a cor do triunfo

PERNAMBUCANO NEGRO QUE CHEGOU A TRABALHAR COMO AMBULANTE E A DORMIR NA RUA DRIBLOU A POBREZA E O PRECONCEITO PARA VENCER NOS ESTADOS UNIDOS


NEWARK - “Barack Obama derrubou o Muro de Berlim do racismo.” O anacronismo pediu licença e permitiu a metáfora. A afirmação não saiu da boca de analista. Não foi estudada, nem medida. Foi sentida. Não tem pilhas de livros de embasamento nem diploma. Aprendeu-se no tranco mesmo, com as aulas que a vida dá. A frase foi de negro para negro. O pernambucano José Francisco da Silva Filho sabe bem o que a chegada de Obama ao poder representa. Um “pretinho” – assim mesmo, como ele diz, debochado, despojado de não me toques – no cargo mais importante do mundo. Um revide da história contra séculos de opressão.


"Obama significa um divisor de águas para o negro e para a história política americana e talvez até mundial. É um negro que veio de baixo, mas estudou e venceu. É a ascensão das minorias, dos oprimidos. Há um simbolismo nisso. Obama abriu portas em diversos campos”, afirma José Francisco, 54 anos. Quase 320 quilômetros separam Newark, em Nova Jérsei, onde o nordestino vive, da Casa Branca, em Washington. Outras diferenças entre Francisco e Obama são ainda mais quilométricas. Mas há uma ponte intangível que os une. Francisco derruba um Muro de Berlim por dia para sobreviver.


A vida dele é um épico. História que não se escreve em linha reta, roteiro imprevisível. Nasceu negro numa família pobre da Encruzilhada, bairro da Zona Norte do Recife. Teve infância feliz no subúrbio recifense, acostumado a sorrir com quase nada, mas com 7 anos já levou o primeiro baque. O pai, militante comunista, faleceu em 1964, pouco depois do golpe militar. Não aguentou saber que o então governador Miguel Arraes – eleito dois anos antes vencendo o candidato da UDN, João Cleofas – fora preso pelo Exército em 1º de abril daquele ano. Teve um infarto fulminante.


Filho único, mudou-se com a mãe para São Paulo em 1967. Passado deixado para trás, os retirantes foram em busca de oportunidades. Encontraram abandono, indiferença, portas fechadas. Francisco morou por seis meses debaixo de uma árvore na cidade de Guarulhos. A copa era telhado que não cobria, que deixava a chuva molhar. O pernambucano perdia noites de sono com frio. A violência era vizinha. O medo acuava. Mas ele se orgulha: nunca passou fome. “Vivi gritando em ouvido de surdo e beliscando casco de tartaruga. Mas fome eu jamais passei”, gaba-se. A mãe, mesmo com um aneurisma e um fibroma, espécie de tumor benigno, se virava como podia para alimentar o filho. Conseguiu alugar um casebre e montou uma pequena horta no quintal, onde também criava galinhas. Francisco vendia chocolate e sorvete em pontos de ônibus. Nunca se envergonhou de trabalhar. Foi engraxate, entrou na Força Aérea Brasileira (FAB), tornou-se perito em aviões. Cresceu na vida. Virou Francisco Sampa. Voou, literalmente, para os Estados Unidos em 1987. Foi tentar a sorte.


Francisco era, antes de mais nada, admirador da cultura americana. Apaixonado por história, havia lido sobre a viagem que Antônio Gonçalves Cruz, conhecido como Cruz Cabugá, fez à Filadélfia em maio de 1817, em plena Revolução Pernambucana. Cruz Cabugá chegara aos EUA com US$ 800 mil no bolso – US$ 10 milhões no câmbio atual – para comprar armas para combater as tropas portuguesas e convencer o governo americano a apoiar a fundação de uma república independente no Nordeste, formada por Pernambuco, Paraíba e Ceará, além de recrutar revolucionários franceses exilados para libertar Napoleão Bonaparte, em exílio na Ilha de Santa Helena, e fazê-lo lutar na Revolução Pernambucana.

  • COBERTURA Francisco Sampa em jogo de futebol. Após fazer um pouco de tudo nos EUA, hoje ele é jornalista e produtor
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Estudou também que foi do Recife que partiram, em 1654, os judeus que fundariam Nova Iorque. O grupo inicial tinha 23 pessoas que fugiam da inquisição e desembarcaram no Brasil junto com a colonização holandesa. No caminho de volta para a Holanda, sofreram um ataque pirata no Oceano Atlântico, aportando por acidente em Manhattan. Atualmente, NY é a capital mundial do judaísmo, com mais de 3 milhões de judeus. “O Recife tem uma ligação histórica com os EUA, e isso sempre me fascinou”, conta.


