Por Giovanni Sandes
No apagar das luzes do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o então presidente discursava em São José de Piranhas, Sertão da Paraíba, diante do desemboque do "maior túnel de águas da América Latina", o Cuncas I. Era 14 de dezembro de 2010, sua última visita à transposição: "Eu estou com muito orgulho, porque estou percebendo que a obra vai ser inaugurada definitivamente em 2012 – a não ser que aconteça um dilúvio ou qualquer coisa." Quatro meses depois, o acesso pelo outro lado do túnel, em Mauriti, Ceará, desabou. Em janeiro passado, após as fortes chuvas do final de 2010, essa mesma entrada do Cuncas I estava submersa.
O túnel é um grande desafio de engenharia. Terá 15 quilômetros de extensão na divisa entre o Ceará e a Paraíba e é fundamental para a água chegar também ao Rio Grande do Norte. Até o incidente, o Cuncas I era uma atração turística. Após o desabamento, as visitas foram proibidas "por razões de segurança". O desabamento não fez vítimas, mas causou susto, porque ocorreu em horário de trabalho. De 80 metros escavados, 50 metros desmoronaram.
Até hoje, o consórcio Construcap/Toniolo e Ferreira Guedes/Busnello não retomou as obras naquele ponto, apesar de manter os serviços em outras duas frentes do Cuncas I e em outro túnel, o Cuncas II, tudo no lote 14 da transposição.
Segundo o Ministério da Integração Nacional, em comunicado da época, o desabamento ocorreu por "consistência não uniforme do solo encontrado naquele ponto". De acordo com o texto, nessas escavações "podem ocorrer imprevistos geológicos que induzem a ruptura de teto, acarretando, assim, o desprendimento da terra". A retomada viria após estudos.
As obras do Cuncas I continuam na "janela de serviços" e no desemboque, que usam métodos diferentes de construção. A janela de serviços é um acesso no meio do túnel, que desce 2 mil metros inclinados no Monte Horebe, Paraíba. Por ali, o consórcio começará duas novas frentes de trabalho, em direção ao emboque, no Ceará, e ao desemboque, na Paraíba. Dia e noite, 150 homens se revezam com a máquina de escavar, o jumbo, que com três braços articulados avança 4 metros por dia em dois períodos de 5 horas.
As obras também continuam no desemboque, em São José de Piranhas, o local onde Lula fez seu discurso de despedida, no governo, da transposição. Naquela data, a 16 dias de deixar a Presidência, em poucas frases e a seu estilo, Lula resumiu o que seria a história do projeto. "Esta obra, é importante vocês lembrarem, que Dom Pedro, imperador deste País, tentou fazer e não conseguiu. Eu digo sempre que o Lula de dona Lindu conseguiu fazer a obra que o Imperador, filho do rei Dom João VI, não quis fazer... Não pôde fazer. Então... Porque isso demonstra o que é vontade política. Quando você decide fazer, você faz e acontece".