Estranhas criaturas de avental

Kleber Mendonça Filho
Do Jornal do Commercio

Veja um filme e tente enxergar, ali, a sociedade que o fez. Com isso em mente, Domésticas (Brasil, 2001), de Nando Olival e Fernando Meireles, é um documento tecnicamente perfeito sobre o quanto o Brasil é um País assustadoramente patriarcal nas relações entre ricos e pobres. O resultado final é uma espécie de comédia sincera e, por isso mesmo, incômoda pela franqueza dos seus valores dúbios.

Mesmo assim, e talvez por causa disso, Domésticas teve excelente recepção do público pernambucano na noite de abertura do V Festival de Cinema do Recife, terça-feira, mantendo a atenção de uma platéia que ficou até 1h30 tentando chegar a algum acordo com as poltronas do Teatro Guararapes. Houve atrasos na extensa programação.

Interessante observar que Domésticas é, na verdade, uma obra que tem carinho pelas suas personagens, e isso já seria um ponto positivo. Trata-se, no entanto, de um tipo especial de carinho social, espécie de relação patronal capaz de fazer brasileiros de instrução e religião soltarem frases doces como “essa neguinha tem alma de branca”. Não é o tipo de carinho que existe entre sinceros amigos, mas alguma ternura viável entre uma patroa e sua doméstica ‘limpinha e de confiança’.

INOFENSIVOS - No último filme do diretor americano Spike Lee, Bamboozled (2000), ele analisa a forma racista e patriarcal de tratar a imagem dos negros na história do cinema e da TV, nos EUA. Eles eram sempre os negrinhos inofensivos e sorridentes, menestréis alegres e comedores de melancia, aceitos por brancos justamente por serem inofensivos.

Em Domésticas, as empregadas são inofensivas, parecem ‘conhecer’ seus respectivos ‘lugares’ na sociedade. As poucas reclamações e inquietações parecem ter sido escritas como alívio cômico, num País onde a tensão entre as classes atinge níveis insuportáveis. Onde está esta tensão no filme, mesmo que bem humorada?

Não há tensão no filme porque não há patrões à vista. As domésticas conversam entre si, com elas mesmas e com seus eletrodomésticos. Talvez os patrões (os diretores) não apareçam por estarem atrás das câmeras, dando as ordens do mesmo jeito. Olival e Meireles abrem espaço controlado para o engraçado mundo de empregadas e porteiros, motoboys e entregadores de pizza que não sabem falar direito.

A tentativa do filme de mostrar respeito e pesar pelos personagens vem na forma da sofrida Creo (Lena Roque), que passa a procurar a filha desaparecida na cidade grande. Filmada em vinhetas de fotografia ‘time-lapse’ (imagens velozes da cidade), Creo tem a profundidade de uma mascote numa campanha publicitária filmada em São Paulo, à noite.

“PEIXIANA” – Toda vez que o drama de Creo ameaça baixar o astral do filme nas suas inserções de 30 segundos, Domésticas volta à comédia, mesmo que os risos venham às custas da inocência e limitação intelectual dos personagens, fator anunciado já nos créditos de abertura, lidos com muita inocência por uma doméstica que pode ter chegado à 6ª série do 1º grau.

Mercedes (Cybele Jácome), por exemplo, adora ler o horóscopo e se diz “peixiana” (risos). Uma outra parece citar Didi Mocó ao cometer “entrar pra dentro” (risos), enquanto uma outra pensa que tem alguma idéia de “ingrês” (mais risos) por ter trabalhado para canadenses. Essas interessantes criaturas de avental são ‘cutucadas’ nesse vidrinho, durante 90 minutos.

Não há vestígios de que isso aqui veio de uma peça teatral. O elenco está mesmo excelente, com atrizes oriundas do teatro fazendo transição tranqüila para o cinema (Cláudia Missura, Graziella Moretto, Renata Melo). Olival e Meireles se esforçam para que o verniz de ‘peça’ desapareça por completo e entrecortam depoimentos em preto e branco, estilo documentário, montam clipes com imagens de impacto que dialogam com a bagagem de classe média que existe em cada espectador. A fotografia de Lauro Escorel é limpa e nítida e traduz a habilidade dos diretores com o jeito publicitário de filmar, algo que já havia sido esclarecido no divertido curta-metragem da dupla Um Dia e Logo Depois o Outro e um outro da escola thriller-portifólio, E No Meio Passa Um Trem (ambos exibidos no Recife).

Olival e Meireles trabalham à frente da produtora 02, em São Paulo, uma das maiores do país. Ambos têm fome de cinema e praticam a linguagem todos os dias. Têm demonstrado interesse numa linguagem comunicativa e um produto recente dirigido por Meireles, Palace II (exibido na Globo), já demonstra amadurecimento rumo ao projeto Cidade de Deus.

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