VALFRIDO


Depois de dois anos e oito meses na cadeia, Valfrido Lira quer, aos 44 anos, renascer. Um ano após ser considerado inocente, ele ainda engatinha na vida recém iniciada. Com a ajuda de amigos deu cara de nova a uma Kombi ano 1984 e assim consegue o sustento para a esposa, a mãe e dois dos quatro filhos que moram com ele.

Quando encontramos Valfrido, ele cortava o cabelo ao lado da casa da sogra. Uma frase sobre o espelho resume sua filosofia de vida: “O melhor da vida é dar a volta por cima”.

Depois de realizar o sonho da liberdade, Valfrido já tem outro: conseguir trabalhar novamente como operador de máquinas em Suape, como fazia há oito anos, antes da noite mais marcante de sua vida, que ele lembra em detalhes. “Chegaram de noite, encapuzados, com arma na minha porta, ‘torando’ o cadeado. Eu não sabia quem era que estava ali. Corri. Não queria me entregar porque sabia que ia sofrer por uma coisa que eu não fiz”. Mas o pior ainda estava por vir, no período em que se encontrava sob a guarda do Grupo de Operações Especiais (GOE). “Não me tocaram. Mas levaram (a arma) aqui (ao lado do ouvido) e atiraram. E botaram (a arma) na minha boca, mandaram ajoelhar e pedir perdão. Eu disse: ‘Pode me matar, mas ajoelhar e pedir perdão de uma coisa que eu não fiz, de jeito nenhum. Pode me matar’”.

Mesmo assim, ele diz não ter raiva de ninguém. “A gente não deve guardar mágoas porque ninguém sabe o dia de amanhã”. Apesar de se dizer com o coração leve, não perdoa o Estado. “Já estaria aposentado se não tivesse sido preso”, afirma ao justificar o processo que pretende mover contra o Governo. Atualmente, só pensa em viver. “O que quero hoje é viver com minha família em paz. Viver o que deixei de viver por passar esse tempo todo sendo acusado de um crime que não cometi”.

Publicado no dia 03 de Setembro de 2011 no JC Online e no NE10