o corredor da paz


NEWARK - Geraldo da Silva Carlos, 50 anos, é ex-maratonista. Vive a aposentadoria do esporte na cidade de Newark, em Nova Jérsei. Mas descanso é palavra proibida em seu dicionário. A vida de Geraldo nos Estados Unidos é uma eterna corrida. Louco para alguns, excêntrico para outros, o Corredor da Paz, como é conhecido lá, se vira como pode parar conseguir o pão de cada dia. Nas brechas que a vida puxada lhe dá, desenvolveu um ofício para lá de incomum: perseguir e prender ladrões. Geraldo é uma espécie de xerife clandestino guiado pela intuição. “Quando um bandido passa por mim, ele pode estar disfarçado, mas eu sinto que é criminoso, me dá um arrepio. Então, saio correndo atrás”, conta. Geraldo é o 12º passageiro deste projeto especial. O 11 dá licença para uma história que não podia deixar de ser contada.
Nos seus 15 anos como maratonista, o mineiro que se autoproclama nordestino, filho de pai pernambucano e mãe paraibana, não conquistou nenhum título.

A melhor posição dele foi um 12º lugar na maratona do Rio de Janeiro, em 1985. Dono de uma memória indefectível, o ex-atleta recorda que cumpriu o percurso de 42 quilômetros em duas horas e 36 minutos. “É minha melhor marca”, frisa.
Foi o atletismo que o levou aos EUA, no início dos anos 90. Competiria em Nova Iorque, Boston e Flórida. Nas pistas não conseguiu nada além de um 586º lugar na maratona nova-iorquina. “Mas foram 21 mil competidores”, justifica-se. As outras duas provas nem sequer mereceram citação. Um filtro da vaidade.
A viagem de Geraldo aos Estados Unidos, no entanto, lhe deu um troféu intangível: a esperança. O então esportista de vida difícil não voltou mais ao Brasil. Deixou as pistas para dar início à maratona pela sobrevivência em terras americanas.


Junto às dezenas de atividades que desenvolveu e ainda desenvolve em Newark para tirar seu sustento, entre as quais entregador de jornal, lavador de pratos e carpinteiro, Geraldo deu um jeito de não se afastar de vez das corridas. Os ladrões da cidade são sua medalha. O controverso brasileiro, ao mesmo tempo amado e odiado por seu jeito polêmico e sua coragem até certo ponto irresponsável, gaba-se de suas estatísticas no esporte que criou: já prendeu 43 bandidos.
“Foram dois quando em morava em Boston, dois na Flórida e os outros aqui em Newark mesmo. Pode ser no meio de uma perseguição policial ou quando eu sinto que aquela pessoa que passa por mim é um ladrão. A polícia às vezes fica com raiva de mim, mas não posso fazer nada se corro e pego na frente deles. Sempre passo os policiais, mesmo de viatura”, afirma o mineiro.


  • CRIAÇÃO Geraldo batizou seus passarinhos com nome de políticos e celebridades: Dilma, João Figueiredo, José de ALencar, Lulinha (um canário com um dedo a menos em uma das patas), Tiririca e até mesmo os príncipes William e Kate
  • BICOS Nos Estados Unidos desde 1990, o mineiro se vira como pode para sobreviver: já lavou pratos, entrega jornais e até mesmo atua como colaborador de publicações para a comunidade brasileira em Nova Iorque

A última corrida que resultou em prisão foi atrás de um americano que fugia da polícia de Newark após um assalto, este ano. “Era um negão. Ele derrubou um policial no chão, deu um tapa em mim e saiu correndo. Dei um tiro de 100 metros e me joguei em cima dele. A polícia chegou logo depois e o levou”, conta. O tiro a que ele se refere não sai de arma. É utilizado na linguagem esportiva também sob o termo sprint, aceleração final do corredor para se aproximar da meta. Destemido, Geraldo faz da fé seu escudo. “Não tenho medo. Se você acredita em Deus, você não tem que ter medo de nada”, ele ressalta.
Em maio, Geraldo descobriu o corpo de uma mulher morta após uma festa de rodeio e irritou a polícia local. O achado, segundo ele, decorreu de um sinal divino. “Eu sonho com as coisas e tenho visões”, assevera.


Apegado à superstição e afeito a desafios, o ex-maratonista também sonhou que fará o percurso dos EUA ao Brasil correndo. “No sonho, eu ia correndo até a Amazônia e lá desciam 22 estrelas que se transformavam em um anjo. Vou ajudar a salvar a floresta amazônica, que está sendo destruída”, diz. “As pessoas não entendem meu dom, fazem piada, me marginalizam”, desabafa ele, que estava em Boston em 11 de setembro de 2001 e viu pela TV os ataques às Torres Gêmeas de Nova Iorque. “Foi uma crueldade, mas tudo culpa dos republicanos”, opina.


Personagem conhecido em toda a cidade, não sai de casa sem seu chapéu decorado com nada menos que 29 broches. A maioria dos adereços Geraldo ganhou de presente. Da polícia ao time do Santos, que em 20 de março do ano passado fez o jogo de inauguração do Red Bull Arena, em Nova Jérsei, contra o New York Red Bulls, com vitória americana por 3 a 1. Outro broche que o orgulha é o de adido cultural, dado pelo consulado brasileiro em Nova Iorque. O brasileiro comprou ainda um do presidente Barack Obama, de quem é admirador.


Geraldo vive em um mundo particular, só seu. Sua casa é o pedaço mais importante deste universo tão estranho a olhos alheios. É lá que o ex-corredor cria nada menos que 40 passarinhos. Até aí tudo bem, não fosse a relação de Geraldo e os canários belgas. Ele deu nome a todos, sabe quem é quem e conversa com os bichos. As aves, assegura, têm até preferência política. “Na gaiola, quem bebe água no pote azul é democrata e no vermelho é republicano. Mas às vezes mudam de lado, igual à gente”, avisa.


No mundo de Geraldo, terra dos passarinhos, Dilma casou-se com Figueiredo, separou-se e se enamorou por Tiririca, com quem teve um filhote, que ganhou o nome de Lula. “Dilma teve três filhos com Figueiredo, mas como ele é militar ela abortou”, pontua. “Já Tiririca é muito palhaço, eles se divertem, se dão melhor”, acrescenta. “Pelos passarinhos, eu consigo ver o que vai acontecer na política. Tiririca ainda vai ajudar no governo de Dilma Rousseff”, complementa. Na gaiola vizinha vivem Lady Di, Príncipe William e Princesa Kate. José Alencar é o mais velho da turma e o maior reprodutor do grupo se chama Eros.


Tudo começou com três passarinhos. E o devaneio não é sem sentido. O sonho de Geraldo é chegar a 600 filhotes, vendê-los e criar uma fundação em Newark para ensinar português aos filhos de imigrantes brasileiros nascidos nos Estados Unidos. A instituição já tem nome: Escola Doutor Tancredo Neves, em homenagem ao ídolo e conterrâneo. “A gente não tem apoio nenhum aqui. Vou unir a comunidade brasileira e divulgar a língua portuguesa, para que nossa cultura não morra”, enfatiza.
Geraldo ainda não tem o green card. É ilegal. Mas promete correr para realizar o sonho de viver em paz nos EUA. Para ele, correr sempre foi questão de necessidade.