Por Giovanni Sandes
O ar seco e quente, o sol no chão de poeira e pedras e a falta de sombra fazem o Sertão parecer uma grande fornalha. É ali, desamparada, que a transposição racha. E quando a chuva dá trégua ao sol, amplia os estragos. Em vários trechos da obra, há fissuras, rachaduras, placas de concreto quebradas e destruídas por infiltração.
Durante uma semana, o rodou 2.600 quilômetros em Pernambuco, Paraíba e Ceará, 160 km à beira dos canais – muitas vezes em áreas de difícil acesso, nos 13 lotes licitados, dos 14 que compõem a obra.
O lote 1 tem 40 quilômetros. Começa em Cabrobó. É o mais adiantado e, daqueles onde a obra está danificada, o que tem menos fissuras. Ao mesmo tempo, apresenta a imagem de abandono mais impressionante. Quase no quilômetro 40, já no município de Terra Nova, uma árvore nasceu em uma das laterais do canal, em meio a restos placas de concreto destruídas pelo clima.
"Uma vez eu estava campeando com um amigo e vi aquele buracão. Parece que foi feito por máquina. Mas ele disse que foi muita água presa, estourou tudo", conta Alfredo Nogueira de Carvalho, 62 anos. Segundo ele, a obra parou há um ano. "Três filhos meus trabalhavam na firma. Saíram quando ela [na verdade um consórcio] demitiu todo mundo", lembra. Na opinião de Alfredo, falta interesse político. "Na época de Lula, até que estava mais ou menos. Mas depois que essa Dilma entrou, não andou mais nada", critica. Sertanejo de voz grave e rosto sério, ele, com a esposa e os três filhos desempregados, se sustenta com a criação de alguns bois e ovelhas na fazenda Curralinho II, tão perto do Eixo Norte que um pedaço da terra foi desapropriado para as obras.
Não fossem os empregos, a família seria só reclamações. Uma explosão de rochas na transposição danificou o telhado de uma casinha antiga na fazenda, em que Alfredo cresceu, mantida como recordação. A família é tão ligada à terra que os pais dele, que chegaram à propriedade em 1941, foram enterrados lá. "Não quero sair, nem tenho para onde ir. Além do que teve cabra que liberou a terra e não recebeu ainda. Pior que, nas obras, teve noite que eu não pregava o olho", diz Alfredo, em referência ao barulho das detonações. Com menos terra, o pequeno criador soltou os animais para eles procurarem comida. "Mesmo assim, ano passado, perdi 70 ovelhas para a fome ou atropeladas nessas estradas que abriram para fazer o canal. Este ano, foram mais 30", relata.
Alfredo espera que, quando a obra ficar pronta, a área rural de Terra Nova não fique isolada da sede do município, a 16 km. "Eles têm que deixar uma passarela. Têm que deixar. Muita gente aqui vive de roça e todo mundo tem que vender as coisas na feira", enfatiza o pequeno criador.
Aquele lote não é o único sem serviço. Até o mês passado, quando o governo anunciou a retomada gradativa da obra, nove haviam parado e só um voltou ao trabalho. O consórcio Carioca, S.A. Paulista e Serveng, responsável pelo lote 1, parou também em suas outras frentes: no 2, em Salgueiro, e no 7, em São José de Piranhas, Paraíba.
São todos no Eixo Norte, como o lote 6, em Mauriti, Ceará. O trecho manteve as obras e, ainda assim, nos 15 km em que revestiu o canal de concreto, 600 metros em sequência (4% do que foi revestido) apresentam placas quebradas.
Para o presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Pernambuco, José Mário Cavalcanti, as rachaduras e placas quebradas são resultado da natureza contra a obra parada. "Não vai haver custo de recuperação tão alto", acredita. Dois executivos de construtoras não envolvidas na construção, em reserva, avaliaram fotos da obra. Para um, parece haver problema de escolha de materiais e de fiscalização. Para o outro, antes de emitir juízo é preciso medir tecnicamente a proporção entre danos e a extensão dos canais. O governo alega que os danos são poucos e as empresas pagarão os consertos.
No Eixo Leste, a proporção de fissuras dos lotes 9 e 12, em Sertânia, é pequena, ao contrário do lote 10, em Custódia.
A cargo da Mendes Júnior e Emsa, o lote 10 tem 39 km entre Floresta e Custódia e chama a atenção não só pelo abandono, mas porque o consórcio remendou rachaduras e recortou partes do canal de modo que os trechos parecem feitos de retalhos.
"O canal estava todo rachado. Daí botaram um trator para quebrar e cortar tudo no mês passado", conta Francinalda Aparecida. Aos 20 anos, ela cuida de um pequeno bar perto do povoado de Caiçara, em Custódia, vizinho do lote 10. A parada na obra quebrou o bar.
"Só tem movimento do pessoal daqui mesmo. Os 'meninos' aqui bebem um pouquinho. Mas vender mesmo como primeiro a gente vendia? A gente vendia almoço, café... Bastante coisa. Aí agora é só bebida mesmo", conta ela.
A chefe de Francinalda decidiu se desfazer do bar. "Ela me disse que já vendeu. Se o dono novo quiser, espera para ver se a obra volta em março, como dizem. Vou ficar em casa. Vou trabalhar em outro bar que tem, mais distante um pouquinho, se a obra voltar", diz Francinalda.
Segundo o governo, o consórcio retomará o lote 10 este mês e bancará os reparos.