Há menos sangue na estrada. Essa é a melhor face da nova BR-101 Nordeste. Com a duplicação de 400 quilômetros da rodovia, ampliando a sua capacidade viária entre o Rio Grande do Norte e a Mata Sul de Pernambuco, a gravidade dos acidentes diminuiu. Agora, eles mutilam e matam menos. Continuam acontecendo com uma frequência crescente, que até assusta, mas são menos graves. Em Pernambuco, na Paraíba e no Rio Grande do Norte isso já é fato. Nos Estados onde a nova BR-101 ainda não se fez, a angústia pela espera do progresso cede lugar ao anseio pela modernização viária. É a esperança de que, com a duplicação, diminuam as perdas humanas. Que haja menos dor.
Se a nova BR-101 Nordeste ainda não trouxe o desenvolvimento esperado, já tem o mérito de reduzir a violência nas estradas. Tecnicamente, credita-se à ampliação da capacidade de uma rodovia a redução de até 80% das colisões frontais. O Rio Grande do Norte é o Estado que melhor exemplifica essa constatação. Nos quase cem quilômetros de duplicação da 101, tudo reduziu: número de acidentes, mortos e feridos. A queda ultrapassou os 80%. Em 2004, antes das obras, o trecho que na época era simples (mão dupla) registrou 433 acidentes, 328 feridos e 76 mortos. Ano passado, quando a duplicação já era fato - depois da Paraíba, o Rio Grande do Norte foi o Estado em que os trabalhos mais avançaram no eixo norte da BR -, as colisões baixaram 13%, o número de feridos 48% e o de mortos 83%. No caso das mortes, a queda foi gritante: de 76 mortos em 2004, caiu para 13 em 2010.
Na Paraíba, a redução atingiu apenas os índices de mortes, mas mesmo assim é comemorada pelo Estado. No trecho paraibano da BR-101, a queda vem sendo registrada de 2009 até agora. Chegou a 33% no total de mortos. O número de acidentes, entretanto, só aumenta. Cresceu 24,19% em 2010. “A duplicação rodoviária é a melhor coisa que pode acontecer. Mas o crescimento da frota, de 14% anualmente, não permite que haja uma redução dos acidentes. Temos 700 mil veículos na Paraíba e a circulação entre Pernambuco e o Rio Grande do Norte aumentou muito”, explica o inspetor Genézio Vieira, da PRF paraibana.
Em Pernambuco, os números oscilam. Os acidentes só aumentam. De 2008 para cá é que a PRF começou a registrar uma pequena redução na quantidade de pessoas mortas e feridas gravemente. Nada muito intenso, mas importante. Foram 136 óbitos em 2008, 119 em 2009 e 129 em 2010. A leve queda começou à medida em que a duplicação ia sendo finalizada, especialmente no lado sul da BR-101, executada pela iniciativa privada e praticamente concluída há mais de um ano. Segundo a PRF-PE, o trecho da rodovia que mais tem registros violentos fica entre os quilômetros 60 e 80, exatamente no chamado contorno urbano do Recife. Até duas semanas atrás, o trecho estava quase intrafegável de tantos problemas no pavimento.
A transformação da velha na nova BR-101 Nordeste, entretanto, esconde outra face para os acidentes de trânsito. Se por um lado inibe as colisões frontais, diminuindo o número de mortos e feridos, estimula o excesso de velocidade. Na Paraíba, por exemplo, um dois trechos que mais têm índices de acidentes é um segmento em reta, na área rural, que proporciona conforto aos motoristas e estimula o excesso de velocidade. Mas o maior problema das rodovias duplicadas, sob o aspecto dos acidentes de trânsito, ainda são os perímetros urbanos. É neles que a nova BR-101 Nordeste tem o seu lado mais frágil porque é onde as obras demoram mais a serem concluídas.
Em Goiana, Pernambuco, na entrada de Canguaretama e em Goianinha, no Rio Grande do Norte, isso é uma realidade. No acesso à Canguaretama, acidentes têm acontecido com frequência e o improviso na sinalização confunde a todos. Em Goianinha, município onde fica a Praia da Pipa, uma das mais famosas do Nordeste e, por isso, responsável por atrair um grande volume de veículos, os pedestres dependem da boa vontade dos motoristas. A travessia é uma confusão. O mesmo acontece em alguns pontos do perímetro urbano de Goiana (PE).
O engenheiro Carlos Alberto Moreira, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) de Sergipe, defende que, ao serem duplicadas, as rodovias deveriam sair das cidades, livrando as áreas urbanas. “Caso contrário, fazemos uma duplicação de mentirinha. Se a estrada continuar passando dentro das cidades, temos que reduzir a velocidade, seja com lombadas ou semáforos. Essas soluções comprometem a velocidade que os veículos desenvolvem e aumentam os riscos de atropelamentos. O certo é a rodovia passar por fora e as cidades irem atrás da duplicação, crescendo na direção da estrada, não às suas margens”, afirma. Em Sergipe, onde ainda não há duplicação, os números de acidentes, mortos e feridos só aumentam. Chegaram a subir entre 17% e 50% em um ano. Por lá, assim como em Alagoas, todos esperam pela nova BR-101.
Pouco importa se ela é a maior e mais importante rodovia do Brasil. Se tem o papel de ligar o Norte ao Sul e de alavancar o desenvolvimento econômico do Nordeste. A BR-101 não recebe a atenção que deveria quando o assunto é fiscalização de trânsito. A equipe do JC percorreu 2.500 quilômetros da BR e praticamente não viu agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) presentes. Passou por diversos postos, mas todos sempre aparentavam estar vazios ou, no máximo, protegidos por apenas um policial. Viaturas, então, raramente eram vistas. Abordagem a motoristas, nenhuma. Esse foi o cenário visto do Rio Grande do Norte a Sergipe.
Até mesmo um acidente flagrado na BR-101 em Pernambuco, no trecho de Ribeirão, na Mata Sul do Estado, ficou sem a presença dos policiais. Um caminhão tombou numa curva, ficou por horas com a carga de ferro-velho derrubada, numa área perigosa, que necessitava de sinalização para evitar novos acidentes, e nenhum agente da PRF apareceu. O posto federal mais próximo, localizado no município, está fechado e é apenas um de nove unidades que a instituição planeja desativar em Pernambuco até o fim do ano. O motivo: uma tentativa de compensar o déficit de efetivo no Estado.
O problema não é local, mas nacional. São 9.133 policiais responsáveis pela fiscalização de 66 mil quilômetros de rodovias federais, quantidade três vezes menor do que o necessário para prestar um bom serviço. A própria categoria alega que o efetivo deveria ser de 20 mil profissionais. Em Pernambuco, são menos de 500 patrulheiros, quando o ideal seriam mil.