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“A gente finge que elas não existem” Dario
Brito JORNAL DO COMMERCIO Domésticas foi ovacionado durante a projeção na mostra competitiva. Qual a impressão sobre essa recepção do público? FERNANDO MEIRELLES Achei que a recepção foi ótima. Me surpreendi com os aplausos durante algumas cenas do filme e não só no fim como geralmente fazem. Isso mostrou que o público estava interagindo. NANDO OLIVAL Vale completar que isso foi depois de um massacre de quatro horas de filmes. Sinceramente, achei que foi melhor do que eu pensava. Era para o público estar cansado. JC Vocês acham que o fato do filme ser exibido tão tarde prejudicou o desempenho dele com o público no Festival? FM Não, porque é assim que funciona o festival. Todos os filmes são vistos dessa maneira. A idéia é uma maratona mesmo todo ano, né? JC Domésticas é baseado na peça de Renata Melo. Como foi a elaboração do roteiro e o que vocês inseriram no texto original? FM A peça, na verdade, era um teatro-dança. Começou com um espetáculo de balé e foram sendo inserindo textos provenientes de entrevistas com mais de 200 empregadas domésticas. O fato é que havia muito material escrito, algo por volta de 800 páginas. Então ela (Renata) selecionou 1 hora e texto e escreveu as esquetes. Grande parte das falas foi fruto dessas entrevistas. NO Para fazer o roteiro, a gente pegou as entrevistas e começou a agrupar por temas. Viu que uma parte falava dos amores, outra de problemas com maridos, dificuldades para arrumar trabalho e etc. De repente, a gente viu que tinha cinco blocos de assuntos. Cada um virou uma personagem. Escolhemos as atrizes e escrevemos o roteiro (Nando Olival, Fernando Meirelles, Renata Melo e Cecília Homem de Melo). JC Por que apenas uma das personagens concentra uma carga mais dramática? FM Não concordo. Acho, por exemplo, a personagem da Olívia (Araújo, que vive a desastrada Quitéria) extremamente dramática. As pessoas riram, mas é muito triste. Imagine o que está passando pela cabeça dela: As pessoas não gostam de mim. Tudo o que eu faço sempre dá errado. E todas as personagens do filme são assim, cada uma a seu modo, com humor e leveza é claro. JC Como o filme deve ser encarado pelo público? FM Acho que é mais isto: jogar a luz num personagem que está presente na nossa cultura. Todo mundo tem ou teve alguma relação com esse personagem e a gente não ouve, não fala ou finge que eles não existem. São pessoas invisíveis. Queríamos tirar um pouco dessa invisibilidade. JC No filme parece que todo mundo está insatisfeito.. Não se pode ser feliz sendo doméstica? FM Se você pensar bem, no final, é o contrário. Para todas, a vida é isso aí e está tudo muito bem, porque uma acha a filha, a outra encontra o marido atencioso que sempre quis, a outra casa, a outra que não se torna modelo, também não reclama. Elas aceitam o destino. É um happy end. NO É como diz aquela frase: Todo mundo cai, mas cai de pé. JC Como você encara a personagem Quitéria? OA Quando eu peguei o texto para ler pela primeira vez, minha reação foi rir bastante, porque as situações em que ela se envolve são realmente engraçadas. Mas depois eu comecei a lembrar de fatos que eu conhecia, porque minha mãe foi doméstica. Então eu escutei várias histórias delas e de pessoas conhecidas da família que também foram domésticas. Aí eu comecei a ver que não era tão engraçado assim. Ontem estava assistindo e a cena em que ela chora copiosamente o povo caiu na gargalhada. Eu pensei: poxa, a coisa é séria, gente. Mas nao adianta, é sempre assim. JORNAL DO COMMERCIO Mas isso tira a essência da obra? FERNANDO MEIRELES De forma alguma. São só impressões sobre a reação do público onde o filme é exibido. Por exemplo, uma revista foi fazer uma matéria e levou quatro domésticas para assistirem o filme. Elas saíram chorando. JC Como foi a escolha da trilha sonora? NO Tinha que ser uma trilha popular. Se a gente fizesse algo mais atual, ficava num pagodão ou num funk do tigrão. São músicas com pouca pureza. Ficam falando de sacanagem o tempo inteiro e são muito ruins, sem poesia nenhuma. A gente teve que recuperar todas essas músicas bregas antigas que são muito boas. Elas meio que legendavam o filme. Tinham um pocuco da leveza do humor da obra. JC E quanto aos projetos pessoais? FM Vou começar a filmar em junho o Cidade de Deus, adaptação do romance do Paulo Lins. Estou preparando elenco no Rio de Janeiro desde agosto de 2000. A produtora O2 Filmes (da qual é diretor e que detém vários Leões de Ouro e Profissionais do Ano no ramo da publicidade) assim que acabar esse filme faz um outro chamado Viva Voz, que é uma comédia do Paulo Morelli. Esse ano resolvemos entrar de vez no ramo do cinema. Neste festival temos o Domésticas e os curtas Imminenti Luna e Palíndromo. NO Estou começando a roteirizar meu filme que vai se chamar Motel Love Story. É uma história de amor passada basicamente em motéis de São Paulo, com personagens que frequentam e seus atendentes, na qual um casal mal se encontra durante o filme porque quase sempre estão com seus amantes. OA Estou fazendo Os Lusíadas, em São Paulo, e depois não sei o que farei (risos). Brincadeira, vou participar do Cidade de Deus.
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