A redenção pela fé

JABOATONENSE DEIXOU VIDA DE FARRA NO BRASIL E ACABOU FUNDANDO IGREJA NOS EUA. COM O MARIDO, DISTRIBUI ALIMENTOS PARA O CORPO E A ALMA NAS RUAS DE NEWARK


NEWARK – A reportagem se dirigia para a Newark Penn Station na manhã do domingo 5 de junho quando, na praça em frente à estação, em plena Ferry Street, principal rua da cidade, avistou uma aglomeração de mendigos, viciados e pessoas carentes diante de uma van. Eles formavam uma longa fila. Maltrapilhos, mas felizes. Esperançosos. Nos Estados Unidos também tem fome, pobreza, miséria. Não há capitalismo sem oprimidos. O veículo tinha as portas abertas. À sua frente, mesas improvisadas com comida, bebida, roupas e calçados. A barriga vazia implorava vez. Uma mulher de cabelos grisalhos e blusa preta, ante um calor de quase 40 graus, gesticulava e palestrava para o grupo, cerca de 50 pessoas. Levava uma palavra de fé e consolo à massa sem rumo. Nos aproximamos invocados pela curiosidade. A coincidência assustou. A mulher que liderava a entrega de donativos era a pastora Dayse Salema, 51 anos, natural de Jaboatão dos Guararapes. Uma história nordestina descoberta por acaso. Ou por destino, como ela prefere dizer.


No Brasil, pastora Dayse não existia. Era só Dayse, a profana. Fala sem vergonha que a vida no bairro de Piedade sempre esteve distante da religião. “Era totalmente diferente. Só queria saber de praia, cerveja e balada. Não tinha compromisso com nada. Levava uma vida desregrada”, conta.
Dayse está nos Estados Unidos desde 28 de janeiro de 1999. Diz que rumou guiada por Deus. Bancária de carreira, viu as portas se fecharem para ela em Pernambuco. Não recebia ajuda, tampouco queria se ajudar. Estava desempregada havia oito meses. Então, partiu da irmã, Norma Brayner, 54, um convite para morar nos Estados Unidos. Norma, também pernambucana, já residia em Nova Iorque havia mais de 20 anos e trabalhava como diarista. “Entendi que Deus tinha fechado as portas no Brasil para mim. Ele queria que eu fosse para os EUA”, afirma.


A pernambucana levou a filha, à época com 13 anos. Só havia uma exigência feita por Norma para que Dayse permanecesse na cidade nova-iorquina de Long Island, onde ela morava: frequentar a igreja. A jaboatonense, a princípio, topou. Mas não conseguia abandonar a rotina do passado. Ficou vivendo duas vidas opostas, incompatíveis. Igreja nos fins de semana, noitadas de terça a domingo. Enquanto isso, seguiu o ofício de Norma e passou a trabalhar como diarista. Brigou com a irmã por causa da rebeldia e saiu de casa em menos de um ano.
Mas, para a Dayse de hoje, nada é por acaso. Oito meses depois, em 2001, largou uma das vidas. Abraçou a fé. Virou evangélica frequentadora da 1ª Igreja Batista de Língua Portuguesa de Nova Iorque, mesmo templo de sua irmã. Festas e bebedeiras, nunca mais. A transformação repentina não tem explicação racional. “É sinal divino”, ela costuma frisar.


  • ASSISTÊNCIA Dayse (de boné) distribui comida na rua.
  • PASTORES Dayse com o marido, antes conhecido como Robinho Capeta, na Igreja Fé e Esperança, fundada por eles



profecia

Dayse engatinhava na vida evangélica em 11 de setembro de 2001. Uma década depois, pastora com duas ordenações, pela Charity Baptist Church e pela Igreja Batista Manauí, e uma média de dez cultos por mês, diz que sua fé explica a tragédia. Responsabiliza o extremismo islâmico, estende a culpa à humanidade. “É o final dos tempos. As profecias bíblicas estão se cumprindo. É a ira de Deus diante da desobediência do homem”, avalia.
É radical, mas hostil ao radicalismo. Quando fala, esquece que sua vida sempre foi de extremos. Primeiro, a total falta de regras. Depois, a fé cega, a generalização injusta. “Os islâmicos não poupam nem a própria vida. Para eles, quanto mais matarem, melhor. Falam que têm uma causa, mas causa nenhuma justifica o ódio. Isso é o demônio”, completa a religiosa.


