Depoimentos



Há quem diga que o século 21 só começou no dia 11 de setembro de 2001 - no exato momento em que um ato de terror destruiu as Torres Gêmeas que eram um dos símbolos mais emblemáticos da cidade de Nova Iorque, atentou contra o Pentágono, onde está concentrado todo o sistema de defesa dos Estados Unidos, e ainda teve como alvo potencial o edifício do Congresso americano, deixando um saldo de 2.973 pessoas mortas, afora os 19 extremistas que se imolaram na execução do ato insano. Neste dia, o mundo inteiro colocou na agenda de suas preocupações dois novos vetores: Al-Qaeda e Osama bin Laden, que somados seriam a expressão máxima do terrorismo mais radical.


As feridas abertas pelo 11 de Setembro demoraram a cicatrizar - em alguns casos talvez não sarem nunca. São as dores dos pais que perderam filhos e de filhos que perderam pais - é a frustração daqueles que não puderam enterrar seus mortos, cujas cinzas se perderam no anonimato dos incêndios, é a lembrança inclemente de um dia que quase todos gostariam de esquecer.


Hoje, dez anos depois, o atentado às Torres Gêmeas ainda machuca a consciência das nações democráticas, as imagens daquele dia são reviradas no caleidoscópio de cada lembrança - muitos dos atores presentes na cena de destruição se perguntam como tudo aquilo pôde acontecer. Nem mesmo a morte de Osama bin Laden, perpetrada por um comando das forças especiais da Marinha americana, num bunker isolado de uma cidade pouco conhecida do Paquistão, foi suficiente para resgatar o sentimento de perda de uma sociedade que se julgava segura e, de repente, se descobriu vulnerável.


Os repórteres do Jornal do Commercio Wagner Sarmento (texto) e Rodrigo Lôbo (fotos) cruzaram os 6.745 quilômetros que separam o Recife de Nova Iorque para, na cidade mais conhecida e mais fotografada do mundo, reencontrar personagens daqueles momentos da tragédia e celebrar, nas suas lembranças, a suprema graça da sobrevivência. De caso pensado, foram escolhidos 11 personagens, entre os quais alguns pernambucanos, embora todos eles nordestinos - imigrantes que foram inventar a vida no país estranho, imbuídos da fé de que na grande nação do norte o sol brilha para todos. Gente que foi embora por necessidade e desencanto, em momentos difíceis provocados pela imprevisível gangorra econômica tão comum nos países em desenvolvimento. Há, entre os personagens, gente que sofreu mais e que sofreu menos; pessoas que se reencontraram consigo mesmos após serem castigados pelos descaminhos do mundo, brasileiros que mesmo ausentes nunca deixaram de se identificar com o chão natal. Todos foram ouvidos e acompanhados pelos nossos repórteres, dividindo com eles histórias de medo e de superação - conscientes de que, por mais longas que sejam suas vidas, o episódio do 11 de Setembro jamais será apagado de suas lembranças.


Todos esses depoimentos comoventes estão contados no suplemento especial de 24 páginas que publicamos neste domingo, fartamente ilustrado com imagens inéditas de ontem e de hoje, ao lado das análises feitas por estudiosos e pesquisadores, para que melhor possamos nos situar diante de um dos fatos mais marcantes deste novo século. A concepção gráfica do caderno coube às designers Carla Francis e Ana Carolina Soriano.


Temos publicado, regularmente, cadernos especiais com temas relevantes, que exigem de nossa redação tratamento e cuidados igualmente especiais. Não temos nenhuma dúvida de que a imprensa do mundo inteiro estará, neste 11 de setembro, revivendo, sob os mais diversos ângulos, o episódio que revelou a face desconhecida do fundamentalismo islâmico, extremado pela Al-Qaeda e seus seguidores. Nós procuramos nosso caminho - pelas mãos e pelos olhos de 11 nordestinos que, de uma forma e de outra foram personagens da história, e que decidiram reparti-la com Wagner Sarmento e Rodrigo Lôbo, para que fique devidamente comprovado não ter acontecido antes ato mais ignominioso sobre a Terra.