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Por uma cultura mestiça

Leonardo Dantas Silva *

Ao longo dos últimos quinhentos anos, o povo brasileiro vem recebendo contribuições das mais diferentes etnias que, cada uma ao seu modo, contribuíram para a formação deste nosso mosaico cultural com características próprias e sem similar em nenhuma parte do mundo.

Graças a mestiçagem do nosso povo - formado em seu estágio inicial por brancos, negros e índios, além da contribuição de outros povos que aqui radicaram-se em épocas mais recentes -, o povo brasileiro tomou características próprias, não se confundindo com o ibérico, nem com os primitivos habitantes da América, nem muito menos com o negro africano, ou com quaisquer outro aqui radicado. O brasileiro é tão somente o brasileiro! Um povo mestiço e único, de cultura própria e diferente dos demais.

Diante de tais premissas, qualquer programa cultural para o Brasil deve estar amparado nas vertentes do conhecimento, da preservação, da produção e divulgação dos seus bens culturais.

Nesse imenso mosaico cultural, espalhado por 8,5 milhões de quilômetros quadrados, dividido por regiões de características próprias e marcantes, o administrador deverá ter sua visão não somente voltada para o todo, mas também, e principalmente, para as particularidades regionais. Para isso ele terá que dirigir a cultura de modo inverso, procurando despertar em cada comunidade o gosto e o amor pelos seus próprios valores, a fim de desenvolver todas as facetas originais desse grande mosaico cultural.

O programa tem início com o necessário desenvolvimento do conhecimento, incentivando a pesquisa e a difusão no sentido do entendimento de nossas próprias origens: de onde viemos e para onde vamos!

Com esse conhecimento, sedimentado na pesquisa e no estudo e disseminado nas mais diversas comunidades, torna-se mais fácil a busca da preservação dos valores artísticos e culturais, legados pelas que nos antecederam.

Não somente o patrimônio histórico e edificado, mereceria às atenções de tal programa, mas tudo que foi legado pelas gerações que nos antecederam. Não somente o maneirismo, o barroco e o rococó, formas artísticas marcantes no nosso período colonial, mas também o classicismo, o ecletismo e a arte contemporânea. Não somente os clássicos de nossa literatura, mas toda a produção de nossa gente, nas mais diferentes formas de criação literária. Não somente a produção dos grandes compositores, populares e eruditos, mas também os sons anônimos que nos chegam das ruas e das comunidades rurais.

Em tão amplo programa cultural deverá estar contemplado também o patrimônio imaterial, expresso através de produtos como a cachaça e as receitas culinárias, bem como outros mais tão presentes em nosso dia-a-dia, graças à inventiva de nossa gente. Para essas figuras anônimas, sem qualquer apoio e/ou incentivo, que sobrevivem nas feiras, nas ruas e nas suas toscas oficinas, deverão estar voltados os mais urgentes esforços.

Exploradas devidamente as vertentes do conhecer e do preservar, o administrador cultural voltar-se-á para o incentivo da produção de bens culturais e a sua permanente divulgação, de modo a cultivar em cada um de nós o gosto e o carinho pelas mais diferentes formas do fazer cultural do povo brasileiro.

* Leonardo Dantas Silva é jornalista e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.

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