O RECOMEÇO


As casas número 56, na Rua Santo Antônio, em Camela, e outra sem número, na Rua Pedro de Souza Leão II, em Nossa Senhora do Ó, ambas em Ipojuca, Região Metropolitana do Recife (RMR), exalam felicidade. Não uma felicidade comum. É daquelas que transborda por todos os lados e vai além das explicações. Apesar de pequenas e bastante simples, parecem verdadeiros palacetes. Não pelo luxo. Mas por abrigarem, sem cobrar aluguel ou algo do tipo, sorrisos de uma cidade com pouco mais de 80 mil habitantes. Nelas moram os irmãos Marcelo e Valfrido Lira. Acusados de matar, em maio de 2003, as amigas Maria Eduarda Dourado e Tarsila Gusmão, no Litoral Sul, absolvidos há exatamente um ano por um júri popular.

“Não há palavras que possam descrever o que estou sentindo. Faz um ano que fomos absolvidos. E foi o povo quem fez isso, contra tudo e contra todos. Não teve dinheiro que nos condenasse. Parece que foi ontem. Nada se compara ao fato de poder estar na minha casa, com meus familiares, trabalhando e vivendo normalmente, como um cidadão de bem que sou”, afirma um confiante Valfrido, enquanto cortava o cabelo. “Pra você ver. Cortar o cabelo é coisa simples pra você, né? Pra mim não era”.

Na verdade, o fato de acordar, para Marcelo e Valfrido, não era simples. Tanto no Centro de Observação Criminológica e Triagem Professor Everardo Luna (Cotel), onde passaram dois anos e oito meses presos pelo assassinato das meninas, quanto no Aníbal Bruno, levantavam no sobressalto. “Na minha casa, junto com minha esposa e meus filhos, acordo a hora que quiser. No presídio, todos os dias toca uma sirene. O som é muito alto. Em menos de 30 minutos, todos os presos precisam estar no pátio, de cabeça baixa”, explica Valfrido. “Mas isso faz parte do passado. Queremos agora é apagar o que passou e viver o presente e o futuro”, completa.

O presente já está sendo vivenciado pelos irmãos. Um ano depois de inocentados, voltaram a trabalhar como kombeiros. “O melhor da liberdade é poder viver. Isso me basta. Trabalhar e estar junto da minha família”, diz Marcelo, que ainda espera que a Kombi dele, apreendida pela polícia durante a investigação do crime, há oito anos, seja devolvida. O veículo continua sob poder da Justiça.

Enquanto não recupera a Kombi, Marcelo trabalha como kombeiro no carro dos outros. “Muita gente nos ajudou e ainda ajuda. Um amigo meu, daqui de Nossa Senhora do Ó, me empresta o carro para eu rodar. Pago uma renda a ele por dia e o restante é meu”, explica. Ele faz a linha Nossa Senhora do Ó/Ipojuca e também transporta pessoas para Porto de Galinhas.

Já no quesito trabalho, Valfrido parece ter tido mais sorte que o irmão. “Eu tinha uma Kombi, que estava bem velha. Mas contei com a ajuda de amigos para recuperá-la. Um me deu a tinta para pintá-la. Outro, a mão de obra. Hoje ela está aí e posso fazer viagens, levando grupo para passeios. Mas estou com um trabalho engatilhado em Suape”, afirma, sem dar muitos detalhes. Tanto Valfrido quanto Marcelo contam que não sofrem preconceito pelo fato de serem ex- presidiários. “Pelo contrário. Sempre que o povo nos reconhece, faz questão de ir na nossa Kombi e

dizer que estão do nosso lado. Dizem ter certeza que não matamos ninguém”, conta Valfrido.

Os dois irmãos comemoram a nova vida que recuperaram. Driblaram as dificuldades para conseguir trabalhar mais uma vez. “Podemos ir onde quisermos, fazer o que quisermos, a hora que quisermos. Isso nos basta. Sem mágoas de ninguém. No meu coração não há espaço para mágoas. Quero que, um dia, a verdade apareça. Enquanto isso, vou vivendo a vida normalmente. Aproveitando cada momento ao lado de quem amo. Coisa simples, que nos foi tirada, e agora temos de novo”, comemora Valfrido.

Publicado no dia 03 de Setembro de 2011 no JC Online e no NE10