Francisco cresceu encarando o racismo. Nunca curvou-se ao preconceito. Quis ver se, nos EUA, negro era tratado como gente. “Falavam que aqui o negro era maltratado, que era até pior do que no Brasil. Mas é diferente. O negro americano é mais consciente de seus direitos. O preconceito existe contra qualquer um – negro, brasileiro, chinês. Mas o negro aqui sabe que também existe lei para punir”, pondera. “Eu, nos Estados Unidos, nunca fui discriminado por americano, só por brasileiro”, revela.


O nordestino é brigão, opinioso. Diz-se contra qualquer tipo de sistema de cota racial, pois “não se corrige um erro histórico com outro”. “Eu sou chato mesmo. Aliás, sou pernambucano, né?”, define-se. Sem benefício de qualquer política dita inclusiva, “até porque rejeitaria”, Francisco Sampa já fez de tudo nos EUA. Começou morando em um muquifo que funcionava como pensão, cujo aluguel custava US$ 45. O primeiro emprego foi como auxiliar de padeiro. Recebia US$ 150 por semana. Pouco depois virou garçom. Passou a ganhar o triplo. Ainda trabalhou como servente de pedreiro, construtor de quadra de tênis, taxista, motorista, supervisor, operador cinematográfico. Sempre em Newark. Hoje é jornalista, produtor de eventos e fundador do Canal Brasil News Network (CBNN), primeira emissora em português de Nova Jérsei.


Em 11 de setembro de 2001, Francisco Sampa estava em casa vendo TV e tomando café da manhã quando o primeiro avião acertou as Torres Gêmeas. Na mesma hora, correu até a margem do Rio Hudson, curso de água que separa Nova Jérsei de Nova Iorque, perto do aeroporto internacional de Newark, e viu de lá a segunda aeronave bater no World Trade Center. “Telefonei para amigos em toda parte e todo mundo pensava que era piada minha. Nenhum roteirista poderia bolar uma tragédia assim”, conta.


Alma de viajante, Francisco conhece 25 dos 50 Estados americanos. Até uma década atrás, usava as Torres Gêmeas como referência. Quando as avistava, era sinal de que estava perto de casa. “Ficou um vazio. No olhar, na mente, no coração. O World Trade Center era meu farol. Ainda não acredito que ele não existe mais. É como você ir ao Rio de Janeiro e não ver o Cristo Redentor”, compara ele, que tem o green card desde 2002 e está em processo para receber “cidadania estadunidense” – “Americano todo brasileiro é”, esclarece.


A viagem de sua vida foi um devaneio. O nordestino fez o percurso entre Newark e Recife de caminhonete para escrever uma reportagem sobre regiões das três Américas que falam o português. Conseguiu patrocínio de US$ 40 mil, arrumou a mala e foi. De agosto de 2005 a fevereiro de 2006, atravessou 14 países – EUA, Canadá, México, Belize, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Equador, Colômbia, Venezuela e Brasil. Dormiu no carro e passou oito dias na floresta amazônica, três dos quais à base de goiaba e água de rio.


Inspirado em Obama, Francisco Sampa não esconde suas pretensões políticas. Por cinco anos, foi presidente da Brazilian American United Association (Baua). Chegou a ser um dos 298 candidatos a uma das 32 vagas do Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE), órgão do Ministério das Relações Exteriores (MRE) criado com o objetivo de prestar apoio aos 3 milhões de brasileiros que vivem fora do País. Mas perdeu a eleição, acusada por ele de fraudulenta.
O recifense, mesmo sem cargo político, é porta-voz dos imigrantes em Nova Jérsei. Ajuda brasileiros presos e dá suporte a vítimas de exploração no emprego. Tem livre trânsito na prefeitura e na polícia de Newark. Se algum imigrante está enrascado, o telefone de Francisco Sampa toca. Já organizou mais de cem traslados de corpos de brasileiros mortos nos EUA. Em um dos casos, tinha a missão de levar pessoalmente um caixão para Itabirinha de Mantena, no Vale do Rio Doce, a 426 quilômetros de Belo Horizonte. Pegou um voo de Nova Iorque para a capital mineira, com escala em São Paulo, e de lá seguiu de carro. No meio do caminho, um acidente que deixou sete mortos interditou a BR-381. Francisco subiu a serra a pé, carregando o caixão com moradores. A viagem toda durou três dias e, ao fim do calvário, o pernambucano já não suportava o cheiro do cadáver em decomposição.


O espírito solidário foi herdado da mãe, parteira e benzedeira em Dois Unidos, periferia recifense. Francisco, negro que venceu a sina e anda de terno e gravata nas ruas de Manhattan, apenas continua o legado que ela deixou. Certeza ele só tem uma: “Para debaixo daquela árvore, eu não volto nunca mais”

 

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