudo caribenhos. A despeito dos números, o Saint Barnabas Hospital, onde Clélia trabalha há 16 anos, é um dos melhores centros de trauma dos EUA. “É comum bala e facada lá”, conta.


À porta da aposentadoria, a baiana tem uma rotina incessante. O expediente no Fordham-Tremont é de segunda a sexta-feira das 9h às 19h. Em seu consultório, atende nas terças e sextas das 18h às 21h, nas quartas e quintas até meia-noite e nos sábados das 11h à meia-noite. O domingo é dia do sagrado descanso. É quando o trabalho dá lugar ao lazer e Clélia pode assistir a filmes, espetáculos de teatro e apresentações musicais. O lugar preferido é o Lincoln Center, em Manhattan, complexo de edifícios que abriga 12 companhias artísticas. Foi lá onde ocorreu seu ensaio fotográfico. No meio da sessão de fotos, 22h do dia 1º de junho, um policial apareceu para perguntar o que se passava. Tomou ciência e foi embora. O trauma está no dia a dia, ainda.


A rotina puxada permite a Clélia viver, hoje, numa condição diferenciada em relação à maioria dos imigrantes. Mas o caminho até o conforto não foi fácil. A nordestina está nos EUA desde 1975. Viajou, a princípio, para fazer faculdade. Aportou sem falar inglês. Assim que chegou, comprou um gravador e passou a gravar todas as aulas. Ouvia a fita em casa. Repetiu o mantra por um ano. Estudou, trabalhou, casou-se, trabalhou, separou-se, trabalhou. Oitava filha de uma família de nove irmãos, Clélia é cidadã americana. Tem carro de luxo e casa própria. Mora na pacata vila de Larchmont, no condado de Westchester, a 40 minutos de Manhattan e o segundo mais rico do Estado – com US$ 75 mil de renda média mensal para uma residência de uma pessoa e 6,4% de miseráveis.

 

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