Documento 2011 Suape


É com saudosismo de um passado recente, que os moradores do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca falam das transformações no cotidiano das duas cidades. "Aqui era um lugar pacato. A gente conhecia todo mundo. Saíamos à tarde para conversar na calçada de casa. Agora não conhecemos mais ninguém. Chegaram esses homens com palavreado diferente e tomaram os bairros, as praias. A cidade virou dormitório de Suape". No desabafo comum aos nativos, os homens de sotaque são os operários que migraram de todos os Estados do Brasil para trabalhar na construção de empreendimentos como a Refinaria Abreu e Lima (Rnest) e a PetroquímicaSuape (PQS).



Sem mão de obra qualificada na área de montagem, Pernambuco precisou importar boa parte do operariado, provocando o surgimento de uma "minicidade" na região de Suape. Hoje, 38 mil peões trabalham nas obras da refinaria e da petroquímica. O número representa quase metade da população de Ipojuca (veja arte). Essa "minicidade" ainda vai crescer quando a Rnest alcançar o pico da construção, em outubro, totalizando 28 mil funcionários.



Do total de operários das duas obras, 35% (13,3 mil pessoas) vieram de outros Estados e estão alojados nos municípios vizinhos ao complexo, principalmente no Cabo e em Ipojuca. A eles ainda se juntam os pernambucanos que moram em municípios do interior e também precisam se instalar na vizinhança de Suape. Só os alojamentos somam quase 10 mil vagas. Isso sem falar nas repúblicas espalhadas por casas e pousadas alugadas. Além desses 38 mil homens, outros 20 mil trabalham nas indústrias e empresas de serviços já implantadas no complexo.



Forjadas na cultura da cana-de açúcar, Ipojuca e Cabo viveram a transição para uma economia industrial, com a implantação do Complexo de Suape, há três décadas. Mas é só agora, com a enxurrada a um só tempo de US$ 22 bilhões em empreendimentos até 2014, que os impactos se sobressaem. O Brasil volta os olhos para Pernambuco. Aqui está o novo, o platô do desenvolvimento econômico que estimula uma espécie de corrida do ouro, como aconteceu em Serra Pelada, no Pará, na década de 80. Lá o saldo foi de favelização, baixos indicadores sociais e degradação ambiental.



Pernambuco e Rondônia (com a construção das hidrelétricas do Rio Madeira) são hoje os Estados com maior onda migratória no País, por conta das obras do Programa de Aceleração do Crescimento. A diferença é que, historicamente, Porto Velho viveu os ciclos da borracha e do garimpo, enquanto a tradição pernambucana sempre foi de exportar trabalhadores para outras regiões do Brasil.

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carpinteiro alagoano Josemar Elísio da Silva realça essa onda migratória de retorno ao Nordeste. Com apenas 23 anos, já trabalhou no Espírito Santo, Rio e Minas. "Agora estou bem mais perto de casa. Quero trabalhar, juntar dinheiro e levar para minha família, em Delmiro Gouveia", diz. Dividindo um quarto de 18m² no alojamento da Odebrecht com outros cinco conterrâneos, ele foi contratado para a obra da petroquímica em maio.

Se por um lado os municípios do Cabo e de Ipojuca comemoram o momento de ebulição na economia, por outro, precisam conviver com as dores do crescimento. O batalhão de operários que chegou com as indústrias fez explodir as demandas sociais. O déficit habitacional que já existia na região vai duplicar. As cidades não têm sistema de água e esgoto para suportar população equivalente a um novo município. Invasões se multiplicam, inclusive em áreas de preservação ambiental. O trânsito beira o caos. Bancos e postos de saúde estão sempre lotados. O consumo de drogas e de álcool explodiu. Prostituição e exploração sexual de menores crescem em ritmo galopante. "A necessidade de investimentos sociais e em infraestrutura surge numa velocidade que o poder público não consegue acompanhar", assinala a secretária de Planejamento e Meio Ambiente do Cabo, Vera Tenório. A preocupação é compartilhada pela assessora especial da Prefeitura de Ipojuca, Simone Osias. "Os municípios do entorno de Suape precisam se unir e conclamar o governo do Estado e as empresas para avaliar o que pode ser feito para minimizar os impactos negativos e planejar esse crescimento", defende.

 


Juntos, os municípios do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca abrigam uma população que beira os 270 mil habitantes. Isso sem contar com os operários forasteiros vivendo na região. Falta casa pra tanta gente. A agência de planejamento de Pernambuco, Condepe/Fidem, estima um déficit habitacional de 35 mil residências nos cinco municípios vizinhos do Complexo de Suape. Com a efervescência econômica da região, esse número deverá saltar para 85 mil até 2035. A escassez de moradias e uma inflação imobiliária desenfreada fez proliferar as invasões de terra.



