O Paraiso as Avessas
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Foto: Ricardo B. Labastier/JC

DESCASO NA SAÚDELorrayna e a filha de sete meses, que foi diagnosticada com infecção urinária. A doença da criança era otite. Erros nos diagnósticos dos médicos fazem parte da rotina

Bloco
cirúrgico do hospital está abandonado. Não e possível fazer partos nem outras cirurgias.
Em Noronha, adoecer e sinônimo de pegar um avião para procurar ajuda no Recife

Não nascem bebês em Fernando de Noronha. Não há partos, não há cirurgias de coração, operações de vesícula, transfusão de sangue, serviços de curetagem ou fisioterapia. O bloco cirúrgico do Hospital São Lucas é um amontoado de cadeiras encostadas, macas sem uso, equipamentos enferrujados. A reportagem entrou na área restrita aos funcionários e é difícil acreditar que ali seja um hospital. Mais parece um lugar abandonado. A lâmpada queimada está pendurada por um fio sem proteção, o teto caiu faz vários anos, rachaduras chegam até o alto das paredes.Umbloco cirúrgico que não serve para nada. A não ser de depósito. Quando se quer realizar uma cirurgia simples de retirada de sinal, uma das raras que ainda são feitas ali, improvisa-se uma sala da enfermaria. E, quando se precisa de um atendimento médico de verdade, pega-se o caminho do aeroporto. Em Fernando de Noronha, adoecer é sinônimo de viajar.

Não é uma questão de escolha. Mas de ausência. Não há o básico. Falta dipirona injetável para acudir um paciente com fortes dores ou febre alta. O raio-X mais quebra do que tira chapa. Materiais da sala de esterilização que deveriam ser descartáveis passam meses sendo usados e reutilizados. Quem quebra a perna ou o braço tem que ir consertá-los no continente. Não há médicos. No máximo, um por plantão. Cardiologista, dermatologista, psiquiatra, urologista, qualquer que seja a especialidade, são raridades. Só de vez em quando, em alguns meses do ano e em pouquíssimos dias da semana. É correr para conseguir a ficha. Mas nem a ficha, quando se consegue, é garantia de muita coisa. Em Noronha, casos de pacientes com diagnósticos errados já nem assustam mais. De tão rotineiras, as histórias são contadas como se fossem normais. O inacreditável vira conversa do dia a dia.

Mas não há como não se impressionar. No início deste ano, Lorrayna Tomaz da Silva, uma jovem de 21 anos, levou seu bebê de 7 meses ao Hospital São Lucas. A menina estava com febre alta. Tomou medicação e voltou para casa. Um mês depois, a febre retornou ainda mais forte e o diagnóstico do médico, com base em exames de laboratório, foi taxativo: infecção urinária. O bebê tomou antibióticos e nada de a febre passar. Com o corpo da filha todo intoxicado e sem a febre ceder, Lorrayna não quis mais saber de atendimento no hospital. Foi direto para a assistência social pedir uma autorização para viajar e ser atendida por um médico do continente. No Recife, procurou a pediatra que acompanhava a filha e logo no início da consulta ouviu da doutora a seguinte avaliação:

– Pela experiência que eu tenho, só de ver a sua filha, ela não apresenta nenhum quadro de infecção urinária.

Mesmo assim os exames foram solicitados. Os resultados deram negativo. Como a febre só aumentava, amédica examinou a
menina e foi direta no diagnóstico: o bebê estava com otite. O que a criança tinha era uma infecção no ouvido e não no aparelho urinário. “A primeira dose de remédio que dei, a menina ficou boa”, conta a mãe. Lorrayna diz que em nenhum momento confiou no médico
que a atendeu no hospital de Fernando de Noronha. Mas não tinha alternativa. Tinha que fazer o que ele determinou. Agora ela já
está calejada. “A pediatra da minha filha disse que eu não desse mais nenhum tipo de medicamento ao bebê sem antes falar
com ela. É uma vergonha isso. Temos um hospital que não serve para nada E os médicos ainda colocam a vida de nossos filhos em risco”, revolta-se.

A representante comercial Aparecida Conceição de Oliveira, 40 anos, também escapou por pouco. Há três anos, chegou ao hospital com febre, vomitando e fortes dores no estômago. O médico olhou, examinou e disse que era dengue. Mandou a paciente de volta para casa. Cinco dias depois que a febre e as dores não passavam, ela viajou às pressas para o Recife. Fez um raio-X e descobriu que estava com pedras na vesícula. Teve que fazer uma cirurgia de urgência. “Fui imediatamente operada. Voltei para Noronha com um frasquinho cheio de pedras. Meu marido ficou indignado e procurou o médico para cobrar explicações. Mas ele já tinha voltado para o continente”, recorda-se.

