A obra de Ariano Suassuna representa, na verdade, um projeto de vida, e
não algo isolado, ou seja, apenas um projeto intelectual. Porque, em geral,
costuma ser assim. Desde muito cedo, creio mesmo que antes de chegar à Faculdade
de Direito, ainda com vinte anos, ele já havia estabelecido uma linha de
raciocínio a respeito do Brasil e de sua própria obra.
De forma que, ao criar o Teatro de Estudantes do Recife, estava começando a formular o seu projeto que teria início com uma tragédia - "Uma mulher vestida de sol" -, passando com a maturidade de "O auto da Compadecida" e chegando ao romance "A pedra do reino". Ali eram apresentadas as linhas da sociedade brasileira, vindas do campo para atingir o urbano, de forma que o discurso formal se aliava conteúdo, uma revisão daquilo que o país representa.
Associado a isso, Ariano faria também uma revisão da história familiar, desde o assassinato do seu pai, fato que provocaria esse projeto de vida - porque partindo do particular para o geral. Assim ele iria buscar suas formas literárias, ainda, em Homero, Virgílio e Dante, que lhe servia de exemplo para a composição da obra.
Mas foi no próprio Teatro do Estudante do Recife que o escritor compreendeu a necessidade de ser um autor literário e não apenas um analista da vida nordestina. Ou seja, distanciava-se do regionalismo - nascido com o Movimento Regionalista - e realiza um projeto estético. Isso é a principal lição para quem quer se tornar escritor.
Aliando os dois momentos - história particular e geral -, alcançou o Movimento Armorial, que levaria a outros artistas a marca definitiva de autor que reúne as características de compreensão do mundo e realização do fenômeno criador. Aos oitenta anos de idade, um projeto plenamente realizado.
Raimundo Carrero
Escritor