Waldemar Lemos

A volta por cima

Em bom carioquês, terra do técnico do Náutico, ele poderia receber a alcunha de cascudo - ou caixcudo (sic) para manter o sotaque. Ela significa que alguém é duro na queda. E só com uma carapaça espessa para aguentar bordoada de tudo quanto é lado: do torcedor das sociais ao presidente do Conselho Deliberativo; das rodas de boteco aos debates de rádio. Mas ele soube dar a volta por cima. A cada tapa uma resposta dentro de campo, que no final das contas é onde tudo se resolve. Ganhou o grupo, jamais perdeu o comando e entrou definitivamente para a história do Clube Náutico Capibaribe.

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Wladmir Paulino

Em bom carioquês, terra do técnico do Náutico, ele poderia receber a alcunha de cascudo - ou caixcudo (sic) para manter o sotaque. Ela significa que alguém é duro na queda. E só com uma carapaça espessa para aguentar bordoada de tudo quanto é lado: do torcedor das sociais ao presidente do Conselho Deliberativo; das rodas de boteco aos debates de rádio. Mas ele soube dar a volta por cima. A cada tapa uma resposta dentro de campo, que no final das contas é onde tudo se resolve. Ganhou o grupo, jamais perdeu o comando e entrou definitivamente para a história do Clube Náutico Capibaribe.

A campanha "Fora Waldemar" começou antes mesmo de o treinador pisar em solo recifense. Explica-se. No início do Brasileirão de 2009, o técnico estava à frente do timbu e chegou a ser vice-líder da competição. Recebeu uma proposta melhor do Atlético Paranaense e aceitou. Pronto. Por ter aceito uma condição melhor de trabalho - coisa que qualquer pessoa razoavelmente normal faria - o treinador virou inimigo do clube.

O primeiro a se manifestar contra foi o presidente do Conselho, André Campos. Em sua conta no Twitter, ele postou o seguinte: "Waldemar Lemos é um treinador fraco, mercenário e que nunca ganhou nada". Trabalhar com um pré-conceito é difícil para qualquer um, imagine estreando com uma goleada nas costas.


A goleada para a Portuguesa por 4x0 foi a senha para os detratores pedirem a cabeça do técnico numa bandeja de prata. O presidente Berillo Júnior enfrentou os críticos, inclusive dentro de sua própria diretoria, e manteve o comandante. Aos poucos o Náutico foi tomando equilíbrio e na virada do returno, mostrou que corria a passos largos para o acesso.

Apesar do tom monocórdio quase hipnótico das entrevistas, normalmente recheadas de respostas evasivas, o tom em campo era outra. Os treinos, duros, exaustivos, sempre buscando a perfeição, tanto física quanto técnica e tática. Dos arroubos irados de Roberto Fernandes, o elenco viu no estilo suave, porém assertivo do novo comandante o líder ideal. Cada orientação tinha o pelo de lei.

E o técnico soube retribuir. Fechou com o elenco e não admitiu contratações quando a equipe já embalara. Chegou a ensaiar-se uma queda de braço com a diretoria, que temia ver o time desgastar-se na reta final e perder a iminente vaga na elite do futebol nacional. Ainda empurrou o atacante Rafael Xavier goela abaixo. Mas o jogador nem chegou perto de ser utilizado. Sacrifício virou palavra de ordem. Kieze e Eduardo Ramos jogaram no sacrifício diversas vezes.

CAMINHADA - Mesmo depois de conseguir seu lugar cativo no G4, o Náutico e seu técnico não escaparam da irracionalidade que, vez por outra, baixa na massa. Até o mês passado a relação ainda era tensa. No dia 8, o time alvirrubro chegou a abrir 2x0 sobre o Icasa mas permitiu o empate. Ao colocar o atacante Alexandro a torcida não perdoou e entoou um coro de "Burro".

O sempre calmo Waldemar perdeu a paciência por alguns instantes: "Burro? Eu tenho duas universidades, sou formado. Quando quis trabalhar como treinador fiz curso também. Não sou burro não". Em seguida, reclamou dos torcedores e protegeu seus atletas. "A torcida não consegue dar a ajuda necessária ao time. Esse time não tem ladrões, não tem safado. Não admito isso. Os jogadores não estão satisfeitos com essa situação e se forem fazer alguma coisa, façam comigo. Se eu sair aí na rua, me matem se for preciso, mas não faça com o jogador não".

Aliás, defender os comandados, preceito básico para qualquer comandante - seja um general numa guerra ou um técnico numa competição -, foi uma das marcas de Lemos. Defendeu Kieza, Eduardo Ramos e o mais recente foi o atacante Rogério. Em troca ganhou uma fidelidade quase canina. As orientações do técnico são seguidas à risca.

A relação com as gerais, arquibancadas e principalmente sociais só foi cem por cento pacificada às vésperas do Clássico dos Clássicos. Nos treinos o nome do técnico era entoado por grupos de torcedores. Antes do jogo começar, no dia 29 de outubro, gritado em coro por quase todo estádio. Quando o jogo acabou, com a vitória incontestável do Náutico por 2x0, ficou impossível até para os mais céticos.

CURRÍCULO - Waldemar Lemos de Oliveira tem 57 anos e é técnico de futebol desde 1986, quando iniciou carreira no Mesquita, do Rio de Janeiro. Também comandou as seleções sub-17 e sub-20. Orbitou pelo futebol carioca, onde treinou o Flamengo duas vezes, o time B do Fluminense, Cabofriense, Resende, Goytacaz e Duque de Caxias. Fora do Brasil trabalhou na Jamaica (Harbour View) e Coreia do Sul (Pohang Steelers). Também comandou Paulista-SP, Joinville e Atlético-PR. É irmão do também treinador Oswaldo de Oliveira.

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