Depoimentos



Naquele dia acordei ainda de ressaca. Ainda na faculdade, não tinha dia certo para farras. Levantei cedo porque precisava chegar pontualmente na redação. Morando ainda com meus pais, o café da manhã era sempre farto. Cuscuz, macaxeira, pão, bolo, presunto e queijo. Sem esquecer uma boa xícara de café com leite para despertar. Um dia normal como qualquer outro. Após enfrentar o caótico trânsito de Boa Viagem, cheguei no horário combinado na antiga redação do Jornal do Commercio, na Rua do Imperador. Era um ano especial. Em março daquele ano havia conquistado meu primeiro emprego. Fazer parte da equipe de fotografia do Jornal do Commercio aos 19 anos de idade era uma de minhas maiores conquistas até então. 

Após limpar o equipamento e pegar minha cota de filmes daquela semana, subi para a Editoria de Esportes para acertar detalhes da pauta daquele dia. A televisão estava ligada e não estava entendendo direito o que estava acontecendo. Um prédio estava em chamas. De repente um avião explode em cheio no edifício vizinho. Não acreditei. Um filme de ação uma hora daquelas? Pela manhã? Aquilo só poderia ser mentira. Voltei correndo para o Departamento de Fotografia e encontrei vários colegas em frente a TV. Não era só eu que estava vendo “coisas”. Era verdade.

Não imaginava que dez anos depois iria estar em solo americano para recontar a história do atentado mais ousado e cruel que o mundo já viu.  A poeira, o fogo, a destruição não existem mais. O que ficou foi um país ferido, um mundo ainda mais doente. A responsabilidade para uma cobertura de tal magnitude era grande. Primeira vez nos Estados Unidos, primeira cobertura internacional. Tentávamos deixar a ansiedade de lado, mas tivemos que conviver com ela até a publicação do caderno. Como contar a história de uma tragédia que mudou o mundo uma década depois? 

Soube que iria para os “States” em missão especial uma semana antes do dia do embarque. Feliz com a pauta que caiu em meu colo – um outro colega estava escalado, mas não pode viajar -, a correria começou para os preparativos da viagem. Documentação, passaporte, visto, equipamentos, dólares e contas para pagar. Mas o que mais me preocupava eram as fotos. Como fotografar uma pauta que já acabou? Ou não acabou? Esteticamente talvez sim. O “show” de imagens das maiores agências internacionais de notícias do fatídico dia daria para fazer uns 50 cadernos especiais. Mas nós estaríamos lá, em Nova Iorque, onde tudo aconteceu. Tínhamos que fazer diferente. Após várias reuniões com nossos editores chegamos a uma ideia inicial. Que precisávamos contar essa história do ponto de vista de brasileiros, imigrantes e nordestinos. Trazer um pedaço da história mundial para perto dos nossos leitores. Os leitores do JC

Desembarcamos em solo americano no dia 30 de maio de 2011. Foram quase dez horas de voo sem contar a conexão em São Paulo. Não preguei os olhos durante toda a noite. Wagner, meu parceiro, dormiu feito criança. Enfim chegamos. Hora de encarar a imigração. Mesmo estando munido de visto de imprensa, carta da Direção de Redação e com toda documentação OK, não estava seguro se o agente de imigração iria com a minha cara. Imaginava que minha aparência física poderia atrapalhar. Moreno, careca, barbudo. Típico muçulmano. Puro preconceito meu.  Tranquila e simpaticamente passei na imigração. Nosso guia nos aguardava ansioso no saguão do Aeroporto John F. Kennedy. Francisco Sampa é um cara que se pode chamar de “se vira nos 30”. Jornalista, vendedor, motorista, guia turístico, apresentador de TV, fotógrafo, editor. Na companhia desse pernambucano figura fomos apresentados a  “Big Apple”. 

Para mim 15 dias pareceram 30. O dia clareava às 6h e o sol só ia embora as 20h30 da noite. Dias longos. Muito trabalho e muita experiência nova. A busca por personagens começou na primeira hora em solo americano. Ao todo mais de 20 pessoas foram entrevistadas durante essas duas semanas. Mais de 20 mil quilômetros percorridos, 80 GB de vídeos capturados, mais de 2 mil fotos tiradas. Todo o investimento, todo suor derramado foi na busca do fazer jornalístico de qualidade. Ao fim de cada trabalho sempre fica aquela sensação de que poderia ter feito melhor, de outro jeito. Mas essa é mais uma lição de amadurecimento.