Documento 2011 Suape


Todas as noites, pontualmente às 18h, os travestis Jaqueline, Bruna, Brenda e Bianca se instalam à beira da Avenida Presidente Vargas, uma das principais vias de acesso ao município do Cabo de Santo Agostinho. O horário rigoroso é para não perder o movimento dos ônibus, desembarcando os trabalhadores que encerraram o dia de expediente no Complexo de Suape. Os "homens de uniforme", que movimentam a engrenagem do principal polo econômico de Pernambuco, turbinam o mercado do sexo na região.



"Isso aqui tá o paraíso. Não tenho do que reclamar. Só neste mês (de maio) já comprei minha TV de plasma e uma cama box", comemora Jaqueline Ferraz, de 27 anos. Nascida Jadson Francisco da Silva, numa família de 11 irmãos e um pai severo, ela conta que foi expulsa de casa aos 13 anos, quando escancarou sua homossexualidade. "Hoje vivo e sustento minha mãe com o dinheiro que ganho aqui. Acho que esse bom momento de Suape não vai acabar tão cedo. A maioria dos clientes é de fora do Estado. São homens solteiros ou casados que estão longe da família, pegando no pesado. Eles nos procuram para aliviar o estresse e em busca de atenção. Somos um pouco psicólogas", diz o travesti, confessando sua preferência pelos baianos.



A chegada dos "homens de fora" também fez crescer a exploração sexual de menores e os índices de gravidez na adolescência. Marcelo Peixoto, um dos fundadores da ONG Barong, com atuação em estudos sobre sexualidade, alerta para a importância de não demonizar os forasteiros, que também são vítimas de uma estrutura produtiva perversa. "Em busca de trabalho, os homens deixam suas casas e migram para outros Estados. As empreiteiras contratam o macho sozinho, não costumam trazer a família por conta do custo. Eles ficam alojados com centenas de outros operários. Na educação machista que recebemos não é permitido chorar, admitir que está com saudade da mulher e dos filhos. Para aplacar a carência afetiva, vão beber e procurar os pontos de prostituição", analisa.
Exaltando o instinto de animal reprodutor da espécie humana, Peixoto compara que durante um período de 28 dias a mulher tem três dias de "cio", enquanto o homem está pronto para a reprodução a cada 12 horas. "É científico, não há o que questionar. Isso sem falar que os operários com idade na casa dos 20 anos estão no auge da fabricação de testosterona", observa. Peixoto, um teatrólogo que trabalha com questões de sexualidade há mais de 30 anos, acredita que proibir a prostituição não é uma estratégia inteligente.



O estudioso conta a experiência da Prefeitura de Uchôa, em São Paulo, onde um prefeito médico permitiu que uma casa abandonada fosse transformada em prostíbulo, depois que fazendas foram arrendadas por usinas na região e a cidade se encheu de forasteiros. "Ele construiu um posto de saúde do lado da zona, que disponibilizava preservativos, atendia as profissionais do sexo, prestava orientações e distribuía material educativo", lembra. Pressões de religiosos fizeram o lugar ser desativado e o índice de doenças sexualmente transmissíveis disparou.

No ponto dos travestis em Suape, Jaqueline explica que uma das regras é usar preservativo. Ela tem bom trânsito na Secretaria de Programas Sociais e em ONGs do Cabo. Numa das vezes em que a reportagem do JC acompanhou a movimentação no local, cada um deles fez pelo menos três programas rápidos. Na maioria das vezes o ato sexual acontece nas ruas e becos transversais à avenida. "Os motéis são longe, caros e têm fila por causa do grande movimento de homens na região. O jeito é fazer dentro dos carros ou por aqui mesmo", conforma-se. O grupo instituiu uma tabela de preços para o programa, alinhada com o que os operários podem pagar. O sexo oral custa R$ 20, a transa sai por R$ 30 (se o travesti estiver na posição de passivo) e por R$ 50 se fizer as vezes de ativo. "O primeiro programa a gente não pode recusar, senão pode dar azar a noite toda. É uma superstição", explica Brenda.

 


O surto de adolescentes grávidas nos municípios do chamado Território Estratégico de Suape é apontado como um dos principais impactos negativos da chegada do batalhão de operários. Na região, as meninas olham com atenção especial para os homens de sotaque e farda dos empreendimentos considerados responsáveis pela redenção econômica de Pernambuco.

"As adolescentes veem no crachá de Suape o futuro e a esperança. Muitas moram nos engenhos da região e descem para a cidade e as praias ao encontro desses homens. De dois anos para cá, aumentou 22% o número de jovens grávidas que atendemos aqui", lamenta Maria José Bezerra, gerente do Centro de Referência Especializada da Assistência Social (Creas) do Cabo.



A psicóloga revela que a maioria das famílias finge não perceber que as adolescentes estão se prostituindo, por acreditar que a relação com os trabalhadores poderá significar uma vida melhor para elas. "Muitas vezes a prostituição acontece de forma indireta, sem receber dinheiro. Adolescente quer visibilidade. Pode trocar favores sexuais por um biquíni para desfilar na Praia de Gaibu", exemplifica. O problema é que o envolvimento está deixando para os municípios os "bastardos de Suape". "A maioria dos operários tem passagem transitória pelo Estado e a família vive fora daqui. E muitos dos solteiros não assumem a paternidade dos filhos e vão embora", alerta Maria José.



