Depoimentos



“Filha, você está com a TV ligada?” “Não”, respondi. “Pois ligue que tem um coisa muito séria acontecendo nos Estados Unidos. Um prédio enorme em Nova Iorque tá pegando fogo”, avisava minha mãe ao telefone na manhã de 11 de setembro de 2001. Em casa e ocupada com algum afazer, ainda demorei um pouco para ligar a TV. As imagens eram chocantes. “O prédio enorme” vindo abaixo. E eu, como o resto do mundo, sem entender direito o que se passava. Nova Iorque atacada. Parecia filme. Era por eles que conhecia aquela paisagem.


Então subeditora de Cidades – cuidando mais especificamente de Ciência/Meio Ambiente, temas-paixão de infância que se transformaram primeiro em objeto de estudo e depois de ofício por longos anos –, cheguei à redação no início da tarde sabendo do mutirão que nos aguardava. Todas as editorias foram mobilizadas em reforço à edição de Internacional. Se o mundo foi pego de surpresa, que dirá as redações, então acostumadas a um noticiário político internacional vertiginosamente amornado após o fim da Guerra Fria – à exceção do conflito entre israelenses e palestinos. E ali, entre uma sugestão de título e outra, mal sabia que aquele dia provocaria uma mudança também vertiginosa na minha carreira.


Pouco mais de dois meses depois, fui convidada a assumir a Editoria de Brasil/Internacional. Em plena Guerra do Afeganistão. Mujahedines e pashtuns definitivamente não faziam parte do meu vocabulário. Mas, além do desafio, havia uma missão. Trazer da experiência do contato com a academia as fontes locais para ajudar o leitor a compreender melhor o que se desenrolava além de nossas fronteiras. Dar um olhar local às questões internacionais. Trazer o pernambucano, o nordestino, o brasileiro para dentro desse noticiário.


Entre erros e acertos, este foi o caminho percorrido ao longo deste tempo em colaboração com profissionais de gabarito que estiveram e estão comigo nesta equipe. E foi nessa perspectiva que pensamos, criamos e executamos o caderno especial 11, este hotsite e a exposição fotográfica que entregamos hoje ao leitor do Jornal do Commercio. A ideia começou a ser gestada há mais ou menos um ano. O que fazer nos dez anos do 11 de Setembro? Como falar com o nosso sotaque sobre um assunto do qual o mundo inteiro irá se ocupar? O ponto central era manter a filosofia de dar a “cor local aos assuntos internacionais”, tomando emprestado a expressão do nosso diretor-adjunto de Redação, Laurindo Ferreira. Pensei então em procurarmos pernambucanos e outros nordestinos que morassem nos EUA desde antes dos atentados para contar como a vida deles mudou ao longo desses anos. Eles seriam os “ganchos” para falarmos não só do 11 de setembro de 2001, mas dos fatos marcantes direta ou indiretamente ligados à data durante a década.


Ideia prontamente abraçada pelo repórter Wagner Sarmento, foi sendo aprimorada e incrementada junto com os companheiros de edição Clóvis Andrade e Wilfred Gadêlha. Projeto de fôlego, ganhou apoio da Direção de Redação. Desde o fim de 2010, Wagner começou a garimpar os possíveis personagens. Em junho, ele e o fotógrafo Rodrigo Lôbo foram para os Estados Unidos em busca dessas histórias. Após 15 dias de apuração nos EUA e três meses de edição, apresentamos os incríveis relatos destes “guerreiros”, como os chama Wagner, num caderno de 24 páginas, elegantemente desenhado pelas designers Carla Francis e Ana Carolina Soriano. O projeto ganhou campanha publicitária, com teasers publicados no JC, este hotsite – que compila o caderno e traz extras – e uma arrojada exposição de fotos no Shopping Plaza.


Dez anos depois do 11 de Setembro e tendo trocado as boas notícias de ciência pelas tragédias que infelizmente predominam no noticiário internacional, tenho pelo menos uma certeza: daqui a alguns anos, quando meus filhos estiverem estudando nos livros a história deste período em ebulição, poderei contar para eles como vivemos (e noticiamos) isso tudo. E também, claro, falar com naturalidade sobre mujahedines e pashtuns. :)