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De Turismo & Lazer/JC
por BRUNO ALBERTIM O cenário é rudimentar, por vezes banal. Quase sempre os intermináveis canaviais da Zona da Mata, alguns da propriedade de usinas que já trocaram a glória pela decadência econômica. O palco também é pobre: chão de terra batida, pouca iluminação, casinhas coloridas com cal. Mas, nesses grotões onde a crise energética não vai, efetivamente, provocar muitos transtornos (já que luz tem sido, décadas a fio, um artigo de luxo), ainda reinam grandes mestres. Homens que experimentaram sucessos relativos de mídia, ou que nunca saíram do anonimato. Mas que constituem o que algum intelectual pode chamar de fonte da alma nordestina. Trocando em miúdos: forrozeiros que torcem o nariz para as bandas que eletrizaram o ritmo e mantém a tradição do pé-de-serra. E nem é preciso ir à Zona da Mata. Nascidos nos canaviais ou na beira do mar, tocando forró ou ciranda, esses homens e mulheres mostram que é possível fugir do onipresente programa junino megashow-e-quadrilha-estilizada para encontrar um autêntico roteiro de mestres. Na cidade de Aliança, por exemplo, a 60 quilômetros do Recife, três distritos rurais terão forrozeiros em atividade nas vésperas de São João. As noites prometem ser animadas nas localidades de Upatininga, Caueiras e Chã do Esconsso. Houve um tempo em que os jovens não queriam saber de pé-de-serra, mas agora o interesse tá crescendo, diz Eduardo Dionísio, 40 anos, 20 deles tocando sanfona de 80 baixos. Comecei com meu tio, que era sanfoneiro. O forró no meio do mato é muito bom. A dificuldade é conseguir parar, diz. Na véspera de São Pedro, em outro distrito, Macujê, a nata da música local vai estar reunida num encontro de sanfoneiros. Na Chã do Esconsso e lugares parecidos é que se encontra o São João de verdade, recomenda o Mestre Salu, do Sonho da Rabeca, que não vai poder fazer a festa no seu Ilumiara Zumbi, na Cidade Tabajara, em Olinda, por causa do racionamento de energia. Salu, no entanto, se apresenta no Pátio de São Pedro (ver matéria na página 6). Lançando o disco que leva o título Bate o Macá - O Povo dos Canaviais, Silvério Pessoa, ele próprio nascido na Zona da Mata, chega mesmo a dizer que sua música nasce da sabedoria e da cultura desses mestres. O São João é a afirmação do sentimento e dos valores de um povo. Isso não é jargão. É a festa do interior, nos lugares anônimos, do cheiro do milho, da música e misturas de religiosidade, diz ele, que, se não estivesse trabalhando no período junino, iria para Carpina, sua cidade-natal. Luís Paixão, rabequeiro de Upatininga, em Aliança, é, nas palavras de Siba, sua principal influência no manejo do instrumento. Ele tem uma técnica limpa, ornamentada. Enfeita as notas, diz o músico da Mestre Ambrósio que, no Recife, não abre mão do São João que acontece no Arraial do Poço da Panela. Sempre toca muito rabequeiro da Mata Norte e de outros lugares. Mestre Grimário, também mestre de cavalo marinho, sai, este ano, do canavial para a capital e mostra a música que faz com o grupo União do Forró. Com algumas exceções, é difícil encontrar pé-de-serra no interior. A juventude de lá só quer saber do forró estilizado que tá na televisão, reclama. E se a idéia é encurtar distâncias, um pedaço da Mata Norte pode ser encontrado no Recife, nas proximidades do terminal de Dois Unidos (Avenida Hildebrando de Vasconcelos, 2.900). Todo domingo, rola o forró de Arlindo dos Oito Baixos, 58, 35 de uma carreira de mais de 10 anos ao lado de Luiz Gonzaga, até sua morte, em 89. No seu quintal, vez por outra, aparece gente como Dominguinhos e Amelinha para beber na fonte, além de estrangeiros e admiradores que somam 400 visitantes. Quase cego por causa da diabetes, Arlindo diz que junho é um bálsamo. Ave Maria, quando chega o São João esqueço até de doença. Fico feliz de ver o povo dançando forró no meu quintal, sabendo que sou eu que estou fazendo aquilo. CIRANDA - São João, no entanto, não é momento de festa para todos os mestres. Este ano, quem for até Itamaracá em busca da ciranda comandada pela mulher que se tornou sinônimo do ritmo, vai se decepcionar. Lia de Itamaracá não pretende sequer brincar a festa. Não fui convidada para fazer ciranda nenhuma. Infelizmente, não é possível cantar sem apoio. É preciso pagar os músicos que me acompanham. Se fala muito da cultura popular, mas ela, na verdade, está sem força, lamenta a cirandeira. Nos últimos cinco anos, a ciranda foi se tornando cada vez mais escassa até que, agora, segundo a diva, ela praticamente não existe em Itamaracá. Já li em revistas que todo sábado faço ciranda na Ilha. Isso não é realidade. Após o São João, Lia estará fazendo o trabalho que lhe garante o sustento que a arte não dá. Em vez de microfones, a cantora vai estar segurando e distribuindo refeições como merendeira de uma escola pública de Itamaracá.
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