sem medo de arriscar

BAIANA E IRMÃ APOSTARAM TUDO NUM RESTAURANTE DE COMIDA BRASILEIRA ABERTO EM PLENA CRISE E HOJE COLHEM OS RESULTADOS DO ESFORÇO.


NOVA IORQUE – Há um pedaço do Queens com cheiro e gosto de Brasil. Cravejado na esquina da 31ª Avenida, no bairro de Astoria, berço da maior comunidade grega fora da Grécia. Escondido num imóvel apertado, aconchegante, no mais oriental dos cinco distritos nova-iorquinos. Misturado a uma Torre de Babel de 2,3 milhões de pessoas e 138 línguas diferentes – o português nem sequer está entre as dez mais faladas. Mas o sabor é imperativo. Nasceu na boca da crise econômica, tinha tudo para dar errado. Deu certo.
Tem bolo de milho, pamonha, pé de moleque, acarajé, cuscuz, queijo coalho. Tem carne de sol, picanha, coração de galinha. Tem feijoada, cabidela, macaxeira. Tem sofrimento, trabalho, aperto e final feliz. O Point Brazil Café e Grill é lugar de matar saudade da pátria, falar nosso idioma, lembrar nosso tempero. A baiana Erli Ribeiro Botelho, 45 anos, é a dona do restaurante. Abriu junto com a irmã Elzi, 44, em 2008, na contramão das circunstâncias, enquanto empresas iam à falência nos Estados Unidos derrubadas pela crise. Para lançar o negócio, cada uma precisou vender sua casa no Brasil. Erli conseguiu US$ 60 mil em seu apartamento em Itabuna, a terra natal, a 426 quilômetros de Salvador. Elzi vendeu o dela por US$ 40 mil. Apostaram alto. “Chamaram a gente de louca, mas os grandes negócios acontecem em momentos de crise”, define Erli. “Fizemos isso sem remorso, sem culpa, era a chance de ter uma vida melhor”, explica.
Elzi, chamada de Ziza na família, foi a primeira a pisar em solo americano. Chamada por uma prima para conhecer os EUA e sem emprego após o fechamento do banco em que trabalhava em Itabuna, ela acabou indo sozinha em 1988 porque a mentora da ideia não conseguiu visto. Começou como babá e logo migrou para sua área: contabilidade. Erli foi dois anos depois, em 1990. Planejara ficar nos EUA por apenas dois anos. Está há 21. Até ter seu próprio negócio, sempre trabalhou como babá e diarista. Não cogita mais voltar a morar no Brasil. “A gente acaba fincando raízes. Minha vida agora é aqui”, frisa.
O pior momento de Erli no país foi o mais dramático da história americana: o 11 de Setembro. A nordestina trabalhava como babá em um apartamento na Franklin Street, uma das ruas que desembocam no World Trade Center. A patroa havia se mudado, era o primeiro dia na nova casa.

  • RESISTÊNCIA Erli, à esquerda na foto acima, posa com a irmã Elzi dentro e fora do restaurante de culinária brasileira que as duas abriram no Queens e que se mantém firme, na contramão da correnteza da crise econômica
  • SUL Dilma, Lula, Chávez e Correa, líderes que emergiram no contexto em que os EUA, voltados para a guerra ao terror, tiraram os olhos da América Latina

Mal começou o expediente, um forte barulho ecoou do lado de fora. Era um avião cruzando as Torres Gêmeas. Quando Erli saiu na sacada do prédio, um vento de poeira a engoliu: o segundo avião atingia o WTC. A nordestina, grávida de seis meses, passou mal. Inalou a fumaça das explosões. Não sabia o que fazer. Decidiu ir embora enquanto a história se desenrolava. Não ficou para ver o espetáculo de horror. “Minha patroa achou melhor eu ficar lá, mas eu estava inquieta. Vi gente pulando, gente sendo atropelada. É triste lembrar, mas faz parte da minha vida”, diz. Erli andou por cinco horas, de Manhattan ao Queens, carregando uma menina no ventre. Corria por duas. Sofria dobrado. Três meses depois, a baiana deu à luz, após uma gravidez conturbada e um parto complicado. “Tive febre por três dias.” A filha nasceu com problemas respiratórios devido à inalação de fumaça pela mãe. Passou a infância tendo pesadelo sem saber o motivo. Até hoje, aos 9 anos, tem dificuldade para dormir.


O que já foi traumático poderia ter sido ainda pior. Erli ia de metrô para o trabalho e acabou descendo uma estação antes do World Trade Center para pegar uma carona com o patrão. Pela hora em que chegou, ela poderia ter sido um dos milhares de pessoas que ficaram presas na estação do WTC. “Gestante como eu estava, seria uma das vítimas com certeza”, conta.


No dia seguinte aos atentados terroristas, lá estava Erli, cara a cara com o trauma. Precisava trabalhar. Ficou mais sete anos trabalhando em casa de família até que abriu o Point Brazil Café e Grill. “Desde que a gente morava no Brasil, tinha a mão boa para cozinhar. A ideia já existia há muito tempo, faltava a oportunidade. Arriscamos e deu certo”, crava Elzi, divorciada, com uma filha de 10 anos e cidadã americana há meia década. Erli é casada com um brasileiro há 11 anos e ainda está em processo de obtenção de cidadania dos EUA.


O restaurante delas, com foco na culinária baiana, funciona todos os dias, em três turnos, das 7h30 às 22h. Nos dias úteis, recebe entre 300 e 400 clientes. Nos fins de semana e feriados, o número passa dos 500. As irmãs contam com 14 funcionários para atender à demanda. O quilo da comida custa US$ 8. “A gente não esperava essa explosão de clientes. Já quando o restaurante estava sendo construído, as pessoas batiam na porta para perguntar quando ia abrir. A comidinha brasileira resistiu à crise”, brinca. O Point Brazil virou moda não só entre os brasileiros. Erli estima que a maioria da clientela é formada por estrangeiros, sobretudo latinos, atraídos pelo pedaço de terra mais tupiniquim do Queens.

sucesso

O trabalho benfeito de Erli e Elzi não tem passado em branco. No início deste ano, as irmãs receberam a visita do renomado crítico gastronômico do jornal The New York Times, Dave Cook. Na reportagem, publicada em 11 de janeiro no NYT e disponível na versão online do jornal, Cook derrete-se em elogios ao acarajé do Point Brazil. “É um gosto do verão brasileiro, até o último dedo lambido”, escreveu ele.


O jornalista americano ressaltou a conexão entre a comida típica baiana e “o patrimônio culinário africano”. Salientou que as conversas no restaurante são feitas, via de regra, em português. Explicou que o tamanho do prato depende da “indulgência” de cada cliente. E lamentou que as especialidades baianas só estejam disponíveis aos sábados. “Uma mordida, e você pode descobrir uma vontade irresistível de voltar”, rendeu-se.

 

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