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Jovens querem manter tradição

Ele, definitivamente, já deu provas de sua versatilidade para atravessar a História. Assistiu à ascensão e à queda do Comunismo. Sobreviveu aos hippies, ao feminismo e à Revolução Sexual. O casamento, instituição falida para os eternos dissidentes das tradições familiares vai, bem ou mal, continuar pelos séculos. Os filhos da geração que viu nascer a pílula anticoncepcional estão descobrindo o prazer do véu, da grinalda e do buquê. Alheios aos mais práticos, que juntam escovas de dente sem a menor cerimônia, jovens recifenses voltam a acreditar que o rito tradicional é o melhor passaporte para uma vida a dois. “Antes, o casamento era o meio obrigatório, único, de legitimar uma união. Hoje não é mais. E é por isso que a simbologia do casamento é muito maior no presente”, diz o antropólogo Perry Scott, coordenador do Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade da Universidade Federal de Pernambuco.

O que se nota é que os conflitos de geração podem até mesmo se inverter. “Meu pai sempre foi a favor da minha união com meu noivo. Mas achava o casamento um desperdício, um gasto desnecessário de dinheiro. Nos aconselhou a não fazer”, conta a estudante de medicina Luciana Reis, 26 anos, cujo sobrenome foi adquirido, ano passado, do administrador de empresas Thiago, 27. “Não teve problema, organizamos e financiamos, nós próprios, a festa”, diz a jovem esposa. Para poder ritualizar seu amor diante de 300 convidados, o casal gastou cerca de R$ 20 mil. “Não vejo problema em apenas ‘se juntar’. Mas achávamos que faltava um marco. Sem um casamento, ía ficar alguma coisa incompleta”, diz Thiago, numa demonstração do romantismo contemporâneo.

Outro marido recente, o advogado Eduardo Guerra de Castro, 26, acredita até que a cerimônia fortifica a durabilidade da relação. “Se ‘juntar’ apenas facilita que os casamentos se desestruturem”, diz o marido e confesso apaixonado da bacharel em Direito Tatiana, 23. “O casamento é um compromisso perante Deus, uma forma de dividir com os amigos a alegria. Por isso, fiz questão de um casamento formal. A família merece todas as formalidades agradáveis e, como seres sociais que somos, devemos, nesse aspecto, uma ‘satisfação’ à sociedade”, discorre.

Não se sabe com precisão quando o fenômeno começou, mas a tradição está dando mostras de reafirmar sua força numa época em que a própria legislação dispensa formalidades. Em vigor desde 1996, a Lei do Concubinato assegura os direitos básicos da vida em comum, como divisão legal de bens e pagamento de pensão de alimentos, aos casais que tenham uma união estável. Mesmo sem assinatura de documentos num cartório. “Está realmente havendo uma volta a querer realizar a cerimônia”, aponta o antropólogo Scott.

Celebrando casamentos há mais de 40 anos, o padre Edvaldo José Gomes percebe a renovação do romantismo moderno, mas verifica que boa parte dos casamentos atuais não passam de farsas públicas. “Certos casamentos são verdadeiros teatros, porque não têm amor. Às vezes, falta coragem para acabar um namoro desgastado. Outras vezes, falta coragem para enfrentar a pressão da família”, diz o padre.

Algumas celebrações matrimoniais continuam a ter função semelhante a dos casamentos realizados entre nobres renascentistas: são eficientes alavancas de status. “Algumas pessoas querem mostrar que têm muito dinheiro e dão grandes festas”, observa o padre Edvaldo. “Tem quem se preocupe mais com a decoração do que com a religiosidade da cerimônia”, continua. A voz da ciência faz coro com a da religião: “O casamento reforça publicamente a união de dois grupos familiares com a melhora de reputação social para eles”, diz o professor Scott.

DE NOIVA A NOTÍVAGA –Exceção convicta aos fatores que demonstram o casamento como escala para propósitos menos nobres que o amor, a jornalista Caroline Moraes, 23, acredita que recebeu a comunhão de Deus diante do altar. “O casamento é uma forma de celebrar nosso amor diante da família, da comunidade, e da minha religião”, diz ela que, ontem, trocou as alianças com farmacêutico Durval Júnior, 24. Tradição, contudo, tem limite. “Vou transformar depois o meu vestido numa saia e num topzinho para usar à noite”, planeja. (B.A)


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