em busca da liberdade

SONHO DE SER DIRETOR DE CINEMA POVOA A MENTE DE BAIANO, MAS SEU MAIOR DESAFIO É ENCARAR A HOMOSSEXUALIDADE


NEWARK – Numa primeira conversa, o baiano Rogério Costa Júnior, 32 anos, diz que foi aos Estados Unidos para tentar realizar o sonho de ser diretor de cinema. Não que tenha mentido. É desejo de menino, alimentado a duras penas no pequeno município de Candeias, a 46 quilômetros de Salvador. O projeto piloto de seu destino ficou pronto quando ele concebeu a ideia de uma videolocadora aberta por seu tio. Em pouco tempo, tornou-se a maior do Recôncavo Baiano, com 2 mil clientes cadastrados. Ali ele sentiu que levava jeito para a coisa. Roger, como gosta de ser chamado, desembarcou em Newark em 9 de abril de 2001. Espantou-se. Jamais havia saído da Bahia. Sua referência de mundo, além dos filmes, era uma Candeias de 80 mil habitantes. Do dia para a noite, viu-se perdido na imensidão americana. Em sua cidade, era conhecido por todos. Nos EUA, virou apenas mais um, mera peça de uma engrenagem com 300 milhões de pessoas.


Trabalhar com cinema nunca passou de ficção pessoal. A vida nos EUA é roteiro imprevisível, uma epopeia por dia. O nordestino já foi garçom, atendente de farmácia, estoquista de loja de bebidas. Trabalha como cozinheiro em uma lanchonete de fast-food durante o dia, dá aula particular de inglês a estrangeiros, à noite, e escreve uma coluna sobre cinema para o jornal Brazilian Press. “Vim para cá com grandes expectativas. Está sendo um pouco frustrante porque, uma década depois, ainda não consegui meu objetivo, que é ser diretor de cinema. Muito também porque nem sequer tive chance. Vou continuar tentando”, assegura. Roger não reclama de trabalho, mas não gosta de lembrar que seu primeiro emprego nos EUA foi na construção civil. “Era pesado, até humilhante. Pensava todo dia em voltar para casa, chorava todo dia”, conta.


E é aí, nas entrelinhas, que emerge outro motivo para a ida de Roger aos EUA. Razão oficiosa, que ele às vezes esconde, minimiza, que só apareceu, em forma de confissão, do meio para o fim da conversa: Roger é homossexual. É, afirma, garante, mas não gosta. É que ele se acostumou a ver gente olhando de lado, dobrando o nariz, falando mal. Filho de família tradicionalista, criado sob educação rígida, esculpido para ser caixa de ressonância de valores maniqueístas. Ser gay era mancha, defeito. Inaceitável. A intransigência familiar o empurrou para fora do País. “Minha homossexualidade foi outro motivo que me fez ir embora do Brasil. Minha família nunca aceitou isso e até hoje não aceita”, desabafa, em tom de mágoa.

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Mal Roger reside e trabalha em Newark, mas Nova Iorque é seu escape. Onde ele não usa máscara, não se mente, não se mede. Onde a diversidade se expressa nos mais de 170 idiomas falados e nos 36% de estrangeiros de toda parte do globo que compõem sua população. Onde ele caminha, senta, levanta, namora, come, lê e dorme sem que ninguém o veja. Onde a noite não termina. “É muito mais liberado, mais aceitável. As pessoas não se importam com você. Aprendi aqui que, se eu quiser fazer uma coisa, eu devo fazer, não importa onde seja”, enfatiza. A Região Metropolitana de Nova Iorque tem 19 milhões de habitantes e é a área mais populosa dos EUA e segunda do mundo, só atrás de Tóquio.


No dia 24 de julho deste ano, o Estado de Nova Iorque tornou-se o sexto do país a reconhecer o casamento entre homossexuais. A luta do movimento gay nova-iorquino durava desde 1970 e a aprovação se deu, por 33 votos a 29, graças à mudança inesperada de quatro senadores republicanos conservadores. “Ainda há muita hipocrisia, nos EUA e no Brasil. O preconceito e a raiva infelizmente existem”, considera ele, que vem de um dos Estados mais mobilizados na batalha anti-homofobia, encabeçada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga associação de defesa dos direitos dos homossexuais no Brasil.
A repressão familiar não era a única. Estava nas ruas, na vizinhança, no conhecido, no estranho. Roger, que já havia feito curso de inglês e falava fluentemente o idioma quando morava em Candeias, dava aula de língua inglesa pela prefeitura, mas afirma que foi demitido em 2000 por motivações homofóbicas. Foi o gesto de intolerância que faltava para encorajá-lo a viajar para os EUA. “O filho da prefeita me demitiu alegando que não gostava do meu corte de cabelo. Isso não é motivo”, indigna-se.


Calejado no assunto preconceito e ainda imigrante ilegal, afirma que, mesmo tendo experimentado pouco dos EUA pré 11 de Setembro, tudo mudou depois dos atentados terroristas. “Os americanos antes eram muito convidativos. Depois, parecia que tinham todos virado detetives. As pessoas passaram a te olhar como se você fosse culpado.” O nordestino trabalhava em uma lanchonete de Newark em 2001 e, no momento dos ataques, as TVs foram desligadas. Roger continuou o expediente sorrindo, sem saber do que acontecera, até que foi repreendido por uma cliente americana, incomodada com seu astral. “Aquilo acabou com meu dia.”
Adventista, Roger vive numa luta eterna contra si mesmo. Mistura religião com educação familiar numa fórmula que resulta em intolerância pessoal. “Eu não me aceito sendo gay. Acho que tudo seria mais fácil e que eu seria mais feliz se não fosse homossexual”, crava. Roger está de costas para a liberdade.

 

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