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Educação
brasileira: avanços, desafios e esperança
Éfrem
Maranhão *
O Brasil
continua rico, figura entre as dez maiores economias do planeta,
mas nem por isso tornou-se menos desigual. O que explica este paradoxo
é a extrema concentração de renda e de riquezas
existentes, colocando-o na indesejável condição
de um dos países com maior grau de iniqüidade do mundo.
É
na educação, no entanto, que as desigualdades econômicas
e sociais se reproduzem de forma ampliada e perversa, produzindo
um círculo vicioso que se manifesta tanto em termos das restrições
às oportunidades de acesso à escola quanto das condições
desfavoráveis de permanência e sucesso educacional,
que afetam as crianças provenientes de famílias de
baixa renda, especialmente nas Regiões Norte e Nordeste.
Apesar dos inegáveis avanços alcançados nas
últimas décadas, especialmente nos anos 90, a situação
educacional no País ainda é insatisfatória,
sobretudo na sua qualidade.
O sistema
educacional brasileiro atravessou um período de acelerada
expansão e de profundas mudanças nas últimas
três décadas, especialmente nos anos 90, refletindo,
de um lado, uma ação mais eficaz do Poder Público
e, de outro, a valorização da educação
pela sociedade, que conquistou espaço, com a redemocratização
do País, para demandar maior oferta e melhor qualidade dos
serviços educacionais.
O Brasil,
segundo Censo Escolar, tem em 2001, 54.491.396 estudantes na educação
básica. Destes, 87,6% estão matriculados na rede pública
de ensino. No último ano houve um crescimento de 1,6% no
número total de alunos da educação básica,
que compreende as matrículas em creche, pré-escola,
ensino fundamental, ensino médio, educação
de jovens e adultos e educação especial.
Desafios
e Compromissos
Educação
Infantil - No plano das intenções, o atendimento
educacional integral para crianças de 0 a 6 anos, passou
a fazer parte das metas da política educacional brasileira,
a partir da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB), aprovada em 1996, que definiu a educação
infantil como a primeira etapa da educação básica.
No entanto, no plano das ações para viabilizar esta
meta, os progressos têm sido bastante lentos, especialmente
nas creches que atendem crianças de zero a três anos
de idade.
Reconhecendo o atraso nesta área, o Plano Nacional de Educação
tem como meta ampliar a oferta de educação infantil
de forma a atender, em cinco anos, a 30% da população
de até três anos de idade, e 60% da população
de quatro a seis anos (ou quatro a cinco) e até o final da
década, alcançar a meta de 50% das crianças
de zero a três anos e 80% das de quatro a seis (ou cinco)
anos.
Hoje,
há uma forte recomendação de iniciar-se o ensino
fundamental aos seis anos, ampliando sua duração para
nove anos. Para que estas metas realmente sejam alcançadas,
o Brasil deverá aperfeiçoar os mecanismos de colaboração
e ampliar os recursos destinados à educação
infantil.
Ensino
Fundamental - O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento
do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério
(FUNDEF), constitui um modelo inovador de financiamento do ensino
obrigatório que, no Brasil, tem a duração média
de oito anos e atende, preferencialmente, crianças de sete
a quatorze anos. Depois de três anos de implementação
deste modelo de financiamento, observam-se como resultados mais
importantes: a expansão da matrícula, atingindo uma
taxa líquida de escolarização de 96%, na faixa
etária de sete a quatorze anos; o substantivo aumento dos
recursos destinados e efetivamente aplicados no ensino obrigatório;
o aumento dos valores de gasto por aluno/ano nas regiões
mais carentes; a redução das desigualdades regionais
e, de forma mais consistente, das distorções dentro
de cada Estado; a melhoria dos salários do magistério;
um maior envolvimento da comunidade e uma maior transparência
na gestão dos recursos públicos. Estudos têm
reiteradamente demonstrado que o FUNDEF é uma ação
acertada, embora ainda haja a necessidade de correção
de seus valores com uma maior participação da União.
O Plano
Nacional prevê, em 5 anos, a universalização
plena do Ensino Fundamental, sua ampliação para 9
anos e a garantia de sucesso escolar, traduzida pela redução
em 50% da taxa de repetência e evasão, aumento da permanência
e da aprendizagem dos alunos como resultado da melhoria da qualidade
do ensino. Para que isso se torne possível, o Plano Nacional
de Educação também estabelece como metas para
o ensino fundamental, que todas as escolas alcancem padrões
mínimos de infra-estrutura, equipamentos e docentes qualificados
em nível superior.
A elevação
progressiva do nível de desempenho dos alunos mediante à
implantação de monitoramento que utilize indicadores
do Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica (SAEB) e dos Sistemas Estaduais e Municipais, que
já se encontram em desenvolvimento, é fundamental,
pois permite verificar que ainda existem altas taxas de repetência
e de evasão escolar.
Ensino
Médio - Um dos principais resultados educacionais alcançados
pelo Brasil na década de 90, foi a expansão do ensino
médio. Este crescimento se deu inteiramente na rede pública,
visto que o número de matrícula decresceu na rede
privada, durante o mesmo período.
O Plano
Nacional de Educação prevê, em cinco anos, graças
à universalização do ensino fundamental, o
atendimento de 50% desta clientela, dentro de um padrão de
infra-estrutura, equipamentos e docentes com nível superior
e, em 2010, 100% da demanda.
