Coragem e cidadania em epopéia sem-terra

Fabíola Blah
Do JC OnLine

Difícil desvincular o Movimento Sem-Terra da violência, seja ela sofrida ou praticada por seus integrantes. Não é diferente em O Sonho de Rose, de Tetê Moraes, primeiro longa-metragem desta quarta, segunda noite de Festival de Cinema do Recife. No entanto, após a parte violenta comum a um processo de luta, o que se vê na tela grande é muita força de vontade, muito trabalho e muita esperança no futuro.

Pode até ser meio clichê fazer esse tipo de comentário, mas a história de O Sonho... não o é, a começar de seu resumo: um caso de reforma agrária que deu MUITO certo no Brasil. O filme conta o retorno de Tetê à fazenda Annoni, interior do Rio Grande do Sul, onde ela esteve em 1985 e filmou a invasão da propriedade pelos sem-terra, no primeiro caso do gênero do País, tido como marco da fundação do MST. Esse primeiro filme chama-se Terra para Rose e foi lançado em 1987.

Integrantes do Movimento Sem-Terra em Pernambuco foram convidados a assistir o filme e tiveram calorosa recepção pela platéia presente ao Centro de Convenções. O Sonho de Rose terá mais uma apresentação no próximo sábado, no mesmo local, às 15h, somente para professores.

A Rose do título é uma sem-terra que foi morta num acidente envolvendo um caminhão. Há dúvidas quanto à veracidade do fato; para muitos sem-terra, ela foi mesmo assassinada. E tudo aconteceu antes que as terras da Annoni - 8 mil hectares improdutivos, com um processo de desapropriação correndo há anos na Justiça - fossem entregues legalmente ao movimento.

CORAGEM - Neste segundo filme, Tetê Moraes conta o sucesso do loteamento e para onde foram os sem-terra que preferiram não ficar na Annoni. Em suas quase duas horas de duração, o longa dá uma aula de cidadania e coragem, quando vemos pessoas que não têm muita perspectiva lutar firmemente por um propósito que não é concreto, mas que se mostra perfeitamente possível, palpável e real no fim das contas.

Lavouras de legumes e verduras, criações bovina e suína, frigorífico, escolas, creche, tudo isso faz parte dos assentamentos da Annoni, a maioria gerenciada por cooperativas dos trabalhadores. Funcionando como um relógio, o sucesso da vida no campo garante a fixação do homem e sua família no interior, evitando que sejam marginalizados nas capitais.

A reação do público não poderia ser melhor: muitos aplausos, gente chorando comovida com o final, os sem-terra presentes à sala felizes ao ver a realização de um sonho alheio - mas que é muito deles.

"Queria fazer um filme sobre mulher e terra. Quando vi, rendeu uma epopéia, dois longas vitoriosos e premiados", disse a diretora, em entrevista exclusiva ao JC OnLine. Sobre a adequação do filme ao tema do Festival do Recife - identidade nacional -, Tetê afirma que "a questão do movimento social e da reforma agrária se encaixa perfeitamente, uma vez que aborda a inclusão do cidadão na sociedade e a construção de sua identidade".

SERVIÇO
Para saber mais detalhes do filme, participe de bate-papo com Tetê Moraes nesta quinta-feira (26), às 17h, aqui no JC OnLine.