Uma mensagem ao contrário

Carol Almeida
Do Jornal do Commercio

Philippe Barcinski vive atualmente de filmes publicitários e seu filme Palíndromo (foto) foi o vencedor na categoria de Melhor Diretor em curta-ficção 35 mm do V Festival Nacional de Cinema do Recife. Da experiência com a publicidade e a televisão, o diretor extraiu o domínio técnico. De seus anos como cinéfilo, aprendeu a distinguir o tempo e espaço do cinema. Em entrevista ao JC, Barcinski falou dos seus projetos e de como ele está sempre tentando novos exercícios de linguagem.

JORNAL DO COMMERCIO – Qual a idéia que você quer passar com o filme?

PHILIPPE BARCINSKI – Tanto no Palíndromo quanto nos outros curtas que eu fiz, procuro sempre manter um equilíbrio entre uma experimentação de linguagem e uma narrativa atraente, tentando não deixar o filme hermético. O ideal é fazer coisas novas, mas fazer um filme que possa ser exibido em televisão ou como foi no Festival, para 2500 pessoas.

JC – E por que de trás para a frente?

PB – Eu vi alguns filmes que mexiam com isso, mas nunca tinha visto um com uma história inteira de trás para frente. A tentativa do Palíndromo é um exercício narrativo mesmo, as pessoas andam de costas, o som é ao contrário e isso gera alguns efeitos interessantes, pois ele começa numa situação de ápice dramático e a expectativa que se cria é saber como a pessoa atingiu aquele ápice. É realista, mas tem um ar poético.

JC – E como você conseguiu aquele efeito com a câmera?

PB – Não há câmera por aqui que consiga filmar de trás pra frente. A gente teve que filmar com a câmera de cabeça pra baixo, com o outro lado do filme.

JC – Você tem algum projeto em longa-metragem?

PB – Tenho. No momento, estou com um outro curta filmado, em fase de finalização, que se chama A Janela Aberta e deve ficar pronto no segundo semestre. E ao mesmo tempo que estou finalizando ele, desenvolvo duas histórias em longa que ainda estão bem incipientes. Quero muito fazer longa, quero contar uma história maior também.

JC – Fala um pouco mais desse próximo curta.

PB – Eu filmei A Janela Aberta com um prêmio do Ministério da Cultura e ele parte de uma idéia que surgiu com uma amiga minha psiquiatra. Ela trata de pessoas que têm uma doença chamada de TOC, que é uma ‘doença’ que todo mundo tem em menor escala, mas que quando está em maior escala vira uma patologia. É aquilo de você ter pensamentos obsessivos que ficam voltando pra sua mente o tempo todo e você cria rituais pra conviver com eles. Esses pensamentos são coisas triviais como ‘eu desliguei ou não a luz’, ‘fechei ou não o gás’. E há pessoas que convivem com isso de uma forma mais barra-pesada. E o filme é assim, um cara que está numa situação trivial, deitado na cama tentando lembrar se fechou ou não uma janela na sala. E ele fica pensando e então começa a lembrar do que ele fez pra se lembrar se fechou ou não a janela, mas aí a coisa vai crescendo, tomando ares de patologia mesmo e ficando assustador. É uma experimentação de linguagem.