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Capital do Forró só no São João

Do Caderno C/JC
por JOSÉ TELES

Caruaru congrega talvez o maior número de compositores, cantores e instrumentistas de forró do Nordeste, mais do que a eterna rival, a vizinha Campina Grande. Segundo Cláudio Soares, da Diretoria de Ações Culturais, da Secretaria de Cultura, somente músicos oficialmente cadastrados, a cidade conta com 74 trios, 22 bandas e 38 sanfoneiros. No entanto, o Alto do Moura está silencioso, não se escuta forró nem sequer nas várias lojas de artesanato, entre as quais se destaca a casa onde viveu o Mestre Vitalino, hoje um modesto museu, administrado pela família.

Os turistas são poucos, não é difícil encontrar mesa disponível em dos barzinhos do Alto do Moura para a entrevista e proteção contra o fortíssimo sol de início de junho. A escolha dos entrevistados foi aleatória, mas acertada. Cada um deles representa uma vertente do forró atual. Valdir Santos, com três CDs, e ainda pouco conhecido além dos limites de Caruaru, lidera a banda Farra & Forró (nada a ver com o forró alambadado cearense) e acrescenta violão e teclado ao tripé sanfona, triângulo e zabumba.

Elifas Jr. é bem conhecido no Recife, pelas suas participações em eventos como o Recifolia. Seu forró é híbrido, bem aceito pela juventude caruaruense (foi o único dos artistas a quem turistas vieram cumprimentar), e é autor de um dos grandes sucessos de Jorge de Altinho, Tamanho de Paixão. Heleno dos Oito Baixos é representante do pé-de-serra autêntico. Por fim, Juarez Santiago, é autor de composições antológicas como Morena Bela (Jackson do Pandeiro) e Na Emenda (Trio Nordestino). Foi gravado até por Luís Gonzaga, mas hoje só é lembrado, fora de Caruaru, pelos cultores do gênero.

Cervejas geladas no ponto, rebatidas com caldinho de feijão, gravador ligado, com a palavra os forrozeiros. “Caruaru é conhecida como a Capital do Forró, mas pra nós é a Capital do São João, porque a gente só toca em junho. E olhe que agora a coisa já está bem melhor, por causa desse cheirinho de movimento musical. Estamos trocando muita idéia fora do palco, trabalhei com Elifas muitos anos, acabei de produzir o disco de Heleno”, comenta o forrozeiro Valdir Santos.

“Você vê aí o Falamansa estourado, mas eles têm o apoio de uma gravadora grande, a Abril Music, coisa que a gente não tem. Tem gente que vê os discos nossos e até entroncha a cara, porque tem propaganda de patrocinador, de apoio cultural. Mas essa é a única maneira que o artista daqui tem pra gravar um disco”, reconhece Heleno dos Oito Baixos.

Para Elifas Jr., o músico de Caruaru “não pode viver só do forró, e não se pode esquecer que aqui tem também a Micaru. Sempre misturei e sempre fui malhado, faço forró mas tenho um trabalho paralelo, sei que o público gosta”.

“Ainda bem que está surgindo uma safra nova, com Valdir, Elifas, Silvério. Viver dos oito baixos não é brincadeira. Pra criar meus oito filhos fiz até disco de vaquejada. A gente pra se sustentar acaba fazendo coisas que não é pra se fazer. Eu fiz Forró de Vaquejada e até pensei em parar de gravar”, queixa-se Heleno.

NO IMPROVISO – O bate-papo no Alto do Moura segue animado. Cada um tem alguma história para contar. “Eu chego na casa de Heleno, aí vejo uma vela atrás da porta. Heleno, pra eu não pensar que era coisa de catimbó, foi logo explicando que aquilo era uma promessa que ele fazia pra conseguir gravar um disco. Então eu disse a ele que se tivesse condições gravaria. Pouco tempo depois, veja só como são as coisas, eu conheço um cara chamado João Bento, de São Paulo. Ele gostou do meu disco, ligou pra Heleno, porque queria me conhecer, e me convidou pra gravar um disco e produzir o disco de Heleno”, relembra Valdir.

A reunião termina num forró improvisado mas autêntico. Heleno saca os oito baixos do estojo, Elifas empunha o violão, Valdir pega um ganzá, Silvério, um pandeiro, começa o forró em Caruaru. Cantam Morena Bela (Morena bela, eu era eu sou/ Morena bela, eu serei o seu amor) de Juarez Santiago (a composição foi gravada por agora por uma banda de forró universitário paulista, a Cana Caiana). O punhado de turistas que se encontra no Alto do Moura aproxima-se, indefectíveis máquinas fotográficas na mão. “Eles pensam que isso tem sempre aqui”, observa Santiago.

O oito baixos, ou gaita de ponto, como é chamada no Sul, é um instrumento complexo na sua aparente simplicidade. Hermeto Pascoal costuma dizer que se o matuto soubesse como é complicado, não tocava o fole. Heleno dos Oito Baixos começou com um berimbau de lata, em Ibirajuba, no Sertão, daí passou para um acordeom de 32 baixos. Quando foi tentar a vida em São Paulo, o sanfoneiro Pedro Sertanejo, da gravadora Cantagalo, sugeriu que ele economizasse nos baixos, e passasse a tocar um pé-de-bode. Heleno prova o domínio do fole, emendando a história com o choro Espinha de bacalhau, composição do pernambucano Severino Araújo, música que exige virtuosismo de quem o interpreta, e mais ainda quando tocada num oito baixos.

Turistas ocupam uma mesa ao lado, encantados com a sessão de pé-de-serra improvisada por Elifas Jr., Silvério Pessoa, Heleno dos Oito Baixos e Valdir Santos. Batem fotos, e devem voltar à sua cidade achando que Caruaru é mesmo a Capital do Forró, e não a Capital do São João.

“Na verdade, Caruaru é conhecida como a Capital do Forró exatamente por causa do São João. Isso é um fato, recebemos reclamações da população e sabemos que os músicos da terra trabalham mesmo é nessa época”, reconhece Cláudio Soares. “Nós estamos há pouco mais de um ano no cargo e o intuito da Secretaria de Cultura é mudar essa história.”

 

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