O Nordeste vai esperar alguns anos até ver os 713 quilômetros de canais da transposição do Rio São Francisco virarem um espelho de água a céu aberto, rasgando o sertão. A expectativa que a volta das obras trouxe ao sertanejo, porém, não tem relação com a entrega da transposição. A parada em nove de 12 lotes do projeto, ano passado, interrompeu pequenos "booms econômicos" em cidades no traçado da construção. Sem os milhares de trabalhadores e máquinas, acabaram emprego novo, comércio forte, hotéis lotados e vendas à toda. A cada anúncio de retomada da construção ou de início de trechos nunca tirados do papel, a ansiedade bate nos empresários e de quem busca uma saída do desemprego.
A transposição lida com proporções gigantescas e, por isso, precisa de um exército de operários. Para ficar em poucos exemplos, os canais ao todo vão retirar do caminho 82 milhões de metros cúbicos de rocha (900 Maracanãs lotados de pedras) e usar 1,5 milhão de metros cúbicos de concreto, o que dá para construir 750 prédios de 22 andares – Salvador inteira tem 759 edifícios, construídos e em obras.
A demanda gigante por moradia, hospedagem, comida e um tanto de outras coisas dos operários contratados para lidar com tanto material provocou um impacto forte em cidades de economia fraca. A obra já teve 9 mil trabalhadores. Após a parada, ficou o clima de desolação. No lote 9, perto de Floresta, alojamentos que eram lotados de operários hoje têm em cada porta a palavra "vazio" escrita em grandes letras.
Com a volta de um dos lotes, mês passado, o número de operários da transposição voltou a subir, batendo 3.900, segundo dados oficiais, e 1.800, pelas contas da reportagem após visitar a todos os lotes.
De qualquer modo, o Ministério da Integração Nacional informa que a retomada será gradativa e projeta, até julho, 6 mil operários, uma espera ansiosa para quem investiu em todo esse movimento.
"Aqui era lotado direto por causa das obras. Passou quase um ano assim, sem vagas. Daí começou a cair, até que em outubro tivemos praticamente zero hospedagem. Tinha um, dois quartos alugados, de 30 que nós temos", conta Juliano Cícero, 22 anos. Ele é um recepcionista-faz-tudo que há dois anos e meio faz todo tipo de serviço e ajuda na administração do Hotel Portal do Sertão, em Salgueiro.
A cidade, no Sertão Central de Pernambuco, virou símbolo da mudança econômica levada pelas megaobras federais, por ser o local onde se cruzam a transposição e a ferrovia Transnordestina, que tem a base industrial no município. Mas o emprego ali começa a cair.
Com o avanço da estrada de ferro, as frentes de obras lentamente vão migram para áreas mais distantes. A transposição ali perto tem os lotes 2, parado há um ano, o 8, esperado desde dezembro, e o 3, que contava com 600 operários e hoje conta cerca de 200.
Por tudo isso, a preocupação no Portal do Sertão, conta Juliano, é pagar as prestações da troca do ar-condicionado de todos os quartos por modelos split. "O hotel sempre tem movimento na época de férias. Salgueiro é entroncamento, caminho para muita gente que viaja para rever a família no interior ou na capital. Então, em dezembro e janeiro até que melhorou. Mas quando passar essa época, sei não."
A incerteza de quem já ganhou com as obras rivaliza com a expectativa de quem até hoje espera uma oportunidade na transposição. Entre Salgueiro e Terra Nova, a 15 quilômetros da estrada asfaltada mais próxima, a ansiedade dessa gente seguiu a reportagem na garupa de uma moto.
O carro do JC seguia o traçado desde o início do Eixo Norte da transposição, uma jornada de 70 quilômetros em estradas precárias. Ali, no meio do nada, onde quase não há movimento na pista de pedras e areia, a mãe de Raimundo Pereira Dum Neto, 38 anos, desempregado, notou fácil o veículo passando.
Segundo Raimundo, pelo local isolado, ela acreditou que era o pessoal da Mendes e GDK, que há quase dois meses deveria ter iniciado as obras do lote 8, perto da casa da família. O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, em 16 de dezembro chamou a imprensa para "vistoriar as obras" daquele lote. Até dirigiu um dos quatro caminhões fora de estrada, gigantes com capacidade para 120 toneladas, e posou para fotos. Desde então, os veículos não carregaram um saco de areia.
Por isso, alertado pela mãe, Raimundo pegou um envelope e pediu carona ao irmão, Cícero Romero Dum, 32 anos, vigia do consórcio. Cícero estava em casa, no momento. Os dois subiram na moto para alcançar a reportagem. Era a corrida pelo emprego, tudo para entregar um currículo.
Desfeito o enganado, Raimundo estava frustrado, mas topou conversar um pouco. Ele ficou desempregado às vésperas do Natal passado. Voltou do Ceará para a casa dos pais em 23 de dezembro e não conseguiu mais trabalho. "Antes eu estava em Petrolina, como chefe de turma, na reforma de casas. De lá fui para Fortaleza, trabalhar em um escritório imobiliário, mas aí não estava dando certo não. Então eu vim embora e estou aqui", resume.
Cícero, o irmão dele, também voltou para casa após perder o emprego. Ele trabalhava em Palmares, em um trecho da BR-101, e na volta para Salgueiro teve a sorte de conseguir o posto de vigia, até então o único do lote 8 em Salgueiro.
Em janeiro de 2009, o Consórcio LJA e Ebisa, até assinou contrato, de R$ 97,6 milhões, para tocar o lote 8. Mas desistiu do serviço antes de começar. Ano passado, o contrato foi assumido pela Mendes e GDK por quase o triplo do valor original, R$ 275,9 milhões. As obras são a construção de três estações elevatórias, em Salgueiro, Terra Nova e Cabrobó. Apesar do anúncio de Bezerra Coelho, em dezembro, o lote 8 começou apenas em 11 de janeiro passado, em outro lugar, Cabrobó. A chegada da primeira equipe foi acompanhada, por coincidência, pela reportagem do JC.