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Vícios
históricos, compromissos públicos
Dacier
de Barros e Silva *
Herdeiro
de uma cultura voltada para a tradição e criado em
um berço histórico que alimenta a apologia à
reminiscência, o Nordeste brasileiro vive hoje mais um dilema
político entre tantos outros que já trilhou. Às
voltas com a discussão sobre o futuro do seu órgão
maior de planejamento - a Sudene -, todas as propostas
partidárias, sobre políticas regionais, nas últimas
eleições, a despeito de uma década de absoluto
desprezo, apontavam para a sua importância histórica
e a necessidade de se recuperar a sua operacionalidade. Neste aspecto,
já é possível encontrar alguns pontos preocupantes
no que diz respeito aos fatos históricos e a objetividade
concreta de nossas razões políticas.
Mesmo
vista pelos governos centrais como um antro da corrupção
pública e permanentemente citada, apenas, como sendo indispensável
o seu fechamento, sem nenhum poder de decisão e qualquer
capacidade de influenciar nas orientações macroeconômicas,
a Sudene continuava a elaborar para os Estados de sua área
de atuação, o Plano de Desenvolvimento do Nordeste
(PDN) que, apesar do nome, englobam também o Vale do Jequitinhonha,
o norte de Minas Gerais e o norte do Espírito Santo. Definindo
um conjunto de ações de interesse dos 11 estados,
o PDN construía as bases para uma proposta do Plano Plurianual
de Investimentos - PPA (2002-2003) para o Nordeste e planos de desenvolvimento
para os Estados de sua jurisdição.
O Plano
de Desenvolvimento para o Nordeste foi pensado com dois objetivos
básicos: oferecer uma agenda de programas estaduais e orientar
as ações da Sudene e do Governo Federal na Região.
Em síntese, a proposta contém uma estratégia
de desenvolvimento regional, destacando os seguintes aspectos programáticos:
assegurar infra-estrutura hídrica; propiciar a reorganização
e melhoria do desempenho da base produtiva do Nordeste; canalizar
atividades para educação e capacitação
tecnológica; transformar a estrutura produtiva; inserir os
espaços econômicos extra-regionais, distinguindo os
esforços voltados para os produtos de exportação
e o fomento ao turismo; induzir a desconcentração
e a melhoria da infra-estrutura e dos serviços; criar mecanismos
que estimulem e assistam à organização social.
Com
esta proposta, a Sudene pretende se mostrar capaz de exercer o seu
papel original e retomar suas funções de instituição
planejadora do desenvolvimento regional. Neste aspecto, alguns questionamentos
poderiam vir à tona: por que seus técnicos ofereciam
planos de ação política para a região,
se era pública a sua desqualificação administrativa
e moral? Por outro lado, se era imprescindível o seu fechamento,
por que nos planos de ações governamentais de todos
os candidatos continham a defesa de sua manutenção?
O novo governo que assume o poder em janeiro próximo, sem
dúvidas, defrontar-se-á com impasses de extraordinária
complexidade no que tange ao planejamento de políticas macroeconômicas
para o Nordeste. Primeiro, passa a ser herdeiro de um déficit
social ancorado numa cultura secular, a qual se sustenta sobre um
equilíbrio precário de interesses antagônicos.
O setor sucroalcooleiro, por exemplo, monopoliza a terra durante
todo o ano, mas a mão-de-obra é sazonal. Na entre-safra,
a realização do trabalho social é ínfimo
e as adequações no mundo social impõem, secularmente,
formas precárias, porém acomodadas no mundo da vida.
O Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva assume o poder com a responsabilidade
confessada de dar continuidade à linha mestra anterior como:
controle da inflação, defesa do real, respeito aos
contratos e, nisto, uma grandiosa dose de racionalidade se faz indispensável.
O lema que o conduziu ao poder, de forma extraordinariamente competente,
continha a esperança como condição de crença
aglutinadora da identidade Petista. Ocorre, entretanto, que a racionalidade
orientadora de ações nem sempre se compatibiliza com
o sentimento de afeto normatizador da esperança; é
neste aspecto que surgirão grandes impasses. Diante do passado
histórico, é difícil se conceber qualquer indício
de redefinição da imagem da SUDENE associada a tal
realidade. A estrutura técnica administrativa da instituição
é estável e boa parte dos quadros políticos
atuais da região faz parte deste passado histórico,
endossando a descrença na viabilidade de sua revitalização
criadora. É possível, no entanto, pensar o Nordeste
modernizado, no qual o setor canavieiro tenha distribuição
espacial melhor definida e menor poder político; o setor
de serviços receba maior distinção; o setor
primário perceba a sua identidade com a fruticultura irrigada
e demais produções em escala da agroindústria;
a industrialização se capacite para exportação
e, sobretudo, se tenha uma obstinada política de educação
em todos os níveis do saber formal.
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Dacier de Barros e Silva é doutor em Economia Política
e professor de Economia Política e Teoria Política
no curso de Comunicação da Universidade Federal de
Pernambuco.
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