25 mil pessoas foram ao Festival

Kleber Mendonça Filho
Do Jornal do Commercio

Depois de tantos filmes, tanta gente, badalação e diversão, chegar à cerimônia de premiação de um festival grande como o do Recife parece anti-clímax, mera formalidade. Se já na segunda edição do Festival, balanços finais como este já reconheciam a maioridade do evento pernambucano, esta quinta edição, que acabou na noite da última segunda-feira, vem apenas sedimentar ainda mais um evento que encanta justamente por aquilo que mais preocupa os que fazem o Cinema Brasileiro: o público, ou a falta dele. O Festival de Cinema do Recife é hoje, de longe, a maior festa do Cinema Brasileiro, uma festa que acontece aberta ao público, numa cidade forte culturalmente.

O organizador Alfredo Bertini, da BMK Empreendimentos, divulga oficialmente os números: cerca de 25 mil pessoas viram a programação, que não inclui apenas a concorrida Mostra Competitiva, mas as pré-estréias matinais (O Sonho de Rose, Tainá, Os Xeretas), além das exibições na praia e nos bairros. Só no último final de semana, foram cerca de oito mil pessoas no Teatro Guararapes.

PREMIAÇÃO - Numa cerimônia simples e quase estritamente oral (via apresentadores Graça Araújo e Hugo Esteves), o público foi informado que o curta em 16mm Intestino Grosso (RS) seria o grande portador dos simpáticos troféus Passista na categoria ficção (Montagem Direção, Filme) e que o outro gaúcho (documentário) A Invenção da Infância levaria “tudo” (Filme, Roteiro, Fotografia, Direção). A animação Almas em Chamas (35mm) também saiu-se bem na sua categoria (Melhor Filme, Som, Direção), com uma saudação para o gaúcho Cavaleiro Jorge (Roteiro).

O paulista Palíndromo foi um dos destaques da premiação, refletindo a sua ótima acolhida no Festival junto ao público. Levou Som e Direção (Philippe Barcinski), prêmio dividido com o pernambucano O Velho, o Mar e o Lago, de Camilo Cavalcante, o grande vencedor da noite (Fotografia, Ator e Filme), que levou ainda o prêmio de aquisição do canal Brasil, junto com o gaúcho O Branco . Cada curta ganhou R$ 5 mil.

O documentário 35mm Brennand - de Ovo Omnia, de Liz Donovan, levou Filme e Direção. O curta de ficção 16mm Assombrações do Recife Velho, exibido com problemas de cópia, ganhou Roteiro, prêmio dado também a A Composição do Vazio, de Marcos Enrique Lopes.

LONGAS - A premiação dos longas foi mais estranha, especialmente em relação ao forte contingente de documentários onde a peça-matriz era, sem sombra de dúvida, Babilônia 2000, do mestre Eduardo Coutinho. Pois bem, A Vida em Cana, produzido por usineiros de São Paulo, sobre seus canavieiros, terminou varrendo a premiação (Montagem, Direção, Filme).

A Negação do Brasil ganhou Roteiro e o recém-instituído prêmio Gilberto Freyre, que talvez seria melhor aplicado ao soberbo retrato social do Brasil, apresentado no filme de Coutinho. Em festivais, observa-se com freqüência que temas ganham mais prêmios do que filmes propriamente ditos. No caso de A Negação do Brasil, o importante tema do racismo na TV brasileira, tratado de forma inferior ao tema.

Na categoria Ficção, Domésticas saiu-se razoavelmente bem, levando Fotografia e um prêmio coletivo para o seu elenco de atrizes, que inclui a pernambucana Cybele Jácome. No entanto, a vitória quase totalizadora de Bicho de 7 Cabeças pareceu refletir a baixa qualidade dos longas em competição. O filme de Laís Bodansky, correto, comunicativo e contra ‘o sistema’, estrategicamente exibido domingo em clima de apoteose, parece ter ganho por W.O. Levou Montagem, Som, Trilha, Roteiro, Direção, Filme e Ator, para Rodrigo Santoro, que subiu ao palco e lembrou Chico Science, para o delírio da platéia.