O TERROR VISTO DE DENTRO

DA JANELA DE UM DOS PRÉDIOS DO COMPLEXO DO WORLD TRADE CENTER, BAIANA ASSISTIU AO ATAQUE ÀS TORRES GÊMEAS. CONSEGUIU FUGIR E VIU O EDIFÍCIO ONDE TRABALHAVA RUIR, ATINGIDO POR ESCOMBROS DAS TORRES


NOVA IORQUE – Ela não sabe como, dez anos depois, está viva para contar esta história. Viveu a tragédia de dentro, foi parte daquele drama, dia em que os Estados Unidos foram atacados em seu coração por inimigos estrangeiros no maior atentado terrorista da história, dia que mudou o rumo do mundo e desta baiana. A bancária Consuelo Jaqueira, 58 anos, chegou ao complexo de edifícios do World Trade Center em 11 de setembro de 2001 para mais um dia de trabalho. Quase não saiu. A morte bateu à porta, vestida de intolerância. Levou 2.749 vidas. Consuelo sobreviveu. É uma das 11 histórias que o Jornal do Commercio atravessou o hemisfério para buscar e recontar, sob olhares nordestinos, os dez anos do mais portante fato histórico pós-Guerra Fria.

Nascida em Ipiaú, a 353 quilômetros de Salvador, e formada em secretariado, Consuelo foi aos EUA pela primeira vez em 1980. Ficaria um ano em Denver para estudar inglês, mas se casou com um americano. Separou-se menos de dois anos depois, viajou à Europa e voltou aos EUA, desta vez para Nova Iorque. Foi aí que se encontrou. Começou a carreira bancária, primeiro como recepcionista, depois assistente de investimento, até que virou supervisora. O banco em que trabalhava foi vendido 14 anos depois de ela entrar e, em 1996, viu-se obrigada a fazer o caminho de volta. Ensinou inglês por quatro anos no Rio de Janeiro e decidiu outra vez, em 2000, tentar a sorte em terra americana.

Consuelo foi contratada pelo banco inglês Standard Chartered, que funcionava no edifício 7 do WTC, na ilha de Manhattan, um dos cinco distritos de Nova Iorque. O fatídico 11 de setembro de uma década atrás era apenas mais um dia. Uma terça-feira como outra qualquer. Ela começava o expediente às 9h, mas naquele dia chegou às 8h30. O destino a colocou na história. Exatamente às 8h46, hora em que o Boeing 767 que fazia o voo 11 da American Airlines, sequestrado por cinco radicais islâmicos, acertou a Torre Norte do WTC.

“Estava conversando quando houve o primeiro impacto. As luzes começaram a piscar, o prédio ficou tremendo. Pensamos que o choque tivesse sido alguma coisa no nosso edifício. Foi quando vimos o avião dentro de uma das Torres Gêmeas”, conta ela, na praça iluminada em frente ao Plaza Hotel, após meia hora de um forte temporal de junho deste ano, em pleno verão nova-iorquino. “Lembro-me como se fosse hoje do buraco no 80º andar, o prédio pegando fogo, a fumaça se espalhando”, acrescenta. “Eu pensava que tinha sido um acidente, mas uma senhora que já havia pilotado aeronaves disse na hora que se tratava de um ataque”, completa.

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A primeira ordem era ficar distante das janelas, mas um impulso inconsciente levava todos os olhos para o inacreditável. O segundo avião, voo 175 da United Airlines, com cinco suicidas, cruzou a Torre Sul às 9h03. O medo virou pânico. A suspeita virou certeza. Outros cinco terroristas, no voo 77 da American, atingiram o Pentágono, na Virgínia, às 9h37, deixando 184 mortos. Uma quarta aeronave, voo 93 da United, caiu 26 minutos depois com 40 pessoas a bordo, sendo quatro extremistas, na Pensilvânia antes de chegar ao alvo – a Casa Branca ou o Congresso. Ao todo, foram 2.973 mortos, além dos 19 radicais.

Àquela altura, imperava um desejo unânime de abandonar o prédio correndo, mas o desespero seria mais um inimigo. A segurança logo ordenou: ninguém deixa o prédio. A evacuação ocorreria lentamente, de baixo para cima. O prédio tinha 49 andares. Consuelo estava no 24º. O risco subverteu o tempo. Minutos demoraram anos. Enquanto esperava sair do pesadelo, a nordestina ligou para o namorado, em Nova Iorque, e para a família, no Brasil. “Eles mandavam eu ir embora de todo jeito, mas eu não podia”, relata. Os telefones celulares, pouco depois, pararam de funcionar. Vidros se espatifaram.

