BAQUE NA VIDA

RECIFENSE VIU SUA VIDA PROFISSIONAL RUIR JUNTO COM AS TORRES. COM A QUEDA NO FLUXO DE TURISTAS, FICOU DESEMPREGADA


NOVA IORQUE – A vida de Fátima Reyes, 54 anos, divide-se em antes e depois do 11 de Setembro. Para ela, os atentados foram mais que o trauma de quem viu de perto a dor de um país inteiro. A onda de temor e o arrocho na entrada de estrangeiros fizeram o turismo nos Estados Unidos cair a praticamente zero nos dias seguintes à tragédia. Até 2002 a queda acumulada foi de 20% e, de acordo com o Departamento de Comércio, a nação deixou de receber 60 milhões de visitantes nos cinco anos posteriores aos ataques terroristas. Lucros menores geram cortes. A recifense, que trabalhava no setor turístico, perdeu o emprego, o norte. Virou uma das vítimas.


No Recife, Fátima ostentava boas condições financeiras e trabalhava em uma agência bancária, no setor de câmbio. A relação da brasileira com os Estados Unidos começou há 24 anos. A nordestina iria a Nova Iorque apenas para uma atividade temporária de um ano. Ao final do contrato, ela recebeu uma proposta para ficar de vez. Divorciada, topou o desafio e levou a filha. A imigrante está há 16 anos casada com um espanhol e é cidadã americana há mais de uma década. Obteve cidadania por meio de contrato de trabalho. “Veio outra menina comigo na época e ela também está aqui até hoje”, afirma.


No 11 de Setembro, Fátima estava trabalhando quando o fato mais marcante de sua vida aconteceu. De perto, testemunhou a história em sua faceta mais dolorosa. O escritório ficava no 13º andar de um edifício entre a 5ª Avenida e a Rua 28, próximo ao Empire State Building, em Manhattan. “De repente, uma colega de trabalho viu um avião voando baixo e nos chamou. A varanda ficava de frente por onde ele passou. Segundos depois, ouvimos um estrondo muito forte e ficou tudo cheio de fumaça, um mau cheiro terrível”, conta ela, sentada em um banco de frente ao famoso edifício nova-iorquino, onde a lembrança sempre bate à porta.
Minutos depois do duplo atentado contra o World Trade Center, houve uma suspeita de bomba no Empire State. O que antes era susto transformou-se em risco. “Ficamos trancados por um tempo sem poder sair do prédio, por ordem da segurança, mas graças a Deus foi só boato no nosso caso”, diz a pernambucana.

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A Fátima não quis ir ao WTC. Ficou assustada, deprimida, incrédula com o que se passava diante de seus olhos. Na Washington Square, lembra ela, familiares de possíveis vítimas colavam fotos de desaparecidos. Havia um coro de lágrimas nas ruas. A esperança apenas sussurrava. Via-se, pela primeira vez, a superpotência impotente, subjugada, refém. “O cenário era de tristeza. O americano não é de pedir ajuda, coisa cultural, se acham os maiores, mas naquele dia todo mundo estava desesperado, pedindo socorro”, recorda.


O caminho de volta para casa, em Manhattan mesmo, sempre tão simples, virou um calvário. A circulação de ônibus, metrôs e veículos foi suspensa. Fátima precisou caminhar horas. Chegou em casa à 1h do dia seguinte – costumava estar em seu lar antes das 20h. Seu marido, que trabalhava em Nova Jérsei, ficou três dias sem poder voltar para casa, pois as pontes e os túneis que ligam o Estado vizinho a Manhattan, em Nova Iorque, ficaram bloqueados. Não entrava ninguém. “Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Nossa vida parecia que tinha virado de cabeça para baixo. Foi triste”, lamenta.

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Sem Horizonte

Para ela, entretanto, o pior ainda viria. Vendo o turismo estagnar em meio ao temor de novos atentados terroristas nos EUA e ao maior rigor na segurança aeroportuária e, ainda por cima, sendo estrangeira, a nordestina foi demitida da agência onde trabalhava. A vida tranquila deu lugar às privações. Fátima era uma vítima indireta do 11 de setembro de 2001. Viva por fora, morta por dentro, sem horizonte. Passou seis meses desempregada.


As empresas aéreas perderam quase US$ 6 bilhões no ano seguinte aos atentados terroristas e, por isso, acabaram demitindo mais de 200 mil funcionários, segundo informou a Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata). Enquanto os Estados Unidos padeciam nos meses seguintes para se recobrar do mais duro golpe de sua história, Fátima igualmente precisava se levantar. As circunstâncias sufocavam. Quase a fizeram fraquejar. A volta ao Brasil esteve perto. Mas ela se reergueu. “O turismo desabou. Eu, que há muito tempo trabalhava na área, fiquei sem chão. Recebia seguro-desemprego, mas não sabia como seria minha vida no futuro. Tive que fazer bicos para sobreviver. Aí foi quando me surgiu a ideia de alugar apartamentos”, revela.


Os tempos difíceis hoje estão engavetados no passado. Fátima, cuja filha tem 32 anos e ano passado lhe deu seu primeiro neto, é autônoma e presta serviços para uma agência de viagem. Cuida de mais de 30 apartamentos de preços e tamanhos variados em Manhattan, que aluga para turistas e executivos. Ganha de US$ 1 mil a US$ 2.500 por semana, mas trabalha sem dia nem hora. “Foi bom e ao mesmo tempo ruim ter vindo para cá. Acho que a qualidade de vida aqui é melhor, mas você tem que ganhar três vezes mais do que no Brasil para ter um bom padrão e, para isso, me mato de trabalhar”, confessa. “É muito difícil ter casa própria aqui. Até hoje, vivo de aluguel. Mas vivo bem, tenho minhas coisas e não devo nada a ninguém”, complementa a recifense.


Fátima dorme apenas quatro horas por dia, escravizada pela necessidade, no país símbolo do capitalismo. Trabalha durante o dia, à noite, em fim de semana, feriado, quando houver cliente. Apareceu um deles durante a entrevista. Fátima desculpou-se para seguir, por volta das 18h, para o Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Nova Iorque não para.

 

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