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Fome
Zero, cidadania e soberania
Denis
Antônio de Mendonça Bernardes *
Fome,
desnutrição, subnutrição, em alguma
das categorias desta escala encontra-se parte significativa da população
brasileira. Exatamente a parte da população que geralmente
está excluída do mercado de trabalho formal e, mesmo,
informal. População que também faz parte dos
índices dos que moram precariamente, têm baixa ou nenhuma
escolaridade, não têm acesso ao saneamento básico,
água enganada, coleta de lixo. É verdade que a fome
no Brasil não mata milhares ou milhões de pessoas
como na Ásia ou na África, mas sob suas diversas formas
ela degrada física, moral e politicamente a vida de milhões
de brasileiros. Sua existência revela o lado mais perverso
e inaceitável de nossa formação social e representa
a mais contundente denúncia da face antinacional de nossas
elites, para quem o povo, em geral, somente entra em seus cálculos
políticos para ser reprimido, explorado e ludibriado.
Cento
e oitenta anos depois de nossa Independência a existência
da fome, da desnutrição ou da subnutrição
entre milhões de brasileiros revela de alguma maneira nosso
fracasso em sermos uma Nação para todos os que dela
fazem parte. Por tudo isto, e muito mais, a decisão do presidente
Luís Inácio Lula da Silva de lançar o programa
Fome Zero é esperançosa para quem pensa o Brasil como
uma Nação cujos horizontes vão além
dos interesses dos privilegiados. Não se trata, creio, ou
não deveria se tratar, de uma operação das
que se denomina - equivocadamente - resgate da cidadania. Cidadania
não se resgata. Cidadania surge e se mantém, em um
processo histórico de luta para criar as condições
de sua existência para todos. E, uma destas condições
é justamente que todos possam satisfazer suas necessidades
básicas, entre as quais, poder alimentar-se adequadamente.
O homem é mais que o alimento, mas sem o alimento não
seria nada, é verdade fundamental.
Ninguém,
nem o mais empedernido conservador, nega a necessidade de, ao menos,
minimizar os efeitos da fome, da desnutrição ou da
subnutrição no Brasil. As divisões, debates
e querelas, começam quando se trata de definir as formas
de faze-lo. Cada um tem seu modelo e sempre coloca um mas..., no
modelo que não é o seu. Para além de qualquer
discussão, sempre necessária, importa reconhecer que
o fato do presidente Lula lançar como prioridade de seu governo
o combate à fome, através de um programa específico
para este fim, marca uma mudança histórica. Nenhum
dos nossos dirigentes, desde o Império até hoje, havia
assumido à face da Nação um compromisso de
tal envergadura e de tal significado. Parte do nosso destino como
Nação está, a partir de agora, vinculada ao
sucesso ou fracasso do Programa Fome Zero.
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Denis Antônio de Mendonça Bernardes é doutor em História
Social, professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco
e sócio do Centro de Estudos Josué de Castro.
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