A fé extrema de Dayse passou por provação em 2004. A nordestina conheceu Robinho Capeta, 50, mineiro, satanista, drogado, traficante de crack, cocaína e heroína nos EUA. Robinho, que era membro de uma gangue em Newark, chegou a ser preso três vezes num só dia. Além de traficar, praticava assaltos. Perdeu as contas de quantos tiros disparou. “Eu mirava a perna sempre. Fazia por maldade”, conta ele, que tinha oito irmãos e cresceu acossado pela violência do pai na humilde Vila Matias, hoje município de Matias Lobato (MG). “Eu fui criado para odiar.”


Em mais uma jornada dedicada à criminalidade, ele drogou-se em Nova Iorque e voltou a Newark com mais cocaína. Alimentou o vício também em seu apartamento. Seria seu último dia. “Olhei no espelho e senti vontade de me matar. Mas o diabo mandou eu matar muitas pessoas antes de tirar minha vida. Desci para a rua armado. Não aguentava mais. Achei que aquilo resolveria todos os meus problemas”, relata. Estava magro, imundo, fora de si. Saiu de casa decidido: atirar em quem encontrasse pela frente na rua, seguir até um café para cometer mais assassinatos, entrar em confronto com a polícia e dar um tiro na própria cabeça. “Foi nessa hora que pensei: ‘Se você é Deus e existe mesmo, não me deixe fazer o que eu quero fazer’. Hoje estou aqui e sou pastor em nome de Deus”, enfatiza.
Robinho, que estava acordado havia dias sob o efeito das drogas, desmaiou. Dormiu por três dias. Acordou decidido a mudar de vida. Procurou uma igreja evangélica. No culto, conheceu Dayse. A pernambucana levou sua palavra de fé ao mineiro. Mesma palavra que hoje ele empresta a centenas de drogados, prostitutas, bandidos e moradores de rua na Igreja Fé e Esperança, fundada por ambos no último mês de abril.


Robinho Capeta virou pastor Robinho de Jesus. Casou-se com pastora Dayse. Estão juntos há sete anos. “Foi ela quem me tirou daquele cativeiro. Parei de me drogar e de beber sem clínica, sem remédio. Bastou a fé em Deus”, ressalta ele. “Deus me usou para fazer uma libertação na vida de Robinho”, complementa ela, mãe de três filhos, de 25, 28 e 30 anos, que moram no Brasil. Robinho e Dayse dividem a atividade religiosa com os empregos como motorista e diarista, respectivamente.
Juntos, realizam trabalho assistencial todos os domingos. Recebem doações e aportam em algum bairro carente de Newark para levar alento aos mais necessitados. A ação beneficia semanalmente 600 pessoas. Em torno de 60% dos contemplados são afro-americanos, 30% latinos e 10% brasileiros. “A pastora Dayse ajuda muito a gente, principalmente com comida. Necessitamos disso, não estamos aqui porque queremos. E não é só o imigrante que passa por isso, o americano também”, afirma o uruguaio Luis Ramírez, 34, que está há cinco anos nos EUA. Deixou mulher e filho em Montevidéu para tentar juntar dinheiro. Envia à família quase todo o dinheiro que ganha como operário. Sobra pouco para ele.


A missão de Dayse e Robinho é árdua. Eles, às vezes, precisam adentrar áreas proibidas, dominadas por gangues. São policiais-capelães, membros do clero nomeados pela polícia de Newark para auxiliar no combate ao crime. “Mesmo as quadrilhas nos tratam com o maior respeito. Entendem nosso trabalho”, observa a nordestina.


Newark é separada de Nova Iorque apenas por um rio, o Hudson, mas há um abismo entre a rica e colorida Manhattan e o município encravado no condado de Essex, em Nova Jérsei. Newark, com quase 280 mil habitantes, é uma cidade pobre, predominantemente constituída de negros americanos (42%) e hispânicos (29%), sobretudo porto-riquenhos e dominicanos. Há ainda uma comunidade luso-brasileira significativa no bairro de Ironbound.
É também uma cidade manchada pela corrupção, onde cinco dos últimos sete prefeitos foram indiciados criminalmente. O desajuste político dá guarida à violência. Tráfico de drogas e homicídios são os maiores problemas. Nos 15 dias que a reportagem passou no local, três pessoas foram assassinadas, incluindo um policial. Newark chegou a ser classificada, 15 anos atrás, pela revista Time, como a cidade mais perigosa dos EUA, mas vem revertendo o quadro. No ano passado, ficou em 23º no ranking das mais violentas, segundo a publicação CQ Press, e viu o mês de março ser o primeiro sem homicídios em 45 anos

 

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