casa de luzes e cores

NA CAPITAL DO MUNDO, RECIFENSE ENCONTROU SUA CASA, MAS AINDA SE RESSENTE DA DISCRIMINAÇÃO AOS ESTRANGEIROS.


NOVA IORQUE – Faz tempo que o Recife é, para Maria Lúcia Ducoff, 58 anos, apenas destino turístico uma vez por ano. No máximo, uma lembrança distante. Quando deixou o Brasil, o País ainda vivia mergulhado na ditadura militar. Enfrentava a censura, a repressão, a restrição às liberdades individuais. Mais do que isso, Maria Lúcia precisava encarar o moralismo social, aquele que não é institucionalizado, mas que se lê nos olhos. A pernambucana diz que sempre foi uma mulher à frente do seu tempo. Pernambuco ficou pequeno, careta demais. A vida era em preto e branco. Ela precisava de Nova Iorque, das luzes e cores.


Antes de se aventurar por terras americanas, vivia em Jardim São Paulo, bairro na Zona Oeste do Recife. Gostava da noite, do luxo, dos romances. Vestia-se diferente das outras jovens. “Eu era uma moça falada para os padrões recifenses. Usava óculos escuros à noite, chamava atenção. Sempre gostei da farra. Só queria saber de me divertir. Não importava se o cara era feio ou bonito. Se eu gostasse, ficava com ele. Isso, naquele tempo, era demais. Eu era suburbana, e os carrões paravam na frente da minha casa para me pegar. A vizinhança toda comentava. Não tinha paz”, conta ela. Ainda hoje, não dispensa um batom chamativo, um colar diferente, esmalte nas unhas.


A vida no Recife não andava boa. Maria Lúcia cursou jornalismo, letras. Não se achou. Não conseguia arrumar emprego na área. Foi auxiliar de escritório, vendeu joias. Num tempo em que a mulher ainda não tinha espaço no mercado de trabalho e vivia sob o tabu de sexo frágil, Maria Lúcia foi policial civil. Era pouco. Maria Lúcia então recebeu um convite da amiga Assíria Seixas Lemos, hoje com 51 anos, que dez anos depois se casaria com Pelé. Pegou o avião sem titubear. Seu encontro com a capital do mundo, foz de todos os tipos humanos, aconteceu em 9 de setembro de 1984. “Vim e me encontrei”, ressalta.


Até 11 de setembro de 2001, Nova Iorque simbolizava, para ela, a terra perfeita, bem distinta da cidade que ela deixou para trás, onde ser vanguardista era defeito e a liberdade era vigiada pelo governo e pela sociedade. Mas tudo mudou. Os ataques terroristas, deflagrados por uma organização extremista de fora do país, potencializaram preconceitos. A reação foi imediata, com as invasões ao Afeganistão e ao Iraque. Suscitaram ódio, sobretudo ao estrangeiro. A propalada liberdade nova-iorquina capitulou. O país se acinzentou de repente. “Os americanos até te tratam bem, mas não se misturam”, crava. Diz isso mesmo sendo cidadã americana, direito que adquiriu nos anos 90 após dois casamentos com americanos, dos quais se divorciou. A cidadania dá o direito de votar nas eleições e a possibilidade de conseguir um emprego federal como qualquer americano, vantagens em relação ao imigrante que tem o green card, que possui visto permanente, mas fica alijado desses processos.

  • PERMANÊNCIA Tropas americanas ainda não conseguiram sair do Afeganistão
  • CHOQUE E PAVOR Civis são principais vítimas das invasões. No Iraque, persistem a instabilidade política e os atentados



 

 

 

 

 

 

O colorido também desbotou quando a pernambucana soube da morte da vizinha, Jessica McQueen, 36, que trabalhava como contadora numa empresa de contabilidade cujo escritório ficava nas Torres Gêmeas. O corpo da americana nunca foi identificado. Misturou-se, com centenas de outros, à pilha de destroços incendiada.


A pernambucana só soube da morte da colega alguns dias depois. Não lembrava, diante do turbilhão de medo que assolou o país, que Jessica trabalhava no World Trade Center. Não notou sua ausência. Passou a desconfiar apenas quando, nos dias seguintes à tragédia, percebeu que o cachorro da vizinha, um poodle chamado Peanut, latia sem parar. De fome, de vazio. A confirmação veio quando os pais de Jessica foram ao apartamento para levar o cão e suas roupas e pertences. “Eu estava em casa quando houve os ataques. Fiquei desesperada vendo tudo pela TV. Minha vizinha faleceu e eu não sabia”, recorda. “Foi algo que senti muito. Ela não era uma grande amiga minha por conta da diferença de idade, mas gostava muito dela, nos dávamos bem. Sempre a chamava para jantar na minha casa”, lembra Maria Lúcia, que ainda mora no mesmo lugar, um apartamento aconchegante em plena Times Square, na junção da Broadway com a 7ª Avenida, onde todos os prédios têm letreiros luminosos de publicidade.


Foi na Times Square que ela foi fotografada, ponto turístico mais procurado dos Estados Unidos, com 35 milhões de visitantes por ano, à frente da Estátua da Liberdade. É neste festival de luzes e cores que Maria Lúcia sente-se em casa. “Apesar de tudo, sou feliz aqui. No Brasil, se for uma mulher sozinha, você é discriminada; se você chega a uma certa idade, você é discriminado. Nos EUA, você é mais respeitado e tem mais chance de vencer”, assinala ela, que estava desempregada no momento da entrevista, em 31 de maio. Era garçonete de um restaurante que foi vendido a outro grupo. Ganhava US$ 1.000 por semana, mais gorjeta. Menos de uma semana depois, Maria Lúcia nos telefonou para informar que havia encontrado trabalho. Nova Iorque lhe dava mais uma chance. À beira da terceira idade, assumiu um posto na central de atendimento da companhia de trem Amtrak, na Penn Station de Nova Iorque. Não tem nenhuma experiência na área. Trabalhou em restaurantes nos 27 anos em solo americano. Mas sempre foi afeita a descobertas.

 

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