Aprendendo a ser mulher

Meio rude, não tinha cabelo grande nem batom. Mas seria a primeira
entre as transex daquele corredor a fazer a cirurgia

Eram nove mulheres sem útero e ovários, sem clitóris e vagina, aguardando o atendimento médico no setor de ginecologia do Hospital das Clínicas (HC). No meio de calças jeans justinhas, cintos com tachas, vestidos floridos e sandálias altas, uma se destacava. Não era Cris, Valentina, nem Camila. Tampouco Eduarda, Graziele ou Juliana. Nem Tamires ou Dominic. Quem não usava cinto enfeitado, vestido de flor e cabelão era aquela mais do canto. Parecia homem. Mas se chamava Joicy.

Entre ela e as outras, enormes diferenças. Cris: aos 13 anos entendeu que era menina e desde então passou a só usar saia e vestido. "Calça, só para fazer ginástica." Valentina: mora na Muribeca, Região Metropolitana, e sempre foi "a moça da casa": cuidou dos irmãos para ajudar a mãe. Camila: ensina há quatro anos, é formada em geografia e faz pós-graduação em gestão ambiental. Ensina na área rural de Palmares. Eduarda: dá aula de balé, usa franja, calça skinny e tênis All Star. Tem um namorado que anda com ela de mãos dadas. Graziele: é casada e tenta, ao lado do marido, adotar uma criança. Está brigando com a Justiça de Itaquitinga, onde vive. Juliana: também é casada e ajuda o marido vendendo doces. "A cirurgia não é um sonho. É uma necessidade". Tamires, cabelos louro-hardcore e o bumbum avantajado, viaja vendendo roupas femininas. Dominic, as unhas cheias de flores, tem um filho de 16 anos e é dona de um salão de beleza em Olinda. Seu maior medo é morrer com o corpo com que veio ao mundo. "Porque quem vai ser enterrada não vai ser eu de verdade."

E aí chegamos a Joicy. Não usa maquiagem. Não gosta de usar vestido. Não tem cabelo comprido. Na verdade, está ficando meio careca, coisa de quem vai fazer 51 anos de idade. Sua aparência sugere que ela ainda está engatinhando para mostrar socialmente a mulher que é – e, principalmente, para deixar para trás o agricultor que sempre foi. O fato de não possuir as mesmas características femininas e hiperbólicas das suas colegas de fila a destaca imensamente naquele grupo. Usa apenas bermuda, camiseta e sapatilhas pretas. Senta-se com as pernas abertas. É musculosa e às vezes um tanto rude. Carrega as maneiras de quem passou boa parte da vida dentro da roça, no meio do mato, plantando mandioca e cuidando de cabra, galinha, boi.

Suas únicas aproximações com as outras – e aquilo o que entendemos como feminino - são as unhas pintadas de vermelho, os peitos que já se destacam sob a camiseta e a profissão de cabeleireira. Sem os marcadores que a fariam, externamente, ser "mulher", Joicy termina sofrendo um preconceito duplo, que vem tanto daqueles que não experimentam a sua condição quanto dos próprios transexuais. Estas olhavam com certa incredulidade para aquela mulher. Era como se, naquele banco, um intruso estivesse sentado entre elas. Como se fosse uma piada de mau gosto feita por alguém que estava ali para lembrar a aparência que elas tinham antes dos longos cabelos e das calças justas.

Mas, se a imagem estereotipada da mulher ideal não se aplicava ao transexual, ela era, em meio aos outros oito transexuais repletos de curvas e batom, a única a ter o diagnóstico de distúrbio de identidade (assinado pelo psiquiatra Roberto Faustino), assim como os dois anos de terapia (com a psicóloga Inalda Lafayette). Portanto, legalmente, seria a primeira entre aquelas fêmeas hiperbólicas a fazer a cirurgia. A primeira, entre Dominics e Grazieles, a se livrar do pênis que lhe causa constrangimento. A primeira a ir ao bloco cirúrgico para sair de lá com uma vagina. Bastava a certeza disso, e não os brincos longos e o chinelo com flor, para que Joicy se sentisse bem consigo mesma. "Eu não tenho que usar saia e maquiagem para ser mulher. E eu não sou menos mulher por causa disso."