|
|
![]() ![]() |
Mas a história do Teatro começou quarenta anos antes disso: já fazia quase vinte anos que o Brasil havia declarado sua independência de Portugal e deixava a influência lusa de lado, substituindo-a por aspectos culturais de outros países da Europa, especialmente da França. O então presidente da Província, Francisco do Rêgo Barros, o Barão da Boa Vista, queria realizar transformações profundas, modificando a paisagem urbana e a realidade material de Pernambuco. Nesses planos, um grande destaque para a construção de um lugar onde houvesse educação dos costumes, refinamento dos gostos e exercício do bom comportamento, um ambiente reservado e específico para isso. Um teatro. Então, a 30 de abril de 1839, o Barão assinou a lei nº 74, autorizando a construção de um teatro público, digno da importância de Pernambuco no contexto nacional e capaz de elaborar valores e costumes. A única construção com finalidade semelhante existente no Recife era a Casa da Ópera, o popular Capoeira, que funcionava na rua da Cadeia Nova (atual rua do Imperador). O primeiro problema encontrado para a construção do Teatro foi a falta de mão-de-obra especializada, o que exigiu a "importação" de profissionais. Desse modo, chega à cidade o engenheiro francês Louis Léger Vauthier , em setembro de 1840. Vauthier será o responsável pela elaboração do projeto neoclássico do Teatro Santa Isabel. O primeiro orçamento alcançou os 400 contos de réis e foi descartado por uma nova análise, onde a obra seria feira por 240 contos. Em fevereiro de 1841, esse montante foi aprovado e a pedra fundamental foi colocada em abril do mesmo ano. As modernidades implantadas por Vauthier, com suas técnicas para construção bastante diferentes dos métodos locais, causou mal-estar entre os profissionais brasileiros. Acusavam-no de estar gastando demais, fazendo extravagâncias, duvidando de suas técnicas e da qualidade do material usado. As críticas e sugestões vinham de todos os lados, o canteiro de obras virou local de visitação pública. O Pajem d'Aljubarrota. Esse foi o espetáculo apresentado na noite de estréia do Santa Isabel, exatamente em 18 de maio de 1850. Políticos, artistas, jornalistas e todas as famílias tradicionais do Recife contribuíram para esgotar a lotação do Santa Isabel. As mulheres limitavam-se a ficar nos camarotes, sempre acompanhadas. Mas isso, por si só, já era uma mudança de costumes, visto que a presença feminina nos eventos sociais era praticamente inexistente. O Teatro surgia como um espaço para convívio social: acordos, negócios, contatos políticos, romances... Tudo se desenrolava entre um aplauso e outro. O Pajem... foi montada pela Companhia de Teatro Germano de Oliveira, que produziu diversas outras peças encenadas no Santa Isabel, entre eles o shakespeariano Othelo. A Companhia Lyrica Italiana G. Mariangelli foi o primeiro grupo lírico completo a se apresentar no Teatro, em 1858. No ano seguinte, em homenagem a D. Pedro II - que passou seu aniversário no Recife -, uma peça foi montada com atos de várias óperas. Nessa mesma época, o ator João Caetano veio conhecer pessoalmente o Santa Isabel, trazendo as peças Antônio José, Dom César de Bazan, A Gargalhada e Othelo. Diante de tanta importância, o Santa Isabel consolidou-se como marco cultural do Recife, onde aconteciam os melhores e mais concorridos eventos. Transformou-se num lugar de celebração ao bem viver e à inteligência, como bem reforçaram os poetas Castro Alves e Tobias Barreto, com seu "partidarismo teatral". Defensores de opiniões opostas na Faculdade de Direito do Recife, onde estudavam, e apaixonados por atrizes rivais - Eugênia Câmara e Adelaide Amaral, respectivamente -, os escritores travavam verdadeiros embates quando iam prestigiar suas amadas no Santa Isabel, entre os anos de 1863 e 1865. A troca de insultos disfarçada pelos versos era famosa na cidade, tinha seguidores e ficou conhecida como peleja. Os bailes de máscaras também viraram moda no Recife, graças aos acontecidos no Santa Isabel a partir de 1851. Inspirados nos bailes carnavalescos de Paris e Veneza, essas festas nada tinham a ver com o entrudo brincado pelas classes de baixa renda. Dentro de regras veladas e respeitando "a moral e os bons costumes", os bailes de máscaras eram civilizados: a platéia virava salão para a execução de polcas, valsas, quadrilhas e mazurcas. Nada de marchinhas, populares demais para a pompa do Santa Isabel. A maior tragédia na história do Santa