Os terrenos públicos são o principal alvo, colocando em xeque a capacidade do Estado e das prefeituras de coibir a construção de casas, que "brotam" numa velocidade espantosa na região. Barracos e casebres surgem até em áreas de preservação ambiental e patrimônio histórico. A reportagem do JC acompanhou o aparecimento de uma invasão na comunidade de C.Povo, no Cabo. Em março, os barracos de lona apareceram num terreno em frente à Igreja Batista da comunidade. Um mês depois, os ocupantes já haviam erguido casas de alvenaria.
"Eu e meu marido estamos desempregados. Vivo de fazer bicos, vendendo coxinha ou trabalhando como ajudante de cozinha. Temos quatro filhos pra criar. Depois que veio esse monte de gente trabalhar em Suape, os aluguéis subiram demais. A gente pagava R$ 300 numa casa de dois quartos, que hoje custa R$ 500. Não dá pra pagar, por isso construímos aqui", diz Cícera Lourenço da Silva. O poder público demorou três meses para retirar a ocupação de 12 casas, derrubada em junho. Agora, Cícera alugou por R$ 300 uma casa de um quarto, que abriga hoje nove pessoas da família.

A secretária de Programas Sociais do Cabo, Edna Gomes, conta que começaram a aparecer moradores de rua no município depois da explosão do emprego em Suape. "São pessoas que vêm de outros Estados e querem se alojar em qualquer lugar até conseguir um trabalho. Alguns acampam em barracas e dentro de contêineres. Estamos recolhendo esses homens e mulheres e, muitas vezes, bancando passagens aéreas para que retornem a seus lugares de origem. Precisamos ter uma casa de passagem na cidade", afirma.

O problema reverbera dentro dos terrenos do Complexo de Suape. O vice-presidente do porto, Frederico Amâncio, diz que o Plano Diretor apontou para a existência de 25 mil pessoas vivendo nos domínios de Suape. "Estamos avaliando o projeto de construir 2.600 casas com recursos do programa Minha Casa, Minha Vida para abrigar os posseiros que serão retirados de áreas consideradas estratégicas para o porto", afirma. A previsão é investir R$ 200 milhões nesse Projeto Morador, que se arrasta desde o início da primeira gestão do governador Eduardo Campos. Do lado da iniciativa privada, o Estaleiro Atlântico Sul está concluindo a construção de uma Vila Operária com 1.328 casas para seus funcionários.

 



A Praia de Gaibu, no Cabo de Santo Agostinho, deixou de ser um lugar frequentado por turistas e veranistas. Pousadas e casas do balneário se transformaram em repúblicas de trabalhadores. As empreiteiras arrendam as hospedarias e oferecem preços acima do valor de mercado por casas e prédios inteiros para alojar seus operários. O panorama, que se repete em outras praias e bairros dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, desencadeou uma especulação imobiliária desmedida na região.

O valor dos imóveis explodiu, os terrenos escassearam e o preço do metro quadrado saltou de R$ 500 para até R$ 2 mil. A Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE) estima que os aluguéis na vizinhança de Suape subiram 20% em 2010 frente ao ano anterior e alcançaram valores equiparáveis à de bairros valorizados do Recife. A previsão é que persista a tendência de alta, com a chegada de novos operários para dar conta do pico da obra da Refinaria Abreu e Lima, em outubro, quando o canteiro terá 28 mil pessoas.



"Os moradores estão alugando suas casas e indo morar em outros lugares para aproveitar a oportunidade de negócio. Nossa preocupação é que essa sublocação traga problemas para a cidade, porque as residências ficam entregues a terceiros, pessoas sem compromisso com o município. E a prefeitura não tem como controlar esse movimento especulatório", assinala a secretária de Planejamento do Cabo, Vera Tenório. É corriqueiro encontrar residências de dois quartos apinhadas de operários dividindo um banheiro, com instalações sanitárias degradantes.



A especulação imobiliária também instituiu o negócio dos "puxadinhos", com os moradores construindo quartos e casas para alugar. Irandir Amaro Pojuca entendeu que o trunfo para driblar a escassez de terreno era verticalizar a construção. No pedaço de terra que tem no distrito de Nossa Senhora do Ó, em Ipojuca, a construção subiu degraus. No térreo instalou seu negócio de fabricação de lajes. Depois ergueu quatro casas no primeiro andar. "Agora estou construindo outras quatro no segundo andar. Duas já estão alugadas para um baiano e um sergipano, que trabalham nas obras de Suape e querem trazer a família", diz. Ele está investindo R$ 8 mil na obra e espera alugar cada casa de dois quartos por R$ 500. Antes, o preço era R$ 400.



A multiplicação das repúblicas de trabalhadores não conta com a simpatia do trade turístico. Nem mesmo Porto de Galinhas (a praia mais badalada de Pernambuco) escapou à ocupação dos forasteiros. Pelos menos 15 pousadas foram alugadas para empreiteiras. "O arrendamento desses estabelecimentos é uma disfunção do setor. O que se espera para um destino turístico de lazer é um público de casais, famílias e viajantes. O que temos hoje é uma grande comunidade masculina", reclama o empresário Arthur Maroja, do hotel Solar de Porto de Galinhas. Na tentativa de frear a proliferação das hospedarias para operários, a Prefeitura de Ipojuca iniciou uma fiscalização.



Os municípios-dormitório convivem, ainda, com a implantação de alojamentos. Hoje são quatro em funcionamento e construção no Cabo e em Ipojuca, com capacidade para 9.476 homens. A discussão travada pelas prefeituras é a necessidade de instituir contrapartidas a serem pagas pelas empresas em razão das demandas sociais geradas pelo operariado alojado nas cidades.