Curtas arrebatam público no Teatro Guararapes

Fabíola Blah
Do JC OnLine

Uma esposa bonitona, uma suspeita, uma tatuagem. Esses três itens podem sintetizar o roteiro de A Caravela, primeiro curta exibido nessa quarta-feira, segunda noite do Festival de Cinema do Recife. O filme, uma ficção feita em 16mm, interliga esses elementos através de um suspense leve.

"O argumento do filme é a monotonia e, sob esse aspecto, parece-se com o outro que será exibido hoje à noite", define o diretor Rodolfo Lopez, referindo-se ao curta Sintonia Fina, também programado para essa quarta. O desfecho inesperado de A Caravela conquistou a platéia, que aplaudiu bastante.

O pernambucano da noite foi o documentário A Composição do Vazio, de Marcos Enrique Lopes. Belo documentário biográfico sobre a obra do filósofo e jornalista pernambucano Evaldo Coutinho, o filme seduz logo de cara: as mãos trêmulas da personagem principal escrevem o nome do filme. A hesitação não tira a beleza da cena.

Contando com depoimentos de diversos acadêmicos e estudiosos de filosofia, o filme mostra com competência a grandeza da obra de Coutinho, a abrangência de seus estudos e sua importância para a filosofia mundial. "Não olhem as imagens, prestem atenção nas palavras", disse o diretor Lopes, finalizando seu discurso de apresentação.

A Composição do Vazio apresenta a importância do professor Evaldo nos campos do cinema e da arquitetura, além da própria filosofia, tratando de um tema difícil com uma abordagem completamente acessível. "A vida não é mais do que uma infringência da lei da morte", diz o professor, em dado momento do filme. Aplausos e gritos de "bravo!" ecoaram no Teatro Guararapes, após os 33 minutos de duração do 'curta'.

BOMBRIL NA ANTENA - O terceiro curta da noite foi o paulistano Sintonia Fina, de Renato Chiappetta. A monotonia citada por Lopez no primeiro curta é a espinha dorsal deste outro, que retrata a convivência de um casal - mais a televisão, item importantíssimo no roteiro, 'decorada' com um singelo bombril na antena.

Distância, falta de comunicação e descaso com o outro surgem descaradamente em cena, graças à boa dupla de atores: Rubia Reame e Otávio Dantas seguram com firmeza (e muito humor) os 5'30" de duração do filme. "São apenas dois planos-seqüência, vejo aí alguma reminiscência do teatro. Tudo está nas mãos dos atores, e eles corresponderam muito bem", elogiou Chiappetta. As palmas do público provaram que o diretor está certo.