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Forró resiste aos modismos de verão

Do Caderno C/JC
por JOSÉ TELES

O forró voltou aos primeiros lugares das paradas de sucesso, graças ao sucesso de um filho bastardo – o grupo paulista Falamansa. O bom baiano Gilberto Gil também deu uma mãozinha, com a trilha sonora de Eu, Tu Eles, representante brasileiro no Oscar, este ano. Sem nunca sair de moda, mas deixando de ser modismo para ficar confinado muitas vezes ao período junino, o autêntico ritmo nordestino sempre manteve a chama acesa pelo seu criador, o Rei do Baião Luiz Gonzaga.

Este é o tema da série de quatro reportagens que o Jornal do Commercio publica a partir de hoje, enfocando os dois principais redutos forrozeiros do Nordeste, Caruaru e Campina Grande. O crítico de música José Teles conversou com artistas locais e constatou que o forró nessas duas cidades, infelizmente, limita-se a ser tocado apenas quando chega o São João. Com essa matéria, a série quer abrir a discussão sobre o forró com novos artistas do gênero, apresentar aos neófitos curtidores do forró universitário as histórias do recluso Onildo Almeida, um PHD na matéria, e ainda, resgatar do limbo compositores como o caruaruense Juarez Santiago, autor de Na Emenda (Trio Nordestino) e Morena Bela (Jackson do Pandeiro).

Em meados dos anos 70, Luiz Gonzaga fazia um show, em Camalaú, cidadezinha paraibana, próxima a Sumé. Depois da apresentação, o prefeito sugeriu que ele desse uma canja no clube, onde acontecia um baile junino. Não era do seu feitio, mas Gonzaga concordou. O arrasta-pé corria solto, e os casais, entretidos no rala-bucho, nem se deram conta de que o conjunto local havia cedido o palco para o Rei do Baião. Continuaram dançando, nem aí para o Lua. Luiz Gonzaga emendava clássico atrás de clássico, e não se dava a mínima para o cantor. Lua foi ficando cismado. Não demorou, interrompeu o xote com um “peraí!!” enfezado, e passou o carão:

“Por acaso eu sou algum palhaço? Não querem ligar pra mim não, é? Pois fiquem vocês sabendo que quem inventou isso fui eu! Fui eu quem inventou forró, o baião, o xote...”. Praguejando, desceu do palco, e saiu do clube, sem se incomodar com os olhares de espanto da platéia relapsa. O episódio é contado pelo radialista Ivan Bulhões, que empresariou Gonzagão nesse e em muitos outros shows Nordeste afora.

Malcriado talvez, no entanto Luiz Gonzaga esbravejou coberto de razão. O forró, diferentemente dos diversos gêneros musicais brasileiros, tem data, hora, local do seu nascimento, assim como o nome dos pais, certos e sabidos. O parto começou às quatro e meia de uma tarde de agosto, de 1945, na Avenida Calógeras, no escritório do advogado cearense Humberto Teixeira, no centro do Rio de Janeiro. Os trabalhos de parto só findaram por volta da meia-noite, quando vieram ao mundo os gêmeos Asa Branca e Baião.

Gonzaga há muito tinha em mente lançar uma música do “Norte” e passou a idéia para o parceiro Lauro Maia, criador do balanceio, o antepassado mais próximo do baião. Maia não topou e indicou para a empreitada Teixeira, irmão de sua mulher, compositor relativamente conhecido.

“Eu fechei o escritório, como eu fazia sempre que vinha negócio de música e nós relembramos, retrospectamos (sic) em torno dos ritmos nordestinos, do Ceará, de Pernambuco, a terra dele. Naquele dia nós chegamos a duas conclusões muito interessantes. Uma delas é que a música ou o ritmo que iria servir de teatro para nossa campanha de lançamento da música do Norte, a música nordestina no sul, seria o baião. Nós achamos que era o que tinha características mais fáceis, mais uniformes para se lançar essa música”, relembrou Humberto Teixeira, em entrevista concedida, em 1995, ao pesquisador cearense Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, dono de um dos maiores acervos de discos do País.

O baião, com variações no andamento, recebeu outras denominações, como rojão, xote, xenhenhém, uma reunião de ritmos agrupados na generalização chamada de forró. Reza a lenda que forró é corrutela da expressão inglesa “for all”. Os ingleses que construíam as primeiras ferrovias no sertão pernambucano organizavam bailes aos quais davam o nome de “For all”, ou “Para todos” em português. A palavra, na verdade, deriva-se de forrobodó, usada para designar os bailes, animados no sertão por um tocador de oito baixos, ou pé-de-bode, e percussão (zabumba e ganzá).

O compositor Onildo Almeida (A feira de Caruaru)é um dos que contestam essa origem saxônica do termo forró. “Quando dizem que o forró nasceu porque o americano dançava ali, esse negócio de “for all”, não é nada disso. Forró quem primeiro gravou foi Luiz Gonzaga e já vinha da família dos sanfoneiros, do próprio pai dele, que tocavam uns forrozinhos mas não sabiam o que era, davam o nome de samba, samba-de-mato. Quem tocava forró mesmo era Severino Januário. Gonzaga foi fazendo e aprendendo forró com ele.”

Humberto Teixeira admite que pode ter sido um dos inventores do forró mas que a música não teria a mesma força se não fosse por Luiz Gonzaga. O pernambucano teve o tino de dar uma formato urbano e pop ao ritmos originados no sertão nordestino, e mais: foi ele quem idealizou o tripé sanfona, zabumba, triângulo, com este último fazendo contraponto ao tom grave do zabumba, modelo copiado por todos os forrozeiros daí em diante.

 

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