Nem Ana Paula Arósio salva Os cristais debaixo do trono

Renata do Amaral
Do JC OnLine


A noite da sexta-feira do V Festival Nacional de Cinema do Recife foi, como os outros dias, marcada pela irregularidade. Se algumas produções empolgaram o público que compareceu ao Teatro Guararapes, outras foram até motivo de vaias e risadas.

Após o intervalo, o curta Os idiotas mesmo comprovou a aceitação do diretor gaúcho Allan Sieber, conhecido por sua série de animação Deus é pai. Na trama, um grupo de jovens publicitários decide os rumos de uma campanha de cigarros e aproveita para ironizar, inconscientemente ou não, a própria sociedade de consumo. O bom humor do filme arrancou
gargalhadas e calorosos aplausos da platéia.

Não teve a mesma sorte o curta O cabeça de Copacabana, da cineasta carioca Rosane Svartman. Um bancário aposentado termina um dia na praia
enterrado sob a areia após uma brincadeira com seus filhos. O cidadão se aproveita do assédio da imprensa sobre o caso para reclamar sobre a situação do Brasil. O filme provocou apenas palmas esparsas.

Já o último curta da noite, Palíndromo, de Philippe Barcinski, foi um dos mais esperados e aplaudidos. O termo significa "de trás para frente" e é isso que se vê na película: toda a história é contada do começo para
o fim, inclusive com as falas das personagens correndo como um disco rotacionado ao contrário e traduzida por legendas.

Tamanha inovação fez tanto sucesso que boa parte do público resolveu que seria melhor fechar a noite com uma chave de ouro garantida e partir para a noitada de sexta-feira, quem sabe para a festa Cinema Ainda é
Perversão
, dentro do clima do festival. Boa parte do teatro se esvaziou.

No breve intervalo para a apresentação de Os cristais debaixo do trono, de Del Rangel, os diretores e atores foram ao palco discorrer brevemente sobre o filme. A noite era mesmo de Ana Paula Arósio, que causou uma silenciosa, mas sincera comoção na platéia. Em um belo vestido longo dourado, a atriz agradeceu ao público pela oportunidade de divulgar seu primeiro filme.

O longa-metragem, no entanto, foi uma verdadeira prova de paciência dos espectadores. O filme conta a história de um escritor cinqüentão que se apaixona por uma jovem pintora. A filha dele, porém, se opõe à relação, sentindo ciúmes tanto do pai quanto do marido, também enfeitiçado pela artista plástica.

Desde os primeiros minutos, o filme já causou risadas e comentários maldosos da platéia, que já adivinhava pelas cenas iniciais o óbvio desfecho da trama. A trilha sonora só piorava a situação e, em pouco tempo, parte do público já deixava o cinema. Quem ficou acabou
respondendo ao final da película com vaias e se perguntando se, afinal, a maratona havia valido a pena.