Depoimentos



Nada é mais chato para um jornalista do que saber por último de uma notícia que todo mundo já sabe. Foi assim comigo e o 11 de Setembro. Eram 10h e eu havia acabado de acordar - estava desempregado. Morava na Rua do Príncipe, na Boa Vista. E tinha o hábito de descer, todas as manhãs, para bater um papo com o simpático dono de uma banca de revistas vizinha ao prédio.


Não foi diferente neste dia. Desci e, ao chegar à banca, vi uma movimentação diferente. A pequenina TV em preto e branco estava cercada por umas cinco a seis pessoas. O proprietário da banca estava entre elas. Quando me aproximei e me juntei à “multidão”, vi a imagem que grudou no córtex da humanidade naquela manhã quente há dez anos: as Torres Gêmeas fumegando. Se hoje a gente se espanta ao rever o World Trade Center em chamas, naquele dia o impacto foi descomunal. Sem saber direito o que estava acontecendo, perguntei e obtive a resposta: “Estão atacando Nova Iorque”. Melhor: “Estão atacando os Estados Unidos”.


Àquele momento, tudo que a gente sabia era pouco e as perguntas eram muito. Sabíamos o “onde”, o “quê” e o “quando”. Desconfiávamos do “por quê”. Mas o “quem” e o “como” eram incógnitas. Com o passar dos dias, fomos tomando conhecimento de coisas que não sabíamos. Al-Qaeda, Talibã, Osama bin Laden, Mohamed Atta. Velhos conhecidos que, dias antes, eram apenas nomes estrangeiros. Um novo mundo que se descortinou e que virou cotidiano desde então.


O que mais me chocou, na verdade, não foram as imagens dos aviões. Nem as pessoas cobertas de cinzas. Muito menos o desabamento dos prédios-símbolo do poderio econômico americano. Foram as manifestações de celebração em várias partes do mundo. Da Faixa de Gaza à Boa Vista. Culpas presumidas à parte, vinganças não são justificáveis. Comemorar a morte de 2.973 pessoas não condiz com o senso de civilização. Muito menos é justificada a euforia com a notícia da eliminação de Bin Laden.


No fim das contas, dez anos depois, o 11 de Setembro não é uma lembrança pálida em uma gaveta empoeirada no fundo da memória. É um dia que não acabou, que está vivo, regurgitando suas entranhas a cada explosão em uma cidade poeirenta do Afeganistão.