Luzes, palco e glória

Janaína Lima e Paulo Sérgio Scarpa
Jornal do Commercio


Estamos em 18 de maio de 1850. A sociedade recifense veste-se elegantemente para inaugurar o primeiro teatro público do Recife: o Theatro de Santa Izabel, a partir do projeto do francês Louis Léger Vauthier (1815-1877). No programa, um Elogio Dramático recitado pelo empresário Germano Francisco de Oliveira; o Hino Nacional cantado pela companhia dramática e a encenação do drama de Mendes Leal O Pajem D’Aljubarrota.

Na próxima terça-feira, 150 anos depois, o agora Teatro Santa Isabel será palco de mais uma solenidade aguardada com grande expectativa. Depois de cinco anos e seis meses de portas fechadas para uma reforma, a principal casa de espetáculos do Recife será entregue novamente à população com um concerto da Orquestra Sinfônica.

Como na inauguração, a reabertura será restrita a convidados. Em 1850, foi presidida pelo Visconde de Jaguary José Ildefonso de Souza Ramos, presidente da Província de Pernambuco. Desta vez, pelo governador Jarbas Vasconcelos, prefeito Roberto Magalhães e seu vice Raul Henry. Para o público em geral foi reservada a noite de quarta-feira, quando será apresentado o mesmo programa.

ORIGEM – As fortes chuvas de maio de 1850 obrigaram a transferência da inauguração do novo teatro por duas vezes. O que era para ser no dia 14, foi feito no dia 18. A obra foi iniciada em 1841, levou nove anos para ser concluída, e sobreviveu 19 anos até o incêndio que destruiu totalmente o prédio em 1869. “Não se salva nada. Parece um mar de labaredas”, narrou Mário Sette em crônica. Segundo o escritor, “o povo ajudou com baldes, gamelas, bacias cheias d’água...tudo inútil”. A causa do acidente pode ter sido um aparelho elétrico que servira na ópera Fausto, de Hector Berlioz, e ficara no camarim da prima dona. “Aquilo foi arte do demônio...foram brincar com ele nessa ópera...”, ironizou Mario Sette. Do incêndio, sobrou apenas o piano Pleyel, que está sendo reformado para voltar ao salão nobre do teatro. Isso graças a Joviniano José de Albuquerque, que salvou o piano, mas quebrou a perna.

A reconstrução do Santa Isabel foi acompanhada de longe (diretamente de Paris) por Vauthier, que enviou até o projeto original do painel artístico da boca de cena, agora, também, totalmente restaurado, inclusive em suas cores originais, pelos técnicos da Fundaj. O painel representa as duas faces do Teatro (o drama e a comédia), tendo ao centro o brasão do Império. “Foram retiradas oito camadas de tinta para chegar ao desenho. Voltamos ao passado nas cores”, conta o arquiteto Ismael Soler, responsável pelo atual projeto de restauração. O teatro voltou a funcionar em dezembro de 1876. O salão nobre só reabriu em 77. Por coincidência, agora, será reaberto com o salão ainda em obras.

NOMES – Antes de receber o nome de Theatro de Santa Izabel, era chamado de Theatro de Pernambuco. O título permaneceu até o final da construção do prédio, quando passou a ser conhecido como Teatro de Santa Izabel em homenagem à princesa que mais tarde assinaria a Lei Áurea. Em alguns documentos, que ainda se encontram no Arquivo Público do Estado, o teatro é chamado de Theatro Público. Mas com o passar dos anos, a preposição ‘de’ caiu em desuso. “O teatro jamais deveria ter perdido o seu ‘de’, que significava que foi entregue à proteção de Santa Isabel”, reclama a diretora do teatro Geninha Rosa Borges. O tombamento pelo Patrimônio Histórico, em 1949, manteve o ‘de’, mas trocou o ‘z’ pelo ‘s’, virando Teatro de Santa Isabel.

 

 
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