Ser pedestre no Recife é difícil. É tarefa árdua. Significa vencer obstáculos a cada passo. É não ter direito algum. É andar nas ruas porque não há calçadas. Quando elas existem, são quebradas, irregulares e obstruídas. É comum estarem tomadas por ambulantes e, cada dia mais, por automóveis. Atualmente, é comum vê-las transformadas em estacionamentos. Onde as pessoas deveriam caminhar, agora são os carros que ficam estacionados.
Em alguns lugares, as calçadas deixaram de ser um espaço dos pedestres para virar pátio de automóveis.

Com o crescimento da frota do Estado - que emplaca, em média, mil carros diariamente - cada dia mais os espaços estão ficando insuficientes para acomodar tantos veículos. Essa equação tem invertido valores e se refletido nas calçadas. "Aqui, só anda a pé quem é pobre. Essa é a concepção da sociedade. O automóvel não é transporte, virou status. A manutenção e prioridade dada às calçadas, seja pelo poder público ou pela sociedade, é consequência dessa cultura. Se o prefeito e os deputados andassem a pé pela cidade tudo seria diferente", critica a arquiteta e professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco Lúcia Leitão.

Pelo Sistema Nacional de Trânsito (SNT), que rege as regras de circulação no Brasil, o pedestre tem prioridade no trânsito. Pelo menos deveria. Ele vem em primeiro lugar. Depois são as bicicletas, motos, automóveis, ônibus e caminhões. Mas no dia a dia percebe-se que essa hierarquia funciona de forma invertida. O desrespeito está por toda parte. Numa rápida circulada pelas ruas é possível flagrá-lo aos montes. Não importa se na periferia ou nos bairros mais nobres.
Nem mesmo aqueles que deveriam dar o exemplo, o fazem. Na vice-governadoria do Estado, em Santo Amaro, área central do Recife, a calçada virou estacionamento legalizado. São dez vagas sobre o que deveria ser apenas uma calçada. Depois de estacionados, os carros não impedem a passagem dos pedestres, mas o constante tráfego tem destruído as pedras que compõem o calçamento. Há momentos em que pedestres e automóveis entram em conflito.

No Pina, Zona Sul do Recife, a cena se repete diante da sede da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit), duas instituições que, coincidentemente, fiscalizam e coordenam serviços relacionados ao trânsito. O desrespeito ao pedestre é mais gritante na PRF porque o que deveria ser o passeio foi transformado em vagas para automóveis. O fato de o meio-fio da via não ser rebaixado não representou um obstáculo. Uma pequena rampa de cimento foi improvisada para facilitar o acesso dos carros. A transformação escancarada da calçada em estacionamento aconteceu depois que o pátio da PRF ficou pequeno para a quantidade de carros que a instituição recebe. Como o número de vagas não era suficiente, resolveram ocupar a calçada.

Mais na frente, no entorno da sede do Dnit, os automóveis ficam estacionados tão à vontade, sem lembrar que ali é - ou pelo menos deveria ser - uma calçada, que chegam a atrapalhar a passagem dos pedestres. No Centro, os obstáculos são o comércio ambulante - que transforma as calçadas numa extensão de seus negócios -, as construções irregulares e os desníveis dos passeios. Na Rua da Saudade, bairro da Boa Vista, por exemplo, é impossível caminhar por mais de 50 metros na calçada. A cada instante surge um buraco ou um objeto deixado por algum comerciante.

Os obstáculos chegam a ferir. A professora de educação física Gabriela Lima, 22 anos, ficou cinco dias afastada do trabalho depois que torceu o pé ao pisar num buraco na calçada da Rua 7 de Setembro, no Centro da capital e uma das áreas que mais recebe pedestres e, por isso, deveria ter um passeio largo e conservado. "Havia uma tampa de cimento, mas os blocos ao redor estavam soltos. Eu me distraí e pisei em falso. As calçadas são realmente muito irregulares na cidade. A Avenida Conde da Boa Vista é o único bom exemplo atualmente, mas porque foi recuperada há pouco tempo", critica.

A legislação do Recife transfere para o cidadão a responsabilidade de construir e manter as calçadas e, por isso, termina por engessar o processo de manutenção. Muitas pessoas discordam dessa transferência. "Não acho certo que o cidadão tenha que arcar com essa despesa, especialmente quando a calçada não existe e precisa ser construída. Pagamos um valor alto de impostos exatamente para que a prefeitura cuide da cidade", reclama o comerciante Cláudio Alencar, proprietário de um bar na Rua da Saudade.

Milton Botler, presidente do Instituto da Cidade Pelópidas Silveira, garante que com os PACs da Copa e da Mobilidade, que incluem recursos federais, estaduais e municipais, serão feitos e recuperados 1.036 quilômetros de calçadas. "Elas virão com os corredores de ônibus que serão implantados. No Recife, representarão 6% de todo o sistema viário atual e um investimento estimado em R$ 200 milhões", afirma.

Se caminhar pelas calçadas da cidade já é vencer obstáculos para quem pode andar, imagine o desafio que representa para quem tem dificuldades de locomoção? É vencer uma batalha a cada dia. O cadeirante José Carlos dos Santos, 41 anos, vítima da paralisia infantil, sabe bem o que é isso. Todos os dia sofre. Todos os dias depende da boa vontade dos outros, sejam pedestres ou motoristas. Tem que pedir ajuda até para subir um meio-fio. A raiz de uma árvore não é apenas a raiz de uma árvore. É um bloqueio. A solução é se expor na rua, correr riscos. Calçadas? Para José Carlos elas inexistem. "Às vezes, a vontade é desistir. Ficar em casa."