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Sua majestade, o bolo

O casamento é a cerimônia dos ícones. Tem o vestido com véu e grinalda, as daminhas, o buquê, e, claro, o bolo da noiva. Sua importância é tanta que a recepção funciona a sua mercê: as fotos, a ordem de serviço dos salgados e docinhos e até mesmo a presença de convidados. A máxima ‘só vou embora depois de comer o bolo’ é proferida incontáveis vezes nas festas ‘onde os noivos recebem os cumprimentos’.

Toda a atenção ao ‘mestre-de-cerimônias’ açucarado não é à toa. A começar pelo seu preparo, o bolo de casamento está atrelado a um verdadeiro ritual. “Levo de três a quatro dias para bater, assar, esperar esfriar e confeitar”, afirma Doris Rossiter, no mercado há 40 anos, que chega a gastar de seis a oito horas esperando o bolo sair do forno. Se a iguaria leva muito tempo para ficar pronta, mais tempo ainda se gasta para ser consumida.

Por tradição, os ingleses congelam algumas fatias para serem comidas nas bodas de prata, ou seja, no aniversário de 25 anos do casório. Dando os devidos descontos, as boleiras locais confirmam o rito. “Com o tempo, o sabor muda e fica mais apurado, acentua-se o gosto do vinho. Se congelado, o bolo dura muito tempo, mas eu recomendo guardar no máximo por um ano. Mais do que isso, não me responsabilizo”, brinca Socorro Cruz.

“O bolo demora muito a estragar porque leva vinho em vez de leite”, explica Jane Asfora, filha da tradicional boleira Dona Leonie, falecida há oito anos. A tradição reina absoluta nas famílias de boleiras. É o caso não só de Jane e de sua irmã Eliane, mas também de Socorro, filha de Edizete Cruz, bastante conhecida em Caruaru, e de Doris, que herdou a receita da mãe, Creuza de Brito Rossiter, e fez questão de ensiná-las a suas três filhas, que hoje trabalham com ela. “A cada geração, aumenta a qualidade. Minhas filhas são melhores que eu e minha mãe dizia o mesmo de mim”, conta Doris.

Por qualidade, entenda-se não só o visual do bolo, mas também seu sabor. Afinal, apesar de fazer parte da decoração da festa, a sobremesa nupcial não pode servir apenas de enfeite – mais do que bonito, um bolo de casamento tem que ser gostoso. Para isso, cada doceira tem algumas cartas especiais escondidas na manga. “O segredo é a maneira de bater e a qualidade do material”, revela Jane. “É preciso ter muito cuidado no ato de bater e também ao assar. Se demorar no fogo, o bolo pode perder a gordura e ficar seco. O bolo também não pode ser virado quente, para não deformar, e o material precisa ser de primeira”, reitera Doris.

HISTÓRIA – Engana-se quem pensa que bolo de noiva é sinônimo direto e exclusivo de massa escura, vinho, ameixas e frutas cristalizadas. “Nos casamentos fora de Pernambuco, come-se bolo branco, tipo torta recheada”, diz Socorro. “O bolo escuro é uma tradição nossa, herdada dos ingleses”, complementa Doris. De acordo com ela, o nosso bolo de noiva é característico dos festejos natalinos da Inglaterra. “Os ingleses trouxeram a versão deles e nós a adaptamos. Substituímos as cerejas por ameixas, que são bem mais fáceis de achar aqui. Também trocamos o conhaque pelo vinho moscatel. Quando estive na Inglaterra e na Irlanda, tive a impressão de estar comendo um bolo feito por mim”, finaliza Doris. (L.B.)

Serviço:
Doris Rossiter – Tel.: 3325.3116
Jane Asfora (Dona Leonie) - Tel.: 3221.4363
Socorro Cruz - Tel.: 3241.8260
Suely Vieira – Tel.: 3341.0336
Vilma Luna - Tel.: 3361.1158



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