A imagem de pessoas se jogando 400 metros abaixo nas Torres Gêmeas em meio à nuvem de fumaça e aos gritos de socorro aumentava o drama. “O mais impressionante é que, apesar do medo, do desespero, de tudo, ninguém no prédio gritava. Na verdade, ninguém sabia o que fazer. Ficamos todos estáticos, impotentes”, lembra. A baiana agarrou-se à Bíblia, que a fé era o que lhe restava. “Só pensei em Deus todo o tempo. As pessoas ao meu redor passavam mal e eu só fazia orar, pedindo proteção. Não sabia o grau do perigo que estava correndo”, rememora Consuelo. Neste momento da entrevista, as lágrimas interrompem a conversa.

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Quase uma hora depois do começo dos ataques, veio o anúncio para deixarem o WTC 7 pela saída de emergência. “Todo mundo saiu em silêncio, de forma ordeira. A segurança pediu principalmente para não tumultuarmos as escadarias, por conta da experiência anterior”, diz, em referência ao atentado de 26 de fevereiro de 1993 ao mesmo WTC, quando um carro-bomba, com 680 quilos de combustível e nitrato, foi detonado por extremistas no parque de estacionamento subterrâneo. A fumaça chegou até o 46º piso e a desorganização na evacuação foi apontada como fator de aumento dos danos. Seis pessoas morreram e 1.042 ficaram feridas.

Consuelo, após descer do complexo, ficou no meio de uma multidão imóvel, que tentava entender o inexplicável enquanto mais vítimas sufocadas pela fumaça negra da explosão atiravam-se para a morte. “Sempre que alguém caía, o silêncio se rompia e era grito atrás de grito.” Minutos adiante, o mesmo destino que a colocou como testemunha da história livrou-a de um desfecho trágico. Consuelo estava com os amigos bancários assistindo à operação de resgate quando sentiu que deveria deixar o local. Na hora, falou com os colegas para saírem dali. Quase não dá tempo. Só o necessário para um grupo de policiais reforçar o pedido dela e ordenar a debandada urgente. Instantes depois, às 9h59, a Torre Sul foi abaixo. Vidas, sonhos, um símbolo da imponência americana no seio de Manhattan reduzidos a pó, fumaça e lágrimas.

“Só vi a poeira. Saí correndo sem olhar para trás. Estava totalmente adormecida, anestesiada naquele momento. Centenas correram junto comigo, nem vi se o pessoal do trabalho vinha junto”, descreve ela, entre um gole e outro de água, sede de querer não lembrar e não conseguir esquecer. A nordestina correu dois quilômetros em meia hora, até a Christopher Street. Não sabia aonde ir, só pensava em se afastar do que a perseguiria pelo resto da vida. “Quando me dei conta, comecei a chorar. Pensei que o mundo ia acabar, que ia começar a Terceira Guerra Mundial. Aeronaves não paravam de sobrevoar os céus de Manhattan. Era um cenário de guerra. Nunca vi nada igual. Achei que morreria também, não sabia como tinha ficado viva. Eu estava trêmula. Gente que eu nunca tinha visto começou a me abraçar, chorando”, desabafa, ofegante.

Exausta, Consuelo ainda achou forças para doar sangue em um posto de coleta montado às pressas para ajudar vítimas do ataque terrorista. Da 7ª Avenida, viu a queda da Torre Norte, às 10h28. Os escombros atingiram o WTC 7, iniciando um incêndio. O edifício queimou até sucumbir, às 17h21 do mesmo dia. “A essa hora, eu já estava em casa. Foi quando me senti pior. Vi meu prédio ruindo pela TV, me vi desempregada, sem horizonte, sem saber o que iria acontecer”, revela. “E só então consegui falar com meu namorado. Ele achava que eu tinha morrido.”
A agência bancária na qual atuava, em poucas horas, não existia mais. Consuelo, contudo, recebeu um chamado de emergência e foi convocada a trabalhar no dia seguinte em outro escritório do mesmo banco, em Nova Jérsei. A vida precisava seguir.

Ainda na noite do episódio, Consuelo recebeu em seu apartamento, no entorno da tragédia, a visita de amigos, que a convenceram a sair para jantar e, assim, tentar refrescar a cabeça. A boa intenção provocou efeito contrário. A iluminada Manhattan de sempre morreu em 11 de setembro de 2001 – demoraria a renascer, traumatizada. Escuridão e silêncio afeiçoavam o cenário macabro do que parecia uma cidade-fantasma. A fumaça escura teimava em pairar sob o céu e o cheiro de cadáveres desorientava. “A sensação era de que Nova Iorque havia se transformado num cemitério. Estava tudo fechado, abandonado, como se todo mundo tivesse fugido. Parecia que estávamos em um filme. Aquilo marcou minha vida”, sentencia .

 

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