O transporte público é o grande refém da mobilidade urbana. Embora nunca tenha sido tão popular evidenciar sua importância, que qualificá-lo é a principal estratégia para tirar a classe média do carro e desafogar o trânsito, o sistema não evolui. Não cresce, não se faz presente nas cidades. Continua sem vez nas ruas, nos trilhos. Continua brigando por espaço com os automóveis, apesar de transportar mais de 90% da população brasileira e ocupar menos de 30% do sistema viário. Existe apenas nas promessas do poder público, nos projetos. Como as cidades estão parando por causa das vias saturadas de automóveis, prometer transporte de qualidade agora dá voto. Mas nada muda. A indiferença vale tanto para o ônibus como para o metrô.

Em 2008, o JC fez uma reportagem revelando que o transporte público tinha algum tipo de preferência em menos de 7% das vias da Região Metropolitana do Recife. Apenas. Hoje, três anos depois, não houve nenhum avanço. A situação é a mesma. Dos 560 quilômetros de vias por onde os ônibus passam, em apenas 35 quilômetros eles têm um espaço exclusivo, sem interferência do automóvel. Fora da capital a preferência se resume ao corredor da PE-15, com nove quilômetros de extensão. Nada mais. De lá para cá, nenhum corredor para o transporte público foi implantado. Nem ao menos uma faixa preferencial foi pintada. Só promessas foram feitas.

Quando o foco se transfere para o metrô a falta de investimentos é ainda maior. O Grande Recife possui apenas duas linhas metroviárias, que foram adaptadas em antigas linhas ferroviárias e totalizam apenas 40 quilômetros de extensão. Embora o número de passageiros só cresça - são 225 mil usuários por dia - não há qualquer perspectiva de construção de novos ramais. A impressão é de que a implantação de novas linhas de metrô é algo completamente descartado em Pernambuco. Não se fala sequer na possibilidade.

Enquanto o transporte de massa definha, os investimentos que ainda acontecem no Grande Recife são todos voltados para o automóvel. “O discurso mudou e nunca se falou tanta de prioridade ao transporte coletivo. Temos bons projetos previstos para a Copa do Mundo, mas até agora, na prática, o valor investido é muito maior para o carro. O governo, por exemplo, vai implantar dois corredores de ônibus de 45 quilômetros por R$ 300 milhões e construir dez terminais integrados com R$ 44 milhões. Esse último valor é o mesmo gasto no alargamento do Viaduto Capitão Temudo, voltado para o automóvel. Veja a desproporção de investimentos. A Via Mangue (corredor para carros na Zona Sul) vai custar dez vezes mais. Isso precisa mudar”, critica o consultor de transportes Germano Travassos.

Embora algumas linhas de ônibus passem pelo Viaduto Capitão Temudo, sendo beneficiadas pelo alargamento, o projeto foi tão planejado para o automóvel que esqueceram de um corredor, das calçadas e de ciclovias.



A falta de prioridade no sistema viário interfere diretamente na qualidade do transporte público. E, sem qualidade, as pessoas não vão trocar o automóvel pelo ônibus. Os números revelam que a implantação de corredores ou ao menos faixas exclusivas é mais do que urgente. Somente entre janeiro e setembro de 2010 o trânsito impediu a realização de 83 mil viagens de ônibus. Este ano, as perdas chegaram a 160 mil viagens, ou seja, mais do que o dobro.

“Sem prioridade no trânsito o serviço não cumpre o horário e perde a confiabilidade do usuário. Intervalos de 15 minutos passam para 30 ou 40 minutos”, pondera a diretora de operações do Grande Recife Consórcio de Transportes, Taciana Ferreira. As vantagens quando o ônibus tem prioridade são muitas. Linhas que operam nos corredores exclusivos da PE-15 e da Caxangá conseguem cumprir e até ultrapassar a velocidade comercial programada, chegando a 28 km/h e 17 km/h, respectivamente. Já em vias sem prioridade, como as Avenidas Mascarenhas de Morais (Imbiribeira) e Domingos Ferreira (Boa Viagem), os coletivos desenvolvem velocidades de até 7 km/h abaixo da programada.

Mas o governo do Estado promete mudanças. E grandes. Vai implantar até 2013 dois corredores de transporte no Grande Recife - Leste-Oeste e Norte-Sul -, totalizando 45 quilômetros de exclusividade para os ônibus. Representará um investimento de R$ 300 milhões.

Radiografia revela a pouca prioridade que o ônibus tem no sistema viário do Grande Recife

1. CORREDOR LESTE-OESTE

Uma das maiores promessas do Estado e da Prefeitura do Recife para a mobilidade na Copa do Mundo, na verdade já existe em quase toda sua extensão - 12,3 km. É ruim e tem vários problemas, mas está implantado entre o Centro do Recife e o fim da Avenida Caxangá. O novo projeto custará R$ 145 milhões, e levará o corredor até a Cidade da Copa, em São Lourenço, passando por Camaragibe

2. CORREDOR NORTE-SUL

O eixo que será implantado pelo Estado, entre Igarassu e o Centro do Recife, tem mais da metade dos 33,2 km prontos e passa pelos 9 km da PE-15, o melhor corredor da Região Metropolitana. A situação é a mesma do Leste-Oeste: precisa ser requalificado e padronizado, pois já conta com faixas exclusivas entre Igarassu e o Complexo de Salgadinho, em Olinda. Custará R$ 151 milhões

Corredor da Avenida Sul (São José)

Não chega a dois quilômetros de extensão e está completamente deteriorado

Faixa exclusiva da Cruz Cabugá (Santo Amaro)

Tem menos de um quilômetro e é invadida por automóveis diariamente

Faixa exclusiva da Avenida Herculano Bandeira (Pina)

Mesmo tendo menos de 500 metros, oferecia ganho de velocidade aos ônibus. Mas foi desativada em 2008 para facilitar a circulação dos carros

Avenida Conde da Boa Vista

Faz parte do projeto original do Corredor Leste-Oeste. Tem cerca de dois quilômetros entre a Avenida Guararapes, em Santo Antônio, e a Rua Dom Bosco, na Boa Vista