Como nenhuma providência é tomada, fica o dito pelo não dito. A rotatividade dos médicos em Fernando de Noronha é altíssima. Não existe um acompanhamento ou um atendimento personalizado. Não existe sequer, como muitos moradores relataram, qualquer tipo de responsabilização por diagnósticos errados. Pelo contrário. Na semana em que a reportagem estava na ilha, o posto do Programa de Saúde da Família (PSF) estava novamente sem nenhum médico. E sem nenhuma perspectiva de mudança. “A gente não tem a menor ideia de quando eles vão chegar. Aqui é muito raro médico no PSF. Se tiver, é no hospital”, disse a atendente do posto, com a naturalidade de quem dá aquela notícia várias vezes no dia. E mandou a repórter ler o papel ofício que estava pregado na parede.

Em letras maiúsculas: SESSÃO DE LEITURA DE EXAMES. E em minúsculas: Horário: das 14h às 16h. Terça-feira. Hospital São Lucas. A reportagem quis entender o que aquilo significava. E a moça explicou:

– Isso é para quem tem exame passado por um médico do PSF. Como não há previsão de aparecer um por aqui, eles fazem uma sessão para o médico do hospital ler o exames dos pacientes do posto de uma vez só.

É assim que funciona a saúde em Fernando de Noronha.

MÉDICO RECORRE AO DR. GOOGLE

– Tem que esperar um pouquinho, que a internet está lenta.

Por mais surpreendente que seja, essa frase é ouvida, com frequência, pelos pacientes durante os atendimentos feitos pelos médicos do Hospital São Lucas, em Fernando de Noronha. Os moradores já se acostumaram a ter que esperar. Antes de ter o diagnóstico na mão, afirmam os pacientes, os médicos recorrem ao site de consultas Google para ajudar na leitura dos sintomas ou na indicação do remédio. Quando não é a internet, são os livros

“Eles ficam consultando o tempo todo. São muito jovens, inexperientes, ficam inseguros na hora de dar o diagnóstico”, diz a representante comercial Aparecida Conceição de Oliveira, 40 anos, a paciente que teve que fazer uma cirurgia de vesícula de urgência no continente depois de ter sido diagnosticada com dengue.

Pacientes e funcionários do hospital afirmaram que a maioria dos médicos que chegam para trabalhar em Noronha são recémformados, alguns não têm sequer residência. Doutor com experiência, com anos de estrada, é uma vez ou outra que aparece.

A falta de qualificação dos médicos contratados coloca em risco a vida dos pacientes, mas nem por isso a conta sai barata. No ano de 2009, foram gastos quase R$ 900 mil apenas com o pagamento de profissionais de saúde que prestaram serviço na ilha. Todos os médicos são contratados como prestadores de serviços.

Há casos curiosos que chamam a atenção. Documentos referentes ao quadro de pessoal, aos quais a reportagem teve acesso, revelam que apenas um médico cardiologista recebeu R$ 30 mil por contratos que, somados, equivaleriam a apenas um mês de serviço. Ou seja, ele recebeu R$ 1.000 por dia de trabalho. O valor fica ainda mais gritante quando se confrontam os dados dos contratos com um levantamento do Datasus, que registra a frequência dos atendimentos efetivamente feitos no hospital. O médico em questão nem sequer trabalhou os 30 dias contratados.

Não é por falta de alerta que a saúde em Fernando de Noronha chegou ao abandono em que se encontra. Falhas, irregularidades e deficiências na contratação de médicos e no atendimento prestado pelo hospital foram apontadas no relatório de auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE) referente à prestação de contas do arquipélago de 2007. Fotografias tiradas pelos auditores mostram que o bloco cirúrgico foi transformado em depósito há muitos anos. Em todas as salas, condições precárias de funcionamento. “Ficou evidente que a atual estrutura física do Hospital São Lucas necessita de reforma com muita brevidade, tendo em vista que tal situação compromete a qualidade dos serviços prestados por este hospital, descumprindo o princípio constitucional da eficiência”, constatou o relatório do TCE. De lá para cá, a situação só fez piorar.

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