“A gente finge que elas não existem”

Dario Brito
Do Jornal do Commercio

As empregadas domésticas ganham um registro do seu universo com doses exageradas de humor, e um toque de sensibilidade, no filme Domésticas, dos diretores Fernando Meirelles e Nando Olival. O longa, apresentado às 23h30 da terça-feira, no Teatro Guararapes, fechou o primeiro dia da mostra competitiva do 5º Festival de Cinema do Recife. Em janeiro, a obra teve sua première mundial no 30º Festival de Cinema de Rotterdã, na Holanda, onde foi aplaudido. O feito foi repetido no Recife, e na manhã seguinte, os diretores e a atriz Olívia Araújo (que interpreta Quitéria) falaram ao JC sobre a recepção do público ao filme, a criação das personagens e de como a obra aborda a categoria.

JORNAL DO COMMERCIO – Domésticas foi ovacionado durante a projeção na mostra competitiva. Qual a impressão sobre essa recepção do público?

FERNANDO MEIRELLES – Achei que a recepção foi ótima. Me surpreendi com os aplausos durante algumas cenas do filme e não só no fim como geralmente fazem. Isso mostrou que o público estava interagindo.

NANDO OLIVAL – Vale completar que isso foi depois de um ‘massacre’ de quatro horas de filmes. Sinceramente, achei que foi melhor do que eu pensava. Era para o público estar cansado.

JC – Vocês acham que o fato do filme ser exibido tão tarde prejudicou o desempenho dele com o público no Festival?

FM – Não, porque é assim que funciona o festival. Todos os filmes são vistos dessa maneira. A idéia é uma maratona mesmo todo ano, né?

JC – Domésticas é baseado na peça de Renata Melo. Como foi a elaboração do roteiro e o que vocês inseriram no texto original?

FM – A peça, na verdade, era um ‘teatro-dança’. Começou com um espetáculo de balé e foram sendo inserindo textos provenientes de entrevistas com mais de 200 empregadas domésticas. O fato é que havia muito material escrito, algo por volta de 800 páginas. Então ela (Renata) selecionou 1 hora e texto e escreveu as esquetes. Grande parte das falas foi fruto dessas entrevistas.

NO – Para fazer o roteiro, a gente pegou as entrevistas e começou a agrupar por temas. Viu que uma parte falava dos amores, outra de problemas com maridos, dificuldades para arrumar trabalho e etc. De repente, a gente viu que tinha cinco blocos de assuntos. Cada um virou uma personagem. Escolhemos as atrizes e escrevemos o roteiro (Nando Olival, Fernando Meirelles, Renata Melo e Cecília Homem de Melo).

JC – Por que apenas uma das personagens concentra uma carga mais dramática?

FM – Não concordo. Acho, por exemplo, a personagem da Olívia (Araújo, que vive a desastrada Quitéria) extremamente dramática. As pessoas riram, mas é muito triste. Imagine o que está passando pela cabeça dela: “As pessoas não gostam de mim. Tudo o que eu faço sempre dá errado”. E todas as personagens do filme são assim, cada uma a seu modo, com humor e leveza é claro.

JC – Como o filme deve ser encarado pelo público?

FM – Acho que é mais isto: jogar a luz num personagem que está presente na nossa cultura. Todo mundo tem ou teve alguma relação com esse personagem e a gente não ouve, não fala ou finge que eles não existem. São pessoas invisíveis. Queríamos tirar um pouco dessa invisibilidade.

JC – No filme parece que todo mundo está insatisfeito.. Não se pode ser feliz sendo doméstica?

FM – Se você pensar bem, no final, é o contrário. Para todas, a vida é isso aí e está tudo muito bem, porque uma acha a filha, a outra encontra o marido atencioso que sempre quis, a outra casa, a outra que não se torna modelo, também não reclama. Elas aceitam o destino. É um ‘happy end’.

NO – É como diz aquela frase: “Todo mundo cai, mas cai de pé.

JC – Como você encara a personagem Quitéria?

OA – Quando eu peguei o texto para ler pela primeira vez, minha reação foi rir bastante, porque as situações em que ela se envolve são realmente engraçadas. Mas depois eu comecei a lembrar de fatos que eu conhecia, porque minha mãe foi doméstica. Então eu escutei várias histórias delas e de pessoas conhecidas da família que também foram domésticas. Aí eu comecei a ver que não era tão engraçado assim. Ontem estava assistindo e a cena em que ela chora copiosamente o povo caiu na gargalhada. Eu pensei: “poxa, a coisa é séria, gente. Mas nao adianta, é sempre assim”.

JORNAL DO COMMERCIO – Mas isso tira a essência da obra?

FERNANDO MEIRELES – De forma alguma. São só impressões sobre a reação do público onde o filme é exibido. Por exemplo, uma revista foi fazer uma matéria e levou quatro domésticas para assistirem o filme. Elas saíram chorando.

JC – Como foi a escolha da trilha sonora?

NO – Tinha que ser uma trilha popular. Se a gente fizesse algo mais atual, ficava num pagodão ou num funk do tigrão. São músicas com pouca pureza. Ficam falando de sacanagem o tempo inteiro e são muito ruins, sem poesia nenhuma. A gente teve que recuperar todas essas músicas bregas antigas que são muito boas. Elas meio que legendavam o filme. Tinham um pocuco da leveza do humor da obra.

JC – E quanto aos projetos pessoais?

FM – Vou começar a filmar em junho o Cidade de Deus, adaptação do romance do Paulo Lins. Estou preparando elenco no Rio de Janeiro desde agosto de 2000. A produtora O2 Filmes (da qual é diretor e que detém vários Leões de Ouro e Profissionais do Ano no ramo da publicidade) assim que acabar esse filme faz um outro chamado Viva Voz, que é uma comédia do Paulo Morelli. Esse ano resolvemos entrar de vez no ramo do cinema. Neste festival temos o Domésticas e os curtas Imminenti Luna e Palíndromo.

NO – Estou começando a roteirizar meu filme que vai se chamar Motel Love Story. É uma história de amor passada basicamente em motéis de São Paulo, com personagens que frequentam e seus atendentes, na qual um casal mal se encontra durante o filme porque quase sempre estão com seus amantes.

OA – Estou fazendo Os Lusíadas, em São Paulo, e depois não sei o que farei (risos). Brincadeira, vou participar do Cidade de Deus.