Ensino
Superior - É onde o Brasil tem sérios problemas
no que se refere à oferta de vagas, sobretudo nas instituições
públicas. Hoje, estão matriculados menos de 12% da
população de 18 a 24 anos, o que nos coloca numa situação
de inferioridade no conjunto da América Latina. O sistema
de educação superior brasileiro tinha 2,7 milhões
de estudantes em cursos de graduação presenciais,
em 2000. Em relação ao ano anterior, houve um aumento
de 14%, o maior registrado em toda a década de 90. Desde
1995, a taxa média de crescimento anual foi de 8,9%. A rede
privada apresentou o maior crescimento, de 17,5%, e tem 1,8 milhão
de alunos. Em seguida, estão as instituições
estaduais que apresentaram 9,8% de crescimento e têm 332 mil
matrículas.
O Plano
prevê uma expansão, em 10 anos, para atender, pelo
menos, 30% da faixa etária de 18 a 24 anos, dentro de um
padrão de qualidade das condições de oferta.
Além disso, para as Instituições Públicas
garantirem, pelo menos, 40% do total das vagas para esse nível
de ensino, é imprescindível que o novo governo revogue
o veto do atual, sobre o financiamento da educação,
que previa o aumento de 4.8%, para 7% do PIB.
Educação
de Jovens e Adultos - Esta modalidade de educação
demanda uma política nacional de colaboração
das diferentes instâncias de governo e uma participação
mais efetiva da União nos seus financiamentos. Em relação
à primeira lacuna, um passo importante foi dado no primeiro
semestre do ano 2000, quando o Conselho Nacional de Educação,
aprovou parecer fixando as Diretrizes Nacionais para Educação
de Jovens e Adultos.
Plano
Nacional de Educação - Estabelece os objetivos
e metas numa perspectiva de até dez anos. A convergência
com o Marco de Ação de Dakar aparece claramente na
eleição das seguintes prioridades:
»
Garantia de ensino fundamental para todas as crianças de
sete a quatorze anos e para todos os que a ele não tiveram
acesso na idade própria, assegurando o seu ingresso, permanência
e sucesso escolar;
» Erradicação do analfabetismo;
» Ampliação do atendimento nos demais níveis
de ensino: educação infantil, ensino médio
e educação superior;
» Valorização dos profissionais da educação,
o que implica assegurar condições adequadas de trabalho,
salário digno e política de formação
inicial e continuada;
» Desenvolvimento e aprimoramento de sistemas de informação
e avaliação em todos os níveis e modalidades
de ensino, indispensáveis para a gestão do sistema
educacional e a melhoria do ensino.
Devido
ao acentuado grau de descentralização do sistema educacional
brasileiro, os governos estaduais e municipais desempenham um papel
crucial, sobretudo no provimento da Educação Básica.
O regime de colaboração tem permitido a municipalização
da educação infantil, com ênfase na pré-escola
e do ensino fundamental, principalmente das primeiras quatro séries,
caracterizando uma atenção progressiva à criança
na faixa etária de zero a dez anos. Os Estados, por sua vez,
têm assumido o ensino médio e colaboram com os municípios
no atendimento ao ensino fundamental, ofertando, prioritariamente,
as séries finais (5ª à 8ª séries),
caracterizando uma atenção sistemática ao jovem.
O quadro
político brasileiro apresenta-se muito favorável para
que o rumo do esforço educacional que o País vem empreendendo,
evolua para o fortalecimento da escola pública. O
Brasil deu passos decisivos para atingir a meta de universalização
do ensino obrigatório. As pesquisas revelam ainda outros
progressos importantes na educação, como a redução
do analfabetismo e o aumento da escolaridade média da população.
Afinal, a média de anos de estudo do brasileiro ainda é
muito baixa, cerca de seis anos, sobretudo se comparada com a escolaridade
média de países com similar nível de desenvolvimento
econômico, como Argentina, Uruguai e Chile, todos em torno
de nove anos - só para citar, os parceiros do Mercosul, sabemos
que uma escolaridade cidadã é de, no mínimo,
onze anos de estudos. No ranking do analfabetismo, a situação
é ainda mais desfavorável ao Brasil, que corre o risco
de ser o único país sulamericano, com índice
acima de dois dígitos.
É
justamente no campo da Educação de Jovens e Adultos
(EJA) que o balanço da década de 90, apresenta os
resultados menos satisfatórios. O dado positivo é
que houve um decréscimo significativo do analfabetismo nas
faixas etárias mais jovens, ao mesmo tempo em que caiu pela
primeira vez o número absoluto de analfabetos, de 19,2 milhões,
em 1991, para menos de 15 milhões.
Diante
deste quadro, é preciso repensar a política de EJA,
que tem sido descurada na agenda das políticas educacionais.
Afinal, já existe consenso entre todos os segmentos da sociedade
de que a erradicação do analfabetismo deve ser encarada
como uma prioridade nacional. É preciso, no entanto, superar
a visão arcaica de EJA como política educacional compensatória,
para suprir a falta de escolarização na idade própria.
Uma política conseqüente e atual de EJA, não
se resume a simples oferta de programas de alfabetização,
embora estes sejam indispensáveis como ponto de partida para
o caminho da educação básica.
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Éfrem de Aguiar Maranhão é conselheiro da Câmara de Educação Superior
do Conselho Nacional de Educação, ex-reitor da Universidade Federal
de Pernambuco e superintendente do Hospital das Clínicas da UFPE.
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