As soluções chegam com atraso, descasadas da cadência frenética dos empreendimentos. Desde 2009, a Refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) iniciaram uma articulação para lançar o projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape. Junto com instituições de assistência a homens, mulheres e adolescentes, como o Instituto Papai e o Centro das Mulheres do Cabo, a proposta é minimizar os problemas sociais provocados pela onda migratória.



"Estamos falando de uma região que tem um histórico de desigualdades e relações de gênero conflituosas. Existe uma tradição do cultivo de cana que veio acompanhada por escravidão e violência contra a mulher", diz Ricardo Castro, responsável pelo programa no Instituto Papai. O coordenador-geral pela UFPE, Felipe Rios, adianta que a meta é desenvolver ações com homens das obras, adolescentes, agentes de saúde e profissionais do sexo. A estimativa é que o projeto seja iniciado este mês, bem próximo do pico da obra da refinaria, daqui a dois meses depois. "A Petrobras é uma empresa muito grande e os processos acabam sendo burocráticos", avalia Nivete Mendonça, do Centro das Mulheres do Cabo.



O Departamento de Antropologia da UFPE também estuda o fenômeno de Suape. O professor Parry Scott coordena a pesquisa Três polos de desenvolvimento e a vida sexual das mulheres, que se debruça ainda sobre Porto de Galinhas e Petrolina. "Queremos analisar que impactos esse crescimento econômico e a concentração de homens trazem para a vida da população feminina dessas localidades", diz, afirmando que uma das dificuldades é obter informações oficiais. A pesquisa deverá ser concluída em 2 anos.

 





"Mulher é luxo aqui na área de Suape." A frase de uma garota de programa de Ipojuca resume o que acontece hoje no negócio da prostituição, depois que 38 mil homens passaram a morar e circular na região. Assim como os trabalhadores, as prostitutas chegam de vários lugares, em busca de oportunidade no eldorado pernambucano. Nos últimos dois anos, os bordéis se multiplicaram, muitos deles sob a fachada de botecos.



O Recanto Feliz é o prostíbulo mais badalado de Suape. Fica espremido entre fábricas situadas na BR-101 Sul, quase no começo da PE-60, no Cabo. Quem coloca os pés no local custa a acreditar que está no bordel conhecido como um dos mais rentáveis do Nordeste para as prostitutas. O chão é de cimento batido. Galinhas, gatos e cachorros transitam entre os clientes. Para chegar até lá é preciso pegar uma estrada de barro mal iluminada. No muro, uma mensagem permite inferir o ofício praticado no estabelecimento: "Proibida a entrada de menores de 18 anos".

Prostitutas de outros Estados e de várias cidades pernambucanas, sobretudo do interior, vão faturar no local. Todas atraídas pela explosão demográfica masculina em Suape. O lugar funciona das 11h às 23h, obedecendo aos turnos dos operários. Os que trabalham pela manhã aparecem logo depois do almoço, por volta das 13h. Outro horário de maior movimento é por volta das 20h, depois que larga o turno da noite.
Na parte da frente funciona um bar, que vende bebidas e refeições com pagamento adiantado. Das mesas dá para ver as portas dos quartos fechadas. Para ficar com as meninas, os clientes precisam pagar R$ 50 pelo programa, além de R$ 23 pelo aluguel do quarto com ar-condicionado ou R$ 12 para um com ventilador.



Com a rápida expansão de Suape, o Recanto Feliz passou a ser o melhor endereço para as prostitutas. "Me disseram que aqui é o lugar para ganhar dinheiro. É isso o que quero. Dinheiro", diz Marília*, de 24 anos, que decidiu ser garota de programa há três anos para garantir sua independência financeira. Ela diz que vai passar mais três anos nessa vida até conseguir quitar o apartamento que comprou em Natal, sua terra de origem. Com rosto de menina, Karina* parece ser menor de idade, mas afirma ter 19 anos. Diz que começou a vida sexual aos 13 anos e engravidou aos 15. O filho está com 3 anos e fica com a avó em Caruaru, onde mora. "Passo a semana dormindo aqui e digo a minha mãe e meu namorado que estou trabalhando no Recife." Passando-se por um casal de namorados, a repórter e o fotógrafo do JC convidam Karina* para um programa a três. Ela hesita um pouco, alegando que não costuma sair da casa com desconhecidos, mas marca o encontro para quando terminar o expediente. Cobra R$ 150 pela saída, que não se concretiza.



Além do Recanto Feliz, outros locais funcionam como ponto de prostituição. O Bar da Galega está há dez anos na entrada de Ipojuca. Fica na garagem de uma casa com primeiro andar. Quando a reportagem do JC, sem se identificar, pergunta o que funciona no andar de cima, um frequentador diz que são os quartos onde as garotas fazem programa. O cenário se repete no Bar das Morenas, também em Ipojuca. As casas de prostituição estão proibidas no Cabo e em Ipojuca, mas representantes das prefeituras e autoridades policiais admitem saber onde elas estão e até quem são seus donos.



* Todos os nomes são fictícios