ESTIGMA E INCERTEZAS DO ILEGAL

PERNAMBUCANA DE TRIUNFO ESTAVA QUASE NA TERCEIRA IDADE QUANDO CONCRETIZOU O SONHO DE CRIANÇA DE VIVER NOS EUA. MAS AMARGA A SINA DE IMIGRANTE ILEGAL


NEWARK – A sertaneja Rosinete Alcântara e Silva tem 66 anos, trabalha e paga seus impostos em dia. Tem residência fixa, jamais foi presa na vida e é querida na vizinhança. Nasceu no município pernambucano de Triunfo, a 402 quilômetros do Recife, e está há 11 anos em Newark, no Estado de Nova Jérsei, do lado de Nova Iorque. Nunca conseguiu o visto permanente. É, às vistas do governo americano, imigrante ilegal. É número, mais uma que sai de casa sem saber se vai voltar, invisível, acuada no meio de uma nuvem turva de intransigência à espera da legalização.


Filha de mãe paraibana e pai pernambucano com ascendência holandesa, Rose, assim conhecida por todos, sertaneja de traços europeus, alimentava o sonho americano desde a infância. Recortava figurinhas de bandeiras dos Estados Unidos em livros e revistas para colecionar. Encantava-se com as propagandas sobre a superpotência, que vendiam a imagem de país perfeito, soberano, ideal. Mal sabia a então menina que a realidade estava longe do conto de fadas imaginado.


Aos 17 anos, quando residia em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, em São Paulo, realizou seu primeiro sonho: casou-se. Seu marido era um jogador famoso, que atuou ao lado de Pelé e vestiu a camisa da seleção brasileira, cujo nome ela prefere preservar. Teve um filho com o ex-atleta. Mas o sonho esbarrou na vida real e o casamento acabou. Aos 24 anos e desquitada, virou professora, trabalhou como telefonista, foi contratada por multinacional, aprendeu italiano e inglês. Pronto, o idioma era o impulso de que Rose necessitava para ir ao encontro de seu desejo de infância. Voltou a estudar aos 40 anos, tornou-se enfermeira e ganhou do filho um presente: a passagem rumo aos Estados Unidos. “Foi meu filho quem me encorajou a ir e bancou a viagem”, conta.


A Rosinete arrumou a mala escondida e a colocou embaixo da cama. “Meu ex era muito presente e ele não ia me deixar viajar”, diz. A nordestina desembarcou no seu sonho no dia 21 de junho de 2000. Logo no percurso entre o Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova Iorque, e a cidade de Newark lhe chamou a atenção a imponência das Torres Gêmeas, que rasgavam os céus azuis de Manhattan naquele verão. “Aquilo me impressionou, me deu a exata noção de que eu estava nos EUA.” Exata, mas nem tanto. Foi no dia a dia duro de um imigrante que ela descobriu o abismo entre sonhar e viver. “Os EUA não são nada do que a gente espera. Antes, nós achamos que tudo é uma Disneylândia. Só vivendo para saber. Vim com um pouco de ilusão. Foi um susto. Precisei de adaptação”, pondera.


A princípio, a viagem seria apenas um passeio de menos de um mês. A pernambucana não fez planos, não sabia o que o futuro lhe reservava. Mas acabou ficando. O primeiro emprego veio dias depois da chegada. E foi puro acaso. A dona de uma rede de lanchonetes de origem portuguesa pediu a Rose que cuidasse de um estabelecimento porque teria que comparecer ao sepultamento de um parente. No dia seguinte, ela estava empregada. Passou sete anos como gerente do local. Em seu primeiro ano, dividiu o quarto com o filho de uma amiga, um adolescente de 15 anos. Não aguentou. Foi morar sozinha.

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pesadelo

Pouco mais de um ano após chegar aos EUA, Rose viveu o dia que mudaria a vida dela e dos outros 9,3 milhões de imigrantes ilegais que estavam no país em 2001, conforme números do Departamento de Segurança Interna e do Pew Hispanic Center divulgados no site da organização Immigration Policy Center (IPC), braço de pesquisa do Conselho Americano de Imigração. Rosinete dormia às 8h46 de 11 de setembro de 2001. Acordou para a vida. “Uma amiga do trabalho me telefonou e me mandou ligar a TV. Comecei a escrever o que via. Quando menos esperava, o segundo avião atravessou o World Trade Center. Não existe palavra no dicionário para descrever o que senti naquele momento. As Torres Gêmeas eram algo muito grandioso, um símbolo dos EUA. Na hora, pensei que aqui as coisas acontecem mesmo”, registra. “Foi uma semana de loucura. Ninguém sabia o que fazer. Juntou poeira no céu da cidade. Newark ficou cinza”, completa.


Ali o sonho americano da sertaneja definitivamente morria. Começava a luta diária contra o estigma de ser ilegal num horizonte que se anunciava intolerante, adverso, sombrio para os imigrantes. A ferida aberta no peito dos americanos criou um patriotismo cego, exacerbou preconceitos, proliferou repressão, espalhou medo.
“O rigor ficou muito maior em cima do ilegal. A imigração ficou pegando fogo, investigando tudo. A guerra tumultuou nossa situação, inclusive dificultou a emissão de vistos permanentes. Quem é ilegal não tem sossego”, observa. Rosinete chegou a ser sorteada para ganhar o green card há cinco anos, mas foi vítima de um golpe. Investiu US$ 5 mil, dinheiro que juntou por meia década, e acabou não conseguindo a carta de alforria dos estrangeiros nos Estados Unidos.


Mas a ilegalidade não lhe tira o sono. Vaidosa, de cabelos sempre pintados, sobrancelhas feitas e maquiagem, a senhora de idade que já enfrentou de tudo na vida mantém os pés no chão e a cabeça no lugar. “É preciso serenidade. Não me desespero. Não fico louca tentando arrumar casamento com americano, como muita gente faz. Trabalho, pago meus impostos, faço tudo direito. Não há razão para me expulsarem ou para não me regularizarem”, enfatiza ela, que é gerente de uma loja de perfumes e produtos naturais em Newark, separada de Manhattan pelo Rio Hudson. O expediente é pesado, das 9h às 19h, de segunda a sábado. Aos domingos, nada de descanso. Vai à Newark Penn Station encarar 20 minutos de metrô. Estuda inglês em Manhattan e sonha no Central Park, onde as árvores quase escondem os arranha-céus e os problemas

 

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