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Eficiência
x Sensibilidade
Roberto
Aguiar *
Ao
longo das mais de duas décadas de sua existência, o Partido dos
Trabalhadores tem, consistentemente, caminhado para se transformar
em um sólido partido social democrata. A conquista da Presidência
por Luís Inácio Lula da Silva talvez venha a se converter na fase
conclusiva deste processo. Tensões internas e externas ao PT serão
decisivas na definição do novo papel do Partido, que enfrentará
seu maior desafio: governar o país com eficiência administrativa,
mas sem perder a sensibilidade social.
Com
recursos muito escassos e reduzidíssima capacidade de investimento,
o Governo Lula não escapará aos constrangimentos de inevitável política
financeira austera, ortodoxa e tradicional. Por outro lado, também
não ficará livre das enormes expectativa e pressão por desenvolvimento
econômico com distribuição de renda, por aumento de gastos portanto,
que a vitória do PT representou e representa para o Partido, para
o Parlamento, para os eleitores e para o próprio Governo. Dilema
de dificílimos enfrentamentos e resolução, mas de crucial relevância
para o sucesso administrativo do Presidente Lula e para o próprio
futuro do País.
O
êxito na defesa e implementação de políticas fiscal e monetária
austeras e ortodoxas não surpreenderá, pelo menos a mim. Afinal,
os trabalhadores brasileiros não são perdulários e, com maestria
invejável, têm administrado a "política" do arrocho no cinturão
para sobreviver, sem nunca perder a esperança. A política de longo
prazo - quanto, como, quando e onde investir - eis a questão, vez
que tudo é urgente. Como priorizar? Existem cincoenta milhões de
brasileiros carecendo de imediato, urgente e contingencial atendimento,
ao mesmo tempo em que as demandas infra-estruturais - energia e
transporte, por exemplo - são também, urgentemente inadiáveis. Como
atender às duas justas urgências, dispondo, para investimento, de
menos de cinco por cento dos recursos orçamentários?
Do
ângulo político, o PT emergiu das eleições, como um partido forte.
Mas, por falha do sistema de representação em vigor no Brasil, não
conseguirá ser Governo sozinho. Alianças e composições serão feitas
e, com elas, grandes tensões políticas ocorrerão, dentro e fora
do Partido. Nunca é de mais lembrar, contudo, que o PT tornou-se
um partido forte inclusive financeiramente. Tem hoje - e, em 2004
e 2006, mais ainda - caixa para fazer face aos enormes custos das
campanhas eleitorais que, no Brasil, batem recordes. Estima-se que,
em 2006, o seu bem organizado sistema de contribuições partidárias
disponibilizará ao PT cerca de cem bilhões de reais. O Partido terá,
sem dúvida, "músculo" para sonhar com mais. Competência já provou
que tem e olho no futuro jamais deixou de o ter.
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Roberto Aguiar é cientista político e Ph.D. pela London School of
Economics and Political Science, da Universidade de Londres.
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