Depoimentos



Onde você estava em 11 de setembro de 2001? Não há quem não saiba responder. Não precisa ser americano para lembrar. Uma década depois, os atentados terroristas desfechados pela Al-Qaeda permeiam o imaginário mundial com vividez persuasiva. Impossível esquecer a perplexidade unânime de ver a superpotência ajoelhar-se à dor, a agonia de assistir ao drama de milhares de inocentes, o temor retumbante de novos ataques. O mundo mudou ali. Nós mudamos. Fomos apresentados a uma nova realidade, talhada de intolerância. Em pleno terceiro milênio, o planeta retrocedia.


Há dez anos, este então adolescente que cursava o 3º ano do ensino médio e estudava para realizar o sonho de ser jornalista viu mais uma manhã na escola se tornar o dia que não acabou. As aulas viraram debate sobre o inacreditável. O recreio foi um rebuliço. Num tempo em que a internet tinha alcance cinco vezes menor que o atual, todos se voltaram para as TVs. A história acontecia sob nossos olhos.


Menino, eu jamais poderia imaginar que, dez anos depois, estaria lá, pisando o chão que se banhou de sangue, respirando o ar em que fumaça e poeira vaguearam, ouvindo gente que viveu as entranhas da tragédia. Recontar o 11 de Setembro, jornalista e historiador que sou, é uma experiência única. Responsabilidade em dobro.
O desafio começou às 12h51 de 30 de maio deste ano, quando o voo 1877 da Gol partiu do Recife. Escala feita no Rio, seguimos eu e o fotógrafo Rodrigo Lôbo num Boeing 767 da American Airlines para o Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova Iorque. Dormi pouco no avião, que o nervosismo perturbou o sono. Acordei às 4h30 do dia 31, na parte final do voo, acima das Ilhas Bermudas, sob um alvorecer que palavra nenhuma descreve. O horizonte alaranjado acendia as esperanças de uma boa pauta em minha primeira cobertura em outro país.


A viagem sedimentou alguns mitos, desfez outros. Deixou, contudo, uma certeza: pré-julgar é sempre temerário. Nova Iorque, assim como qualquer lugar no mundo, tem gente mal-educada, intransigente, preconceituosa. Também tem pessoas solidárias, prestativas, cordiais. Vivemos os dois lados da moeda num país ainda traumatizado. Descemos em solo americano às 6h28. A viagem ansiada por mais de seis meses, enfim, se concretizava. Estávamos prontos para desbravar o Nordeste brasileiro encravado no Nordeste americano. Mas ainda seria necessário passar pela alfândega, a vilã dos terminais aéreos, cujo rigor foi exacerbado após os ataques terroristas. Enfrentamos fila com 300 pessoas, tiramos os sapatos, fomos submetidos a procedimentos de segurança. O medo de ser barrado, então, se desfez. Prazer, EUA.


Conhecemos policiais truculentos, que por duas vezes nos impediram de fazer fotografias de personagens – uma vez no Lincoln Center e outra na praça da multinacional Apple. Mas nos deparamos com policiais amigáveis, que conversaram e até pediram para ser clicados pelas lentes de Lôbo. Um deles até me deu seu chapéu para uma foto que tiramos juntos. Uma situação, em especial, me deixou intrigado. Não sei se fui vítima de preconceito por ser brasileiro ou se simplesmente lidei com um americano sem educação. É difícil enxergar de dentro, se admitir discriminado. Estava comendo hot dog em um trailer quando um rapaz chegou, pediu um lanche e, na hora de pegar uma garrafa d’água, a derrubou. Imediatamente apanhei o objeto no chão. Maldita hora. O americano, um negro com cerca de 30 anos, tomou a garrafa da minha mão, começou a me xingar e disse que não precisava de minha ajuda. Calado estava, assim fiquei.


No Central Park, vi americanos protestarem pela causa palestina, um ato no mínimo curioso, haja vista que os EUA são a muleta internacional de Israel. Um grupo de não mais que 50 pessoas realizou a passeata erguendo cartazes com dizeres como “Israel racista” e gritando “Palestina livre”.
Não houve experiência mais marcante, porém, do que conhecer o lugar onde ficava o WTC. O primeiro contato com a história foi ainda debaixo da terra, quando descemos do metrô e subimos as escadas rolantes. No alto, acima do vaivém de pessoas, estava o letreiro azul que anunciava a estação: World Trade Center. Pensar que, dez anos atrás, 2.749 americanos e estrangeiros morreram ali, que outros milhares carregam ainda hoje o trauma de ter vivenciado aquele drama, que o mundo entrou num ciclo de intolerância do qual ainda não saiu é se transportar para o passado e reavivar antigos fantasmas. É sentir-se parte da história. Entristece, intriga, instiga a reflexão.


As imponentes Torres Gêmeas não existem mais. Ficou uma lacuna geográfica e psicológica em Nova Iorque. O Marco Zero, um terreno de 65 mil metros quadrados, o equivalente a oito Maracanãs, virou um canteiro de obras cercado por tapumes. Em ritmo caótico, gente do mundo inteiro passava por lá enquanto fazíamos nosso trabalho. Uns eram indiferentes, acostumados à reconstrução do orgulho americano. Outros tantos paravam, olhavam, tentavam entender, desistiam de tentar entender, tiravam fotos, comentavam, iam embora. Eu não conheci a Nova Iorque de antes do 11 de Setembro. Mas conheci o vazio.
Os 15 dias nos EUA foram enriquecedores. As 11 histórias nordestinas que ouvimos funcionaram como um curso intensivo de vida. O sonho, o baque, o trauma, o preconceito, os percalços, a volta por cima, cada palavra destes retirantes do terceiro milênio vai além de um trabalho jornalístico. É retrato histórico de nossa gente, radiografia da batalha diária do imigrante brasileiro na terra das oportunidades.