Isabel foi o incêndio que o destruiu praticamente por inteiro, em setembro de 1869. As paredes laterais, o alpendre e o pórtico foram as únicas coisas que sobraram de pé. Um pavilhão de madeira, montado no Campo das Princesas (atual Praça da República), servia emergencialmente para as apresentações que já estavam marcadas. Uma semana após a tragédia, o vice-presidente da província fazia a primeira reunião para tratar o assunto e determinar os termos da reconstrução. A reforma foi iniciada em maio de 1871, sob a consultoria de Vauthier. José Tibúrcio Pereira de Magalhães, então diretor da Repartição de Obras Públicas, viajou pessoalmente a Paris para conversar com o engenheiro, que ficou responsável pela vistoria de algumas peças que seriam enviadas ao Brasil para a nova obra. No dia 10 de dezembro de 1876, o Teatro de Santa Isabel é reinaugurado com a Companhia Lírica Italiana Thomaz Pasini, apresentando a ópera O Baile de Máscaras, de Verdi. As mulheres já faziam parte da platéia. Na nova fase do Santa Isabel, um dos visitantes mais ilustres foi o maestro Carlos Gomes, que veio ao Recife por duas vezes, em 1882 e 1885. Nesta última, regeu a orquestra e apresentou seu O Guarani para um teatro lotado. À essa altura, o Brasil vivia os debates e discussões sobre a abolição dos escravos. Como não poderia deixar de ser, o Santa Isabel serviu de palco para muitas dessas conferências, especialmente comandadas por Joaquim Nabuco. Atores e atrizes também demonstraram seu apoio à causa. Em 1881, a companhia lírica detentora da pauta do Santa Isabel montou uma peça onde uma carta de alforria era entregue aos escravos. A questão republicana também teve belos momentos no palco do Teatro, com discursos de Martins Júnior, Silva Jardim e Rui Barbosa. Mas o foco principal dessas conversas era a praça pública, já que os republicanos queriam o apoio popular às suas idéias. Abolição declarada e república proclamada, o Santa Isabel entra no século 20 com seu brilho declinando. Ganham espaço no palco as chamadas sociedades dramáticas, formadas por atores amadores e que se apresentavam esporadicamente. Phoenix Dramática, Congresso Dramático Beneficente, Clube Dramático Familiar, Arcada Dramática Julio de Sant'anna são algumas dessas empresas, que eram dispensadas do pagamento da taxa regulamentar de utilização do teatro no caso de espetáculos cívicos ou beneficentes. A sociedade pernambucana começa a questionar a qualidade da arte dramática mostrada no Santa Isabel, alegando que a construção do edifício não resultou em impulso ao movimento literário e à formação de atores, escolas e companhias locais. Desse modo, o Teatro perde um pouco de sua importância, transformando-se em salão de festas oficial para as cerimônias do governo e recepções políticas. Além da requintada decoração e da história elitista do Teatro, a proximidade do Palácio do Governo contribuiu para que o Santa Isabel fosse identificado como símbolo da oficialidade e do poder. Para contribuir ainda mais com o desagrado das elites, o Santa Isabel começou a funcionar como sala de cinema. Várias empresas exibiram seus produtos na tela improvisada do Santa Isabel. Entre os títulos, Paixão de Cristo, A fuga do presídio, A lei do perdão, Os apaches de Paris, O medo dos micróbios. A polêmica continuava: era preferível o Santa Isabel fechado, sem nenhuma companhia teatral, ou aberto com a programação cinematográfica. Somente na década de 30 o Teatro recuperaria seu prestígio. O advogado, jornalista, ator e dramaturgo Samuel Campelo assumiu a direção do Santa Isabel. Ele criou o Gente Nossa, primeiro grupo permanente de teatro do Recife, estimulando a produção de espetáculos e o surgimento de novos talentos. Pode-se dizer que o Gente Nossa foi o berço do Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), pois sua movimentação na cena teatral do Estado durou 10 anos, com grande sucesso. Valdemar de Oliveira assumiu a direção da casa e devolveu o glamour ao Santa Isabel, trazendo diversos encenadores, muitos deles estrangeiros. Zibigniew Ziembinski, Zygmunt Turkow, Willy Keller, Jorge Kossowski, Flamínio Bollini, Bibi Ferreira... Todos esses nomes passaram pelo palco e pelas coxias do Teatro nessa época. Em 1950, ano do centenário do Santa Isabel, Valdemar ainda era o diretor, ao mesmo tempo em que comandava o TAP, que estava em sua época áurea. A identificação de Valdemar com o Santa Isabel era tamanha que a história do TAP confundia-se com a do Teatro.
|