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AO CONTRÁRIO DA MAIORIA DOS IMIGRANTES, SERGIPANO NÃO QUIS SE SEPARAR DA MULHER E FILHOS PARA GANHAR A VIDA NOS EUA. JUNTOS, VENCERAM


HARRISON - O sergipano Roberto Bento, 45 anos, chegou aos Estados Unidos de mala e cuia, com a esposa e dois filhos, decidido a ficar. Sabia que não seria fácil, mas ignorou as agruras. Não tinha só uma barriga para encher, como a maioria dos imigrantes. Havia mais três pratos na mesa. Começou morando no porão de uma casa em Newark, dividindo um espaço apertado com ratos e insetos, sob um calor insuportável. O terceiro filho nasceu quando a situação ainda não era boa. Mas foi bem-vindo, presente de Deus não se rejeita, está na cartilha da fé. Sofreram unidos, venceriam unidos.


Bento, nascido no município de Propriá, a 98 quilômetros de Aracaju, em Sergipe, e filho de um dono de armazém de café, levava uma vida confortável no Brasil até que a empresa do pai no Paraná faliu e fechou as portas em 1981. O jovem, que nunca havia trabalhado, serviu no Exército e acabou voltando ao Nordeste em 1985, desta vez para Porto Real do Colégio, em Alagoas, onde o pai abriu uma churrascaria. Foi ainda corretor e gerente de supermercado. Numa viagem de férias a Curitiba, conheceu Simone, com quem se casou em 1989. Mas a vida no Brasil não andava. Os EUA apareceram como alternativa. “Pensamos, desde o começo, como família. Não viajaria sem eles”, afirma Bento.


O nordestino foi para Newark em 19 de abril de 2000, arrumou emprego no dia seguinte, alugou um lugar para morar na primeira semana e, um mês depois, levou a mulher Simone, 38, e os filhos Luiz Roberto, então com 11 anos, e Sthephany, 5. Tudo o que tinham era um punhado de roupas velhas em uma mala. Luiz carregava um carrinho e Sthephany, uma boneca. “O começo não é fácil. Você demora para se adaptar. É tudo diferente. Mas, como a gente estava junto, as coisas caminharam melhor”, diz ele. “A família é a coisa mais importante que existe. Sempre aconselho brasileiros que vieram sozinhos a voltar para seus parentes. Se eu não tivesse minha família aqui comigo, já teria voltado, não aguentaria”, garante.


As conquistas demoraram, mas vieram. Bento trabalhou nos cinco primeiros anos como operário, construindo residências. Cresceu e se tornou operador de máquinas no ramo da construção civil. A família vive hoje em um apartamento espaçoso e confortável em Harrison, uma pequena cidade com apenas 13 mil pessoas, vizinha à conturbada Newark. Funciona como subúrbio, palavra que nos EUA se refere a um lugar pacato situado ao redor de um núcleo metropolitano central, onde vivem pessoas de classe média alta em busca de mais tranquilidade e segurança. Em Harrison, anda-se na rua a qualquer hora da noite, sem medo. A vida nos EUA não tem sobressaltos. Anthony, 5, o caçula, americano, é o xodó da família. Tem dificuldade no português, mas os pais insistem. Querem manter as raízes.

  • ADAPTAÇÃO O patriarca toca bateria em encontro do Exército de Salvação
  • EM CASA , Roberto Bento com a esposa Simone, os dois filhos mais velhos, brasileiros, e o caçula, americano

Sthephany estuda na Harrison High School, a melhor do Estado de Nova Jérsei. A estrutura faz inveja às melhores escolas particulares brasileiras: tem campo de futebol, ginásios esportivos, academia de ginástica, piscinas olímpicas e até departamento de polícia. O rigor respalda a formação: o aluno só pode ter três faltas por semestre. No país que é potência do futebol feminino, bicampeão mundial e tricampeão olímpico, Sthephany busca a sorte nos gramados. Treina todos os dias após as aulas e atua como zagueira. Seu maior ídolo dorme no quarto do lado: o irmão Luiz, que, em seu primeiro torneio, logo após chegar aos EUA, marcou 43 dos 53 gols do time do bairro de Ironbound no campeonato de Newark.


Luiz é atacante. Em 2007, quando estava na high school, equivalente ao ensino médio no Brasil, foi bicampeão estadual e eleito o terceiro melhor jogador de Nova Jérsei, com 20 gols e 23 assistências. O desempenho acima da média despertou o interesse do New York Red Bulls, time da cidade de Nova Iorque cujo estádio fica, curiosamente, em Harrison. Em 2008, Luiz passou a treinar pelas categorias de base do clube onde atuam as estrelas Thierry Henry, atacante francês, e Rafael Márquez, zagueiro mexicano. Mas o sonho durou pouco. O brasileiro sofreu uma entrada violenta e rompeu os ligamentos do joelho direito. Está até hoje sem jogar. Trabalha instalando painéis de cigarro e inicia a fase final de recuperação da cirurgia a que foi submetido. Quer voltar a jogar.


  • FIM DA LINHA Osama bin Laden, morto por um comando americano no Paquistão, em 1º de maio
  • COMANDO Obama e seus assessores acompanham a operação que eliminou o líder da Al-Qaeda

O sentido de família é o que os fortalece. A reportagem foi convidada a jantar na casa dos Bentos na sexta-feira 3 de junho. Atencioso, o patriarca foi nos buscar e prometeu um cardápio americano. A casa arrumada não resistiu aos rompantes de Minnie, a cadela yorkshire, extasiada com a presença de visitas. Mesa posta, aguardamos a chegada de Luiz, que estava na rua com amigos. Um telefonema e o filho mais velho logo subiu ao apartamento. Sentados, ouvimos Bento puxar a oração, obrigatória antes de qualquer refeição. Ele agradeceu o alimento daquela noite e a nossa presença. Em seguida, serviu o barbecue, churrasco americano, com arroz e batatas fritas. De sobremesa, sorvete de framboesa, o favorito de Anthony. Minnie, coitada, só espiava.


A família viveu de perto o 11 de setembro de 2001, que lançou os EUA numa cruzada antiterrorista, e a morte de Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda e responsável pelos atentados, que pode representar o fim de um ciclo de intolerância e tensão. Membro do Exército de Salvação, organização beneficente cristã, Bento e outros religiosos montaram uma base em Harrison para distribuição de alimentos para policiais, bombeiros e paramédicos que estavam mobilizados no World Trade Center, em Manhattan, Nova Iorque. Já Simone presenciou e filmou as comemorações dos americanos pela morte de Bin Laden na Times Square, em Manhattan. Condenou o ato. “Não acho certo celebrar a morte de alguém, mesmo sendo a de quem foi”, opina. Alguns dias depois da eliminação do inimigo número 1 dos EUA, o trem em que a esposa de Bento estava parou por conta de uma mala suspeita. Polícia chamada, vistoria, 30 minutos de interrupção e vida que segue. É rotina.

 

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