Depoimentos



Parecia uma terça-feira como outra qualquer, exceto pelo fato de estar atrasado para a aula. Costumo ser pontual, mas especificamente naquele 11 de setembro de 2001 cheguei um pouco mais tarde que o usual ao câmpus da Universidad Iberoamericana em León, Guanajuato, região central do México. Ao entrar na sala, porém, ufa: nem professora, nem alunos. O alívio, no entanto, logo deu lugar a um sentimento de estranheza. Chegara ao México havia pouco mais de um mês, para um intercâmbio estudantil de um ano, quando ainda cursava jornalismo, mas já era tempo suficiente para saber que os professores mexicanos são ainda mais rigorosos com o horário do que os brasileiros. Deixei o caderno na sala e fui procurar saber o que havia acontecido. No laboratório de TV, um pouco mais adiante no corredor, encontrei pelo menos 30 pessoas em torno de um pequeno monitor, entre elas colegas e a professora. Algo já me dizia que definitivamente aquela não era uma terça-feira comum.


“O que houve?”, perguntei a um colega. “Você não viu? Dois aviões bateram no World Trade Center”, respondeu-me. “Que World Trade Center?” É, a pergunta foi tola. Porém não mais tolo do que seria imaginar um dia que aquilo que acabara de escutar seria possível. “As Torres Gêmeas, em Nova Iorque”, confirmou meu colega.
“Não pode ser”, pensei em voz alta. Eu, como dez entre dez seres humanos na face da Terra, custava a acreditar naquilo. Até que vi na televisão as duas torres, símbolo maior do imperialismo americano, expelindo uma enorme nuvem negra. Câmeras mais aproximadas mostravam pessoas, num ato de desespero, jogando-se dos prédios. Mas o susto maior veio em seguida. A Torre Sul do WTC desabava diante dos meus olhos.


Meu pensamento não poderia ter sido outro: menos de três anos atrás havia visitado Nova Iorque, durante outro intercâmbio estudantil, desta vez aos EUA, e subi até o topo de uma das torres. Ainda estava muito viva na minha memória a imagem de carros e pessoas lá embaixo. Pareciam de brinquedo, miniaturas, metáfora da realidade política mundial. Era mais ou menos assim que os Estados Unidos, única superpotência econômica e militar do planeta, deviam ver a maioria dos interlocutores nos fóruns mundo afora. E agora, por traquinagem de Deus sabia lá quem, o prédio implodia.


“Nossa”, exclamava alguém. “Meu Deus”, dizia alguém mais. “Bem feito”, acrescentava outro colega. Se alguns brasileiros têm motivos de sobra para odiar os EUA, os mexicanos têm dez vezes mais, mas comemorar uma cena grotesca daquelas era um pouco de exagero, pensei. Ainda assim, até hoje não sei descrever o que senti naquela hora. A ficha custava a cair. Pensei, então, na família americana que me hospedou. Eles moravam em Massachusetts, Estado vizinho ao de Nova Iorque, a centenas de quilômetros de distância, mas como diziam na televisão que outro avião havia se chocado contra o Pentágono e um quarto estava desaparecido, não podia descartar totalmente o perigo.


Não cheguei a ver a Torre Norte cair. Só recebi a notícia quando uma colega mais atrasada do que eu chegou contando na aula. Aula que, por sinal, acabou também mais cedo. Não havia como se concentrar e a professora sabia disso. Ninguém falava em outra coisa. Ao sair da sala, a primeira coisa que fiz foi ir ao laboratório de informática. Ansiava por ler nos sites jornalísticos alguma explicação convincente para o que estava acontecendo. Mas nem os profissionais da notícia pareciam estar muito seguros do que escreviam. Também não sosseguei até saber, por e-mail, que a família que me hospedara nos EUA estava bem. Senti-me aliviado, mas não por completo. Sabia que muita coisa mudaria a partir daquele 